• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Terça, 04 Agosto 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Sex.
 32° / 17°
Períodos nublados
Qui.
 37° / 19°
Céu limpo
Qua.
 36° / 17°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  35° / 17°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Intemporal inquietação, por Carlos Tomé

Cultura  »  2019-07-03 

Quando os primeiros acordes da Gare de Austerlitz se fizeram ouvir no Estúdio Alfa, em Torres Novas, no último sábado de Junho, fui imediatamente transportado para a o concerto do José Mário Branco na Aula Magna, em 1982. Foi uma viagem no tempo de quase 40 anos. Os LaFontinha levaram-me, por simples toque de magia, de Torres Novas a Lisboa e a mesma extraordinária beleza do momento e a mesma inquietação inexplicável daqueles tempos pairaram no ar. Pura magia, porque voltei a sentir as mesmas emoções, aquela indefinida sensação de o que se estava a passar ser muito bom e de ser intransmissível, ser nosso para sempre. A intemporal inquietação assomou novamente à tona de água e entrou de novo em nós, porquê não sei, porquê não sei ainda.

Não foi só beleza, o que se sentiu vindo do pequeno palco do Estúdio Alfa. Foi também isso, claro, mas esteve muito longe de ser a repetição mecânica e impessoal das diversas obras de arte ali exibidas. Os LaFontinha fizeram o mais difícil: tornaram a obra de José Mário Branco uma companhia ali ao pé, era possível tocar-lhe sentir a travessia do deserto, sentir o FMI, estar sentado com esse manifesto histórico fazendo-nos companhia ali mesmo ao lado. “Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois”.

O espectáculo foi uma sentida e sincera saudação a José Mário Branco, como os LaFontinha já tinham feito com José Afonso e com Fausto, mas foi também uma partilha de prazer, um momento de compromisso e empenhamento, uma conjugação solidária de sonhos, de pensamentos e de caminhos. Foi também a força que vem de dentro, sentida e sincera, a capacidade de intervenção, a genialidade, a intimidade, a ironia, a luta dos homens, a “bandeira vermelha bem alevantada”, “de quem é o Carvalhal?”, e a resposta sentida, colectiva, vinda lá de dentro, não gritada mas bem audível, “’É nosso!”, o questionamento, a inquietação, a escolha de uma margem de certa maneira, a margem do outro lado, é esta a nossa margem, a necessidade cada vez mais urgente de “ser solidário assim para além da vida, por dentro da distância percorrida, fazer de cada perda uma raiz e improvavelmente ser feliz”.

Cada acorde, cada som, cada palavra, revelam as características que as canções de José Mário Branco sempre encerram. Houve gente, mesmo ali à nossa frente, que foi possuída pelo espírito da intemporalidade que andava pela sala à solta, “amando a inquietação que permanece para além da inquietação que me apetece”, e conseguiu transmitir esse espírito à medida que se ia libertando das amarras, como num exorcismo ateu, “cá dentro inquietação, inquietação, é só inquietação, inquietação”.

São sempre mais dúvidas do que certezas, mais perguntas do que respostas: “ensinas-me a fazer tantas perguntas na volta das respostas que eu te trazia”, assim foi esta cena, pá.

Para finalizar a saudação com chave de ouro, nada melhor do que as vozes em coro de vinte crianças torrejanas. Nunca mais se esquecerão do acontecimento, perfiladas no palco, recuperando o Coro dos Gambozinos criado para o CD “Resistir é vencer”, para explicarem por que razão a beleza é uma suave emoção. A verdadeira obra-prima que é o “Canto dos Torna-Viagem”, em que se espreita a história de outro ponto de vista, ou como aí se canta, “ver a coisa ao contrário, do ponto de vista de quem não chegou, pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário, eu não era quem eu sou”, subiu ao palco do Alfa e foi cantada por duas vezes, mas poderiam ser muitas mais pois esta canção vale mais do que milhentos escritos contra o colonialismo ou contra o racismo.

E novamente me enterrei no cadeirão da Aula Magna lisboeta, ou na cadeira do Estúdio Alfa torrejano, e só me levantei para saudar, há 40 anos, o José Mário Branco, e agora os LaFontinha, que espalharam por todo o lado a intemporal inquietação.

 

 

 Outras notícias - Cultura


Torres Novas: Tapadas nos 35 anos de cidade, hoje, no castelo »  2020-07-08 

Um concerto da fadista Teresa Tapadas assinala, hoje, a efeméride da elevação de Torres Novas a cidade, com o espectáculo aprazado para as 21h30, no recinto exterior do castelo de Torres Novas. Os espectáculos de música, como este, têm lotação limitada a 80 pessoas, com entrada livre mediante levantamento de bilhete no dia do espectáculo a partir das 19 horas junto à estatua D.
(ler mais...)


“A Força de Sentir”, o novo livro de António Rodrigues »  2020-06-12 

Não é um livro de memórias, mas é um livro cheio delas. António Rodrigues, nome que não precisa de maiores apresentações, apresentou na segunda-feira o seu mais recente livro, “A Força do Sentir”, numa cerimónia limitada pelas circunstâncias actuais, mas que teve honras de livreiro.
(ler mais...)


Morreu Pedro Barroso »  2020-03-17 

Pedro Barroso, um dos mais conhecidos músicos portugueses, morreu ontem à noite em Lisboa, na unidade de saúde onde estava internado, informou a família.

O artista contava 69 anos e iniciou-se no célebre programa da RTP ZipZip, em 1969, e desde então prosseguiu uma carreira de cantautor que o levou a actuar em muitos países e a percorrer praticamente todos os palcos de Portugal, sobretudo a partir de 1974.
(ler mais...)


Santarém: teatro, arte e ar livre na oferta do Círculo »  2020-02-04 

“Na Cidade”, a última criação artística do Veto teatro Oficina apresenta-se em duas datas únicas neste mês de fevereiro, no Teatro Taborda, dia 7 (sexta feira) e 8 (sábado), um espectáculo de teatro que concebido no contexto da celebração dos 150 anos de elevação de Santarém a cidade, “uma reflexão sobre a vidas nas cidades, essa realidade plena de múltiplos microcosmos, contradições, alheamentos, indiferença, egoísmos, mas também solidariedades, esperanças, amizades, surpresas”.
(ler mais...)


Música: novo single de Siul Sotnas »  2020-02-02 

Lançado na passada sexta-feira, está já disponível o mais recente single de Siul Sotnas, aliás Luis Santos, músico riachense com uma obra musical assinalável. “Um monte de gente”, canção em registo pop-rock, fala dos desajustes das personagens que retrata, mas as narrativas remetem para metáforas de uma certa interpretação dos paradoxos e contradições do tempo presente.
(ler mais...)


Actriz Céu Guerra esteve hoje em Torres Novas com alunos do concelho »  2020-01-22 

O espectáculo da Companhia de teatro «A Barraca» trouxe hoje a Torres Novas a peça de Gil Vicente "A Farsa de Inês Pereira" e contou, no final, com a presença da actriz e encenadora da peça, Maria do Céu Guerra.
(ler mais...)


David Antunes e Berg em concerto no Cineteatro São João »  2020-01-19 

O Cineteatro São João, no Entroncamento,  recebe, no dia 25 de Janeiro, pelas 21h30m, um concerto intimista, de piano, guitarra e vozes de David Antunes e Berg.

David Antunes, cantor, compositor e pianista, iniciou a sua carreira aos 6 anos a tocar com o pai.
(ler mais...)


Pedro Barroso: medalha de honra do município »  2020-01-09 

Na reunião camarária de terça-feira do executivo torrejano, foi aprovada por unanimidade a atribuição da Medalha de Honra do Município de Torres Novas a Pedro Barroso, que será entregue em ocasião a anunciar oportunamente, anuncia a autarquia em nota de imprensa.
(ler mais...)


Benção do Gado: verba de 60 mil não chegou a ser votada »  2020-01-09 

Ao contrário do que escrevemos na nossa edição de papel, que sai amanhã, a verba de 60 mil euros para apoio à festa da Bênção do Gado deste ano acabou por não ser votada na reunião do executivo municipal torrejano desta terça-feira.
(ler mais...)


Viva quem canta: a despedida de Pedro Barroso no Teatro Virgínia de Torres Novas »  2019-12-22 

Aberto o pano e sem uma palavra dita ainda, do público que enchia por completo o Teatro Virgínia irrompeu um espontâneo e caloroso aplauso, a primeira das muitas ovações a um Pedro Barroso que anunciara ser ali, naquela noite de 21 de Dezembro, o último espectáculo da sua carreira, iniciada precisamente há 50 anos.
(ler mais...)

 Mais lidas - Cultura (últimos 30 dias)
»  2020-07-08  Torres Novas: Tapadas nos 35 anos de cidade, hoje, no castelo