• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Segunda, 21 de Maio de 2018
Pesquisar...
Qui.
 20° / 14°
Céu nublado com chuva moderada
Qua.
 26° / 13°
Períodos nublados
Ter.
 26° / 11°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  25° / 12°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Angústia no Supermercado

Opinião  »  2018-04-20  »  José Ricardo Costa

"Sou grande adepto dos ravioli e tortellini da Rana"

Resolvi fazer há dias um risoto. Precisava por isso de queijo parmesão ralado. Tudo na vida há-de ter um sentido e se na ordem universal das coisas coube ao parmesão a grata missão de dar alma ao risoto, a ordem lá terá as suas razões.

Fui em busca dele mas nada de parmesão ralado em Torres Novas. Recorri então ao plano B, arriscando outro queijo, e o resultado foi frustrante. Furioso, convoquei os deuses ctónicos e olímpicos, mais o de Abraão, Isaac e Jacob e ainda o outro dos muçulmanos, para que todos, em uníssono, amaldiçoassem esta terra desprezada pelo destino e a viver ainda numa pré-história gastronómica.

Entretanto, a minha revolta não fica por aqui no que a caprichos italianos diz respeito. Sou grande adepto dos ravioli e tortellini da Rana para comer com uns cogumelos salteados e uma saladinha. Sim, há por aí de outras marcas mas ao pé dos da Rana é como comparar Emanuel dos Santos com Soares dos Reis. Não por acaso, é a marca que mais se vê nas prateleiras dos supermercados em Itália. Acontece que em Torres Novas, desgraçadamente, aparecem só alguns, e quase sempre os mesmos, pacotes, ficando o pobre torrejano desfavorecido face ao lisboeta que facilmente vai ao Corte Inglês para se alegrar com um festim de Rana ou a lojas temáticas cujos produtos têm nomes esquisitos que nas margens do Almonda não passam de miragens.

Mas foi precisamente no meio de toda esta minha revolta que, de repente, caí em mim. Afinal, houve um tempo em que para ficarmos felizes e contentes bastavam uns ovos escalfados com ervilhas e chouriço, um bom guisado, qualquer uma das cem maneiras de fazer bacalhau (incluindo pataniscas ou pastéis), uma jardineira, um peixinho no forno, uma caldeirada, uma morcela de arroz com grelos, uma feijoada, um ensopado de borrego, um coelhinho estufado, um cozidinho, um entrecosto no forno com batatinhas a murro, um polvinho à lagareiro, um franguinho corado com aquele arroz com ovo e rodelas de chouriço, uns jaquizinhos fritos com um arrozinho de tomate ou um arrozinho de pato. E como sobremesa um arroz doce (com ovos ou, à maneira torrejana, mais branquinho), um leite creme, a sempre clássica e elegante mousse de chocolate ou uma salada de fruta fresquinha. Caramba, não chega? O que mais é preciso para brilhar à mesa e trazer felicidade aos comensais?

Hoje, porém, sentimo-nos miseráveis provincianos e numa espécie de submundo gastronómico se vivermos num sítio em cujos supermercado não há frutos tropicais, sementes com nomes exóticos, queijo mascarpone ou ricota, limoncello para uma sobremesa, queijo mozarela para uma bruschetta, queijo feta para a salada, cogumelos frescos para saltear ou rechear ou um pacotinho de risoto do tipo arbório (já nem penso no carnaroli ou no vialone nano). Ah, e o parmesão ralado que me fez passar dos carretos!

Caí em mim para perceber que isso não passa de uma tremenda parvoíce, por não ser capaz de perceber a diferença entre aquilo de que se necessita e o que se deseja. Ai, a falta que me faz de vez em quando o meu Séneca! O ser humano, ao contrário do animal tem o dom de transformar o artificial em natural. É mesmo assim e não tem de ser mau. Mas já o será se desejarmos de forma obsessiva ou até doentia coisas das quais não necessitamos (à excepção do chocolate, claro, por se tratar de um mundo à parte). Podemos gostar de risoto, de cheesecake ou de tiramisu e temos todo o direito de gostar. Mas isso não tem de fazer de nós escravos deles. Se pudermos, comemos, se não pudermos, não comemos, evitando-se assim as frustrações que aumentam à medida que também aumentam os desejos.

E por falar em parvoíce, que fique como exemplo moral a frase que Lope da Vega mandou escrever sobre a porta da sua casa, hoje museu, na rua Cervantes: PARVA PROPRIA MAGNA, MAGNA ALIENA PARVA. Mais coisa, menos coisa: o pequeno, sendo nosso, é grande, o grande, sendo dos outros, é pequeno. Toma e embrulha!

 

 

 Outras notícias - Opinião


Maio de 68 e democracia »  2018-05-18  »  Jorge Carreira Maia

Passam este mês 50 anos dos acontecimentos que ficaram conhecidos por Maio de 68, um conjunto de revoltas estudantis que se prolongaram numa onda grevista, sem precedentes, dos operários franceses. Por norma, salienta-se a natureza excepcional desses acontecimentos, onde se aliaram reivindicações libertárias dos estudantes, na área dos comportamentos sociais e sexuais, com as exigências sindicais bem mais prosaicas por parte significativa da mão-de-obra francesa.
(ler mais...)


Uma questão de memória? »  2018-05-17  »  Eduarda Gameiro

Sempre fui portadora de uma lacuna de grandes dimensões: a memória. E, quando sou confrontada com uma situação em que esta faculdade tem grande importância, e eu me encontro na sua ausência, há sempre quem me relembre:
- ‘’Andas a comer muito queijo!’’.
(ler mais...)


Bonés há muitos »  2018-05-17  »  José Ricardo Costa

Há um romance chamado A Montanha Mágica cuja acção se passa num sanatório. Numa altura em que o cérebro humano já só está preparado para aguentar livros de “figuras públicas”, auto-ajuda, espiritualidades e receitas de cozinha, ou então estados de alma no Facebook e meia dúzia de palavras chilreadas a conta-gotas, torna-se bizarro haver quem se lembre de escrever romances passados em sanatórios e de ainda precisar de 700 páginas para o fazer.
(ler mais...)


Magnésio, uma fonte de bem estar para o organismo »  2018-05-17  »  Juvenal Silva

O magnésio é um mineral muito importante para o organismo, para a produção de energia e a saúde do sistema nervoso, cuja deficiência pode causar sintomas como irritabilidade, cãimbras e fadiga, que podem ser atenuados por meio de alimentos ou suplementos naturais.
(ler mais...)


Admirável Mundo Novo... »  2018-05-17  »  Maria da Luz Lopes

Escrever é um ato que decorre do conhecimento, da cultura e dos valores que convictamente seguimos. Nesta linha de pensamento, não poderia começar esta crónica sem falar de Abril.
Inequivocamente para todos, reconhecemos que 44 anos depois da madrugada de Abril, vivemos uma Democracia quase plena que queremos defender para as gerações vindouras.
(ler mais...)


Nós só queremos um parque na cidade. E porquê? »  2018-05-17  »  Nuno Curado

Existe actualmente a necessidade de complementar o desenvolvimento urbano clássico com elementos ecológicos e naturais. Isto passa não só pela correcta manutenção do arvoredo existente, como da criação de outras áreas de valor ecológico.
(ler mais...)


Sua excelência o Mês de Maio »  2018-05-17  »  Anabela Santos

São doze os meses do ano, todos com um significado importante, especial, particular que depende das vivências e das recordações de cada um de nós.
Novembro deveria ser o meu mês de eleição pois, ao contrário de Luís de Camões, eu não maldigo o dia ou o mês em que nasci.
(ler mais...)


Maior quê? »  2018-05-17  »  Inês Vidal

Quando criei pela primeira vez o meu e-mail pessoal havia uma coisa que me atormentava: a quantidade de e-mails disparatados que me chegavam. Uns a felicitar-me por ter ganho carros de alta cilindrada, outros, bem mais divertidos por sinal, a perguntar se eu estaria interessada em aumentar o tamanho do meu pénis.
(ler mais...)


A nossa pátria »  2018-05-04  »  Jorge Carreira Maia

Ao comprar a nova tradução de Frederico Lourenço da Odisseia de Homero, lembrei-me da célebre frase de Fernando Pessoa ou, melhor, de Bernardo Soares: Minha pátria é a língua portuguesa.
(ler mais...)


Sons bons »  2018-05-03  »  Inês Vidal

Tenho esta coisa de achar que não sou capaz, de que não é para mim, que só os outros é que conseguem. É trabalhoso, não estou à altura, não tenho tempo, não sei como fazer. É uma fraca auto-estima que me acompanha.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 10 dias)
»  2018-05-18  »  Jorge Carreira Maia Maio de 68 e democracia
»  2018-05-17  »  José Ricardo Costa Bonés há muitos
»  2018-05-17  »  Inês Vidal Maior quê?