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Os agradecimentos de Santa Comba Dão

Opinião  »  2018-01-30  »  Carlos Tomé

"Homenagearam Salazar gritando palavras de ordem em defesa do ditador fascista"

Durante muitos anos, mesmo muitos anos, o regime fascista vigorou neste país á beira-mar plantado. Saber como foi possível manter-se esse regime tanto tempo, perceber o que esteve na base dessa longevidade, que artimanhas criou para embalar as almas no melhor dos amparos criando a mais feliz das ilusões, e que modos utilizou na opressão e em mil e um mecanismos para subjugar os portugueses durante tantos anos, é um assunto muito interessante. No regime fascista, foram sempre só alguns que tomaram a dianteira, que resistiram e mobilizaram o povo no percurso de muitas formas de resistência. Algumas encaradas mais pacificamente e outras enchendo a via oposicionista e dando-lhe corpo e alma, coerência e consistência.

Na passada sexta-feira numa entrevista ao Público, António Araújo, assessor de Cavaco e também de Marcelo, disse para quem o quis ouvir “é mais importante estudar como o Salazar dominava os conformistas do que como como esmagava os oposicionistas”.

Mas o problema é que os conformistas, gente que por definição se conforma com tudo, não precisam de ser grandemente estudados para se perceber como são levados. Interessará pouco saber qual foi a estratégia que Salazar usou, que manto diáfano da fantasia utilizou para convencer os conformistas porque à partida eles estão convencidos, conformam-se com tudo, não será preciso grandes coisas para os iludir.
Agora, aqueles que à partida não se conformam, não se deixam levar às primeiras, os que veem mais além, muito para lá da espuma dos dias, esses sim merecem ser estudados. Não só merece ser estudada a forma como Salazar esmagava os oposicionistas mas acima de tudo a forma como resistiam a esse esmagamento. E esse estudo merece ser feito em cada lugar, porque a resistência tinha nomes e era localizada. Por cá ainda está por fazer a história da resistência dos torrejanos ao fascismo, e se nada se fizer entretanto tudo será esquecido.

No sábado seguinte, em Santa Comba Dão quatro dezenas de militantes da extrema-direita com Mário Machado à cabeça, homenagearam Salazar gritando palavras de ordem em defesa do ditador fascista, afirmando que foi o único político honesto em Portugal nos últimos 100 anos.

No manifesto da nova organização política que pretende ser partido, NOS (Nova Ordem Social), pode ler-se “O desemprego crescente, o monstruoso défice orçamental, a perda de soberania, os elevados impostos sobre as famílias e sobre as empresas, a quebra da natalidade, a supressão de valores e do solidarismo, a ausência de futuro! É esta a herança que nos deixaram todos aqueles que têm governado o país, com a conivência de outros que se têm servido à mesma mesa do orçamento”.

Isto é, não estamos longe de aparecer alguém que de forma populista consiga levar muita gente atrás de balelas, futuros imaculados, criados por gente honesta e intrujices similares. E depois lá aparecerão os resistentes, aqueles que não se deixam embalar facilmente.

Seja qual for a estratégia que os novos salazares usem para assomar às luzes da ribalta, será extremamente fácil levar os conformistas atrás. Quanto aos outros, os tais oposicionistas, os que não vão atrás de qualquer canto de sereia, aqueles que resistirão sempre, os que lutam todos os dias e muitas vezes em condições desumanas, esses serão devidamente esquecidos. Se esses exemplos não forem registados e estudados, se os conformistas não forem derrotado, é o esquecimento total. Santa Comba Dão agradece.

 

 

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