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Crise Inflamatória

Opinião  »  2008-10-23  »  Eduarda Gameiro

No início da era cristã, Cornelius Celsius, médico romano identificou e divulgou os principais sintimas evidenciadores de uma inflamaçã ”Rubor, Tumor [inchaço], Calor, Dor”. Posteriormente, o polaco Rudolf Virchow acrescentaria a essa lista a ”perda de função” das células lesadas no processo inflamatório. Caracterizava-se, assim, o que é uma inflamação para quem a sente ou para quem a vê. Mas, como Celsius e Virchow certamente saberiam, é impossível trata-la sem compreendermos adequadamente o que está errado no jogo de forças opostas do campo de batalha em que o nosso corpo se transforma.

O mercado mundial está em crise. A bolsa aproxima-se de um crash que pode atingir proporções semelhantes ao que abalou o mundo a nível político, económico e social em 1929. Sabemos disso porque contemplamos com desconforto o aparecimento dos seus sintomas no nosso bolso. O dinheiro começa a faltar, as dívidas vão aumentando e a confiança necessária para investir diminui drasticamente. Entra-se assim numa espiral interminável, num poço sem fundo que nos separará cada vez mais do bem-estar.

Uma crise nos mercados financeiros, para quem conhece algumas noções de economia (o que não é o meu caso), poderia ser comprada a uma inflamação, ou seja, a um jogo entre forças opostas, entre organismos maiores e mais pequenos, entre presas e predadores, que tende para um equilíbri a morte ou a saúde do capital. E o seu fim, qualquer que seja, acarreta sempre o benefício dos interesses de algumas das entidades em confronto, acompanhado por uma redistribuição ainda mais injusta dos bens em jogo. Então, se a morte desse organismo gigante que é o dinheiro lançaria o mundo num caos para que ninguém está preparado, manutenção da sua saúde acaba por envolver o sacrifício de muitas dessas pequenas células. Morrem as inocentes, que viviam a sua vida à deriva neste mar de fluxo de riquezas, sem vontade de o navegar ou de sair dele.

Porém, a crise, para nós, é apenas o conjunto de sintomas que sentimos na pele. Não é mais que o inchaço das dívidas… Que o calor que se apodera de nós quando nos ajoelhamos perante tudo o que perdemos… Que o rubor que cobre a face dum homem que percebeu subitamente que não tem como sustentar a família… Que a dor de ficar pelo caminho, abandonado à fome e à sede no deserto, nesta corrida pelo dinheiro em que a sociedade nos coloca à nascença… Que a dor de ser condenado à morte, à perda de função, pelo dólar.

Não podemos perder-nos na ignorância dos grandes movimentos financeiros mundiais, como alguém que esbarra na pele de um corpo inflamado. Mesmo não conhecendo a anatomia dos mercados ou a fisiologia das grandes transacções, é importante que cheiremos a doença bem profunda e inerente a todos estes sintomas. É importante estar alerta para a verdadeira natureza da crise, para a sua razão de ser e para quem ganha com ela.

A crise existe por uma razão, e é orientada para uma certa finalidade. Não a conheço nem me atrevo a tentar adivinhá-la, mas pressinto algo de errado por detrás destes sintomas. Precisamos de reconhecer o que está mal aqui e de o tratar, já que se está a tornar cada vez mais insuportável para cada vez mais gente…E começa-se a tornar óbvio quem são os predadores que vão ganhar com isto.

 

 

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