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O problema do Pai Natal

Opinião  »  2008-12-18  »  Fernando Faria Pereira

O Juiz olhou demoradamente aquela figura caricata de barbas brancas e barriga rubicunda que parecia ausente, sem perceber o que se passava, dir-se-ia divagando pelas estrelas. Depois de ponderar cuidadosamente a matéria submetida a juízo e avaliar as alegações de todas as partes concluiu que, manifestamente, não podia produzir qualquer acusação, (considerando embora a gravidade das mesmas), pela simples razão de que o réu presente em tribunal não constituía figura jurídica não estando por isso abrangida pelas leis que regiam a nação. Assim como entrou, calmo e ponderado mas mantendo aquele olhar distante onde se pressentia o eco da noite mais fria do ano, assim saiu do tribunal sumindo-se de imediato na claridade o dia, caso nunca visto, ludibriando assim o exercito de repórteres que esperavam uma declaração sua, não para esclarecer o caso, mas para justificar perante a opinião pública tão estranho processo judicial. Manteve-se capa de jornal durante bastante tempo, primeira notícia de telejornal, tema de programas radiofónicos, mas o facto incontroverso é que, embora correndo o mundo inteiro, nunca ninguém, nem o mais apurado faro jornalístico, consegui descortinar o mais elementar rasto de tão estranho personagem.

A história tinha começado há algum tempo. Mais concretamente numa longa noite de Inverno no pólo norte, tão a norte que nunca aí chega o nariz preto dum urso polar. O Pai Natal estava sentado confortavelmente junto à sua janela de vidro duplo. Estranhamente melancólico olhava para a imensidão branca, uma paisagem sem cor, ondulada pelo vento forte, agreste e desoladora, sem vida nenhuma mas viva porque faz parte da teia mundial que une o floco de neve do interminável deserto gelado ao mais pequeno ser vivo no oásis de vida da linha imaginária do equador. Mamãe Natal pressentiu a tristeza de Papai Noel e foi-se chegando dengosa, meneando as ancas. Enroscou-se na barba branca, tal ave no ninho, e deixou, como que distraidamente, o roupão, vermelho forte com uma franja branca, deslizar mostrando as pernas esbeltas de pele macia e perfumada… Fez-se calor! E no final do gostoso combate, apenas no final, quando o Pai Natal descansava a imensa barriga sob os lençóis feitos dos mais finos líquenes, só então lhe perguntou qual a razão de ser de tão estranha melancolia, ainda por mais numa figura que tem por principal função distribuir, embora apenas numa noite por ano, a alegria e a paz pelo mundo inteiro dos que acreditam. Ele, depois de demorar as palavras por alguns minutos, respondeu que era justamente por isso; porque estava farto de tentar distribuir a esperança pelo mundo e muito embora soubesses que, no sorriso de uma única criança existe sempre um vislumbre dum segundo da eternidade, só isso não chegava porque logo logo, voltava a fome e o desespero. Ela pesou também demoradamente a resposta para depois, como Eva para Adão, espicaçar no cérebro atormentado de São Nicolau, a dúvida que acabou por ser o rastilho de toda esta estória. Já viste que durante todos estes anos, em que te desdobraste numa noite, voando à revelia dos fusos horários, sempre te preocupaste em distribuir prendas principalmente pelos pobres? Pensa bem paizinho! Soletrou a palavra paizinho com uma voz tão dengosa e quente que, lá fora um glaciar deslizou, subitamente, mais uns metros em direcção ao degelo, com os mesmos efeitos do aquecimento global! Quando dás aos pobres a tua oferta não se multiplica porque eles gastam logo tudo em comida e noutros bens não duradouros ao passo que, se deres aos ricos, eles arranjam maneira de reproduzir o dinheiro, contrariando aquele adágio que diz que o dinheiro não cresce.

Experimente este Natal em vez de dares aos pobres dares aos ricos, para grandes males grandes remédios!

E assim foi nesse Natal o Pai Natal não distribuiu pelos pobres mas sim pelos ricos, não por aqueles que são apenas remediados, mas sim pelos muito ricos. Claro está que essas pessoas habituadas a lidar com milhões não iam aceitar apenas uns trocos que encheriam de alegria todos os pobres do mundo sujeitos a terem de recorrer ao microcrédito. Não, claro que não! A prenda para esses felizes contemplados, donos de bancos e de instituições de crédito teve de ser em metal sonante, barras de ouro, sacos de diamantes, arcas cheias de notas…

Onde é que o Pai Natal foi desencantar tais quantias, exorbitantes valores, somas inimagináveis para o comum dos mortais? Também aqui foi Mamãe Natal que lhe segredou ao ouvid fazes circular pelo mundo inteiro que vendes o teu trenó. O meu trenó? Sim! Então já viste o que valor que tem um meio de transporte que, numa era da comunicação virtual, nos leva em carne e osso, no espaço de um segundo a qualquer parte do mundo como se tivéssemos o dom da ubiquidade? Então e depois como é que eu me desloco? Fácil, tu vendes o trenó, e não é uma venda virtual, mas não vendes as renas, logo arranjas outro trenó!

Nesse natal o Menino Jesus tremeu de frio na sua cama de palhas. Os reis magos ofereceram-lhe dinheiro, ouro e diamantes, mas como S.José e Nossa Senhora não tinham onde guardar tais riquezas num pobre estábulo, ofereceram-se para, ainda para mais com uma bagatela de juros, lhes aplicar essas riquezas, advertindo-os no entanto, para que não pudessem ser acusados de qualquer má fé, da instabilidade da economia mundial. A vaquinha bafejou o menino e todas as pobres crianças do mundo, com esse gesto desinteressado, sentiram um vento quente que por segundos lhes devolveu o sorriso e escondeu a fome.

 

 

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