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Jornal Torrejano
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não há chinês que peça meças ao cigano

Opinião  »  2011-12-22  »  Carlos Tomé

é tudo a cinco aéreos ò freguesa tenho blusas lindas e macias de seda que se ajustam ao corpo e já não largam a gente ò minha senhora veja lá esta lindeza é seda da boa pescada esta noite ainda vem fresquinha olhe para isto de primeira qualidade é tudo a uma nota de cinco é só escolher não há melhor nesta feira sou cigana mas sou honesta ò senhor também tenho calça de ganga que lhe assenta como uma luva e estas camisolas de classe com o lagarto da lacoste que foi caçado esta noite ainda tem a boca aberta ó freguês leva dois paga três não há chinês que peça meças ao cigano então minha querida fica-lhe mesmo bem o seu namorado não vai tirar os olhos de si, assim fosse com o meu homem posso-me arranjar toda vestir uma saia justa pôr uma blusa de seda aberta até ao umbigo borrar a cara com carradas de creme esticar as pestanas mais de um palmo que o raça do homem nem sequer me deita o canto do olho só tem olhos para aquela lambisgóia da vizinha e então quando ela sai da barraca toda aperaltada a abanar o cu como se estivesse a dançar a lambada o ordinário começa logo a esfregar o bigode a pensar que eu não o vejo ele que se afoite a passar-lhe as manápulas pelo lombo que vai ver como elas lhe mordem vou à barraca buscar a caçadeira que está debaixo da cama e acerto-lhes com dois tiros nos cornos que vão desta para melhor vão fazer tijolo bem juntinhos os dois mas isto sou eu a falar é só da boca para fora porque sei que não tenho coragem para fazer mal ao meu homem e sei que ele depois de morto havia de chegar à barraca com os azeites e amarguçar-me a cabeça na bacia de lavar os pés e depois puxar-me os cabelos até ficar com uma rodilha deles nas mãos e para acabar a festa mandar-me duas estaladas que até ficava com os cinco dedos marcados na cara por uma semana inteirinha mas isso são contas de outro rosário coisas da imaginação, ò nelo vê lá o cachopo que já não sei onde ele se foi esconder ainda há um niquinho estava aqui à minha beira agarrado à saia e agora evaporou-se deve andar todo emboldreado em lama e ranhoso que nem um caracol a deitar ranho por todo o lado, ò freguesa vamos lá é para acabar que eu tenho que ir pôr uma panela de feijão a cozer amanhar duas galinhas e esfolar três coelhos porque esta noite é noite de pândega até de manhã temos lá na barraca os meus irmãos todos mais os primos e as filhas e um rebanho de cachopos que não param quietos quatro cães duas mulas e uma burra que ficou do circo mariano e ainda tenho que ir buscar lenha para a fogueira e dez grades de cerveja para os homens se embebedarem até porque vem o juvenal e só ele mais o primo bebem para cima de duas grades e também vem o vitinho mais a guitarra e as palmas no ritmo até fazerem calos nas mãos e os corpos insolentes das moças ciganas com os cabelos negros escorridos pelas costas morenas e nuas e as canções dos ciganos de ouro e dos gipsy kings a encantarem os ouvidos vai ser uma festa de arromba vamos todos comer beber cantar e dançar até desfalecermos sem forças cairmos de cu espojarmo-nos no chão de terra e bebermos o orvalho da madrugada amarga nos beiços doces e assistirmos ao nascer do sol como se espera ansiosamente um amigo que vem sempre ter connosco e ficarmos especados no olhar de quem amamos e amarmos quem nos quer amar e sentirmos a suavidade do vento quente da noite a lamber as nossas ventas e a desfraldar a blusa de seda da feira aberta como uma coisa linda e suave e macia e livre e amanhã é outro dia

 

 

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