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Jornal Torrejano
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vamos constituir uma loja da marcenaria não somos menos que essa gente que se diverte a brincar às lojas

Opinião  »  2012-01-20  »  Carlos Tomé

primeiro entrou o joaquim da arcada acabado de sair das obras com a pirisca apegada ao lábio inferior com cola cuspo e fazendo-a bailar de um canto para o outro da boca com a destreza de uma língua afiada de pedreiro livre depois veio o manel sete dedos carpinteiro desde os treze anos feito moço de recados e depois marçano antes de manobrar uma garlopa com destreza tal que lá deixou três dedos da mão canhota e por via disso veio a calhar-lhe a alcunha de sete dedos só depois chegou o zé maneta um profissional de alto gabarito capaz de rebocar estucar e caiar um tecto só com uma mão e finalmente chegou o xico serrote um verdadeiro artista na arte de manobrar a serra de fita e na faina da plaina sobre a madeira aplainando nós e inchaços de olhos fechados e os quatro amigos ocuparam a mesa do canto e mandaram vir ao mário alturas um queijo de cabra em fatias dois papossecos um pires de azeitonas e dois jarros de litro de vinho da casa havia mistério pelo ar misturado com o cheiro a frango assado fez-se um silêncio sepulcral apenas quebrado pelos arrotos de algum freguês descuidado pelo suspiro assobiado do zé da estação que dormia amargunçado no balcão ou pelo roncar do zeferino marreco que curtia a carraspana do dia anterior encostado ao barril do vinho arriscado a esparramar pelo chão o precioso néctar e foi então que o professor pardal assim conhecido por ter a mania que sabia tudo e era um ás nas invenções que estava a jogar à sueca com o leonel arrenúncia que tinha o nome com ele por não ser propriamente um honesto jogador de bisca lambida sussurrou em voz alta para quem o quis ouvir, vamos constituir uma loja da marcenaria não somos menos que essa gente que tem a mania que é da elite e se diverte a brincar às lojas, de tão interessante a ideia desarmou qualquer ousadia dos presentes pois de facto era uma grande ideia e logo ali se definiram os passos em volta iriam encomendar os aventais ao américo das malhas pediriam às marias para bordarem um martelo de orelhas um formão com uma apara de madeira e um tronco de pinho francês depois iriam pedir emprestada a loja de ferragens ao abílio pereira reis para aproveitarem um espaço para a sua própria loja da marcenaria e nela poderem vender todo o tipo de quinquilharia do ofício alicates turquês travadeiras punções pés-de-cabra arranca-pregos grosas de meia-cana limas de três quinas lixas pedras de afiar arcos de pua furadores brocas verrumas pregos de cabeça dupla formões goivas enxós guilhermes e escantilhões e cumpririam os rituais dos outros tipos ou seja falariam em código para ninguém perceber cumprimentar-se-iam com um passoubem maricas inventariam um piscar de olhos como na sueca dariam uns pontapés por baixo da mesa como no dominó calçariam luvas de pedreiro seriam livres solidários e fraternos como os seus pares pindéricos meteriam umas cunhas para poderem ser atendidos à frente de outros clientes no zé da ana ou para entrarem à borla nos jogos do quintal do zé maria ou para poderem gritar secretamente a quem os quisesse ouvir que eram membros secretos da marcenaria e também teriam direito a um taxo no grémio da lavoura mas o joaquim contraplacado que era do contra e com ele carregava a alcunha começou logo ali a meter pitafos e mais isto e mais aquilo mais que deixa e que torna apresentou um tal relambório de queixas que até cansava só de ouvir mas isso não era de estranhar pois sempre teve a mania que haveria de ser o grande arquitecto e ainda antes de se constituir a loja da marcenaria já se criava um cisma pois a ambição desmedida era o seu pecado e o tráfico de influências o seu rito de tal modo que até tentou entrar como carpinteiro para o félix carreira ele que nunca tinha pregado um prego de cabeça chata numa tábua de solho

 

 

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