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Um país a brincar - carlos paiva

Opinião  »  2025-09-20  »  Carlos Paiva

"A malta sabe que é curto. Mas vai ter de dar." Episódios ilustradores da mentalidade portuguesa, em versão condensada. Ou, a cronologia recente em pontos altos, do culto da irresponsabilidade endémica lusitana.

 Acidente de aviação na ilha da Madeira em 1977, do qual resultaram 131 mortos. Consequência de aterrar um Boeing num selo de correio, ser considerado prática viável e segura, mesmo com chuva intensa. Ainda hoje, depois da pista substancialmente alongada, aterrar significa travões a fundo mal as rodas toquem no chão, levantar voo significa acelerador a fundo antes de soltar o travão de mão.

 Acidente ferroviário de Alcafache, linha da Beira Alta, em 1985, do qual resultaram 150 mortos. Oficialmente, "falhas de comunicação" provocaram a colisão frontal de dois comboios a circular em sentidos opostos na mesma linha, a cerca de 100km/h de velocidade.

 Acidente rodoviário de Entre os Rios em 2001, do qual resultaram 59 mortos. Extracção de areia em excesso no rio, falta de vistorias e ausência de manutenção (reparação e reforço dos pilares), teve como consequência o colapso de uma ponte de travessia do rio Douro com todas as viaturas que lá circulavam em cima.

 Incêndio de Pedrogão Grande em 2017, do qual resultaram 47 mortos. Quilómetros e quilómetros de explorações de eucalipto, com pouco mais de 50cm entre as árvores, potenciaram a devastação pelo fogo, com uma rapidez e intensidade de proporções épicas.

 Acidente rodoviário de Borba em 2018, do qual resultaram 5 mortos. Aluimento de terras arrastou um segmento de estrada municipal (ladeada por pedreiras de ambos os lados) e viaturas que lá circulavam. A versão lusitana da "ruta de la muerte" boliviana. Distância de defesa não era respeitada, fissuras foram detectadas, avisos foram emitidos.

 Acidente ferroviário do Elevador da Glória em Lisboa em 2025, do qual resultaram 16 mortos. Um cabo rompeu-se. Manutenção sujeita a prioridades economicistas, estrutura e tecnologia do século dezanove, sem redundância de segurança.

 Até a tragédia acontecer, tudo era extremamente seguro e fiável, nas mãos de profissionais da mais elevada competência. Tudo respeitava com rigor a legalidade e as boas práticas. Mesmo depois, mantém-se essa posição, apesar de incompatível com o drama da realidade. Prioridades económicas e facilitismos, criaram as condições necessárias para que, seis incidentes em menos de 50 anos, ceifassem mais de 400 vidas. Não foram catástrofes naturais, imprevisíveis, foram ineficiências humanas. Más decisões e cedências.

O que têm todos estes eventos em comum? Muita coisa. Aconteceram em Portugal. Causaram vítimas mortais. Tiveram origem em problemas estruturais deliberadamente ignorados durante anos a fio. Solucionáveis investindo largas somas de dinheiro, ou, inibindo largas somas de lucros. Em suma, resolver preventivamente era caro, ou iria incomodar interesses que seria melhor não irritar. Tirando algumas demissões pontuais, e provavelmente o operacional que se via obrigado a fazer omeletes sem ovos para conseguir cumprir ordens e manter o emprego, ninguém, nenhum decisor, foi culpado, multado, penalizado, preso, prejudicado no seu percurso. Excepto as vítimas que pagaram com a vida. Propõe-se umas indemnizações à laia de rolha. Os mortos não falam, compra-se o silêncio dos vivos.

Mesmo reduzindo tudo à perspectiva economicista, insensível aos custos humanos, o dinheiro que se gasta depois, não é o mesmo (ou mais) que se gastaria antes? Evitava-se a tragédia.

Um país a brincar.

 

 

 

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