• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Domingo, 20 Janeiro 2019    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qua.
 14° / 9°
Céu nublado com chuva fraca
Ter.
 14° / 6°
Céu nublado com chuva fraca
Seg.
 14° / 5°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  14° / 8°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

FURAR OU NÃO FURAR

Opinião  »  2016-01-09  »  José Ricardo Costa

"Há coisas que furam os ouvidos de uns mas não furam os ouvidos de outros. Cabe a cada um decidir o que fura ou não os seus, tendo apenas que não se furar ouvidos que não querem ser furados."

Bem nos podemos esforçar por explicar, com os mais sofisticados dotes retóricos, que somos a favor disto ou daquilo. Mas é nas reacções espontâneas que mais verdadeiramente nos revelamos. Pelo que observei do mundo e por livros que li cujas posições achei sensato adoptar, há muito que me considero política e filosoficamente liberal. Mas eu podia dizer que sou liberal apenas da boca para fora. Há muita gente que defende certos valores mas depois age de um modo completamente diferente. Ora, aconteceu-me ontem uma coisa que, apesar da sua insignificância, me levou a confirmar a minha convicção a esse respeito.

Ainda antes de contar o que me aconteceu, gostaria de dizer que sou habitualmente contido no que diz respeito a asneiras. E se é raro dizê-las mais raro ainda é escrevê-las. Será por isso com o mesmo tipo de constrangimento sentido nos julgamentos quando se trata de reproduzir certos diálogos registados nos processos, que irei aqui invocar algumas pérolas do nosso património vernacular.

Ontem, durante a minha hora de almoço, saí da escola para ir a uma caixa Multibanco, regressando depois pelo passeio junto ao gradeamento da escola até ao portão. É ainda no passeio que, de repente, oiço e vejo, no interior da escola, um fedelho (7º ou 8ºano) a gritar: «Pára com essa merda, caralho, estou farto disso, foda-se», enquanto se afastava do colega contemplado com tão sublimes impropérios. Afastava-se mas não se calava, e quanto mais longe estava do colega mais alto gritava as mesmas palavras, «caralho, foda-se, foda-se, caralho» de um tal modo que se ouvia não apenas numa área considerável da escola como também no seu exterior. De certeza que quem estivesse nas lojas e cafés em frente à escola estava também a levar com toda a diarreia verbal da criança.

Eu, habitualmente tolerante e paciente, passei-me dos carretos e num gesto pouco habitual em mim, gritei para o chamar. Resistiu ao meu primeiro grito mas já não resistiu ao segundo, dirigindo-se então até à grade para falar comigo. Num tom crispado que a mim próprio me surpreendeu, vociferei que não admitia que dissesse aquelas palavras aos gritos numa escola ou em qualquer parte fora da escola onde estivessem outras pessoas. O rapaz, humilde, pediu logo desculpa e dizendo que não voltaria a acontecer. Foi nesse momento que eu, sensibilizado com o arrependimento imediato e sincero do rapaz, disse num tom já bem apaziguador: «Baixinho, podes dizer o que quiseres, as asneiras que quiseres, não podes é dizê-las daquela maneira, havendo pessoas por perto».

Mal acabei de dizer isto, caí em mim: «Meu deus, eu sou professor, educador, formador. A minha obrigação seria dizer-lhe que não deve dizer asneiras, que é feio dizer asneiras, seja alto, seja baixinho, seja em em público, seja em privado». Tal como o rapaz se arrependeu do seu disparate, eu arrependi-me do meu, reconhecendo que não devia ter dito o que disse. Mas como gosto de perseguir um problema enquanto não tenho uma visão clara dele, horas depois, ao regressar a casa, voltei a pensar na minha atitude, para depois concluir que nada fiz que mereça censura.

O que eu fiz com aquele garoto foi tomar uma posição mais política do que moral. Se eu lhe tivesse dito que não deve dizer asneiras, seja quais forem as circunstâncias, eu estaria a intrometer-me na sua vida privada. Nunca aceitarei que fale assim numa sala de aula, numa escola aos gritos ou, fora da escola, se estiver a incomodar outras pessoas. Mas quem sou eu para lhe dizer que não pode falar assim se estiver em casa com um colega a jogar playstation, quando vê o Benfica sofrer um golo ou se entalar o dedo numa porta? Sim: quem sou eu? Qual a minha autoridade enquanto cidadão da mesma polis? A polis é a polis, o domus é o domus. Espaço público é uma coisa, espaço privado uma outra.  Quem advertiu aquela criança não foi pois um moralista que deseja impor certos valores cujo desrespeito não implica uma ameaça para a sociedade mas também não foi um relativista, um anarquista, um anómico, um fanático de um laissez-faire radical. Foi alguém que tomou uma posição política, explicando pedagogicamente que existe um espaço social que é de todos e que dentro desse espaço há que respeitar certas regras. Mas que fora dele, e desde que não se prejudique ninguém, cada um deve viver a sua vida da maneira que mais lhe agrada, tendo todo o direito de o fazer.

A dimensão política não deve ser completamente independente de uma dimensão moral. No fundo, em termos de teoria dos conjuntos, temos uma intersecção. Há coisas da política que nada têm que ver com a moral, há coisas da moral que nada têm que ver com a política, havendo, sim, é verdade, uma área que é comum a ambas, mas que não contempla a situação que acabei de descrever. Neste caso, uma incondicional defesa da liberdade individual. Há coisas que furam os ouvidos de uns mas não furam os ouvidos de outros. Cabe a cada um decidir o que fura ou não os seus, tendo apenas que não se furar ouvidos que não querem ser furados.

 

 

 Outras notícias - Opinião


As eleições europeias »  2019-01-11  »  Jorge Carreira Maia

Das três eleições que decorrerão este ano – Regionais da Madeira, Legislativas e Europeias – serão estas últimas as mais importantes para o nosso destino a médio prazo.
(ler mais...)


O desassossego »  2019-01-11  »  Anabela Santos

Ou eu estou num estado de loucura que me faz confundir o real com o irreal, ou vivo num país imaginário, num sonho (menos bom) permanente, ou totalmente enganada vinte e quatro horas por dia.

Não são poucas as vezes que ouço ou leio nos meios de comunicação que o país vive tempos tranquilos.
(ler mais...)


E o Zeca revisitou-nos »  2019-01-11  »  António Gomes

Não foi um qualquer concerto, foi mesmo a sério. O Zeca revisitou-nos, desta vez no Estúdio Alfa, pela mão dos “LaFontinha”. Tal como há 50 anos, José Afonso esteve entre nós, em Torres Novas.
(ler mais...)


Como a dor desfolha o peito »  2019-01-11  »  Carlos Tomé

1.Embora uma das imagens de marca do antigo regime fosse a opressão, felizmente existem histórias de resistência espalhadas por muitos locais. A resistência contra o fascismo não foi uma expressão meramente teórica, antes foi preenchida com muitos exemplos reais, episódios de coragem, gente de carne e osso que trocou as voltas ao destino, lutando contra ventos e marés.
(ler mais...)


O negócio dos extremos »  2018-12-20  »  Jorge Carreira Maia

Uma das questões que parece atormentar certos comentadores políticos é a da ausência de uma extrema-direita em Portugal. Apesar de isso não ser completamente verdade – não existe uma extrema-direita organizada politicamente, mas existe uma extrema-direita social, ainda inorgânica –, há uma outra questão que deveria merecer atenção.
(ler mais...)


A OBESIDADE É UM PROBLEMA DE SAÚDE »  2018-12-19  »  Juvenal Silva

A obesidade é um problema de saúde e também um fator de risco para diversas doenças. Pessoas com mais de 20% de peso acima do recomendado para a sua altura e sexo, são mais vulneráveis a doenças degenerativas, nomeadamente problemas cardíacos, determinados tipos de doenças cancerosas, diabetes, artrite, etc.
(ler mais...)


Os(as) caixas de supermercado »  2018-12-19  »  António Gomes

Todos os anos por esta altura, sou confrontado com os episódios que se repetem quase mecanicamente nas grandes superfícies comerciais - estou a falar daquele dueto entre cliente e o caixa – “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”, “quer um saco?”, “tem cartão cliente e factura com número de contribuinte, deseja?”

Dias, semanas seguidas, ali estão elas ou eles sempre disponíveis e na esmagadora maioria bem-humorados.
(ler mais...)


Haja fé »  2018-12-19  »  Anabela Santos

Assim, em pouco mais de um abrir e fechar de olhos, estamos, de novo, em Dezembro. Mês de festa, de família, de celebrar o aniversário de Jesus Cristo, presépio, árvore de Natal, luzes, música, afetos, união e solidariedade.
(ler mais...)


O Cacetete »  2018-12-19  »  Miguel Sentieiro

Neste momento de convulsão social, com inúmeras classes profissionais em greve, existe uma em particular que não me consegue deixar indiferente. A greve dos guardas prisionais acontece por uma clara falta de diálogo e de desconhecimento por parte dos sindicatos do plano estratégico mais profundo que se trata da criação de um novo super herói tuga chamado “Guarda Prisional numa cadeia portuguesa” ou GPCP.
(ler mais...)


Alheados »  2018-12-19  »  Inês Vidal

Afastámo-nos da coisa pública. Por descrédito, por falta de tempo, por egoísmo. Seja por que motivo for, andamos tendencialmente longe de tudo o que diz respeito à gestão das nossos destinos e deixamos em mãos alheias as decisões da nossa vida.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2019-01-11  »  Jorge Carreira Maia As eleições europeias
»  2019-01-11  »  António Gomes E o Zeca revisitou-nos
»  2019-01-11  »  Anabela Santos O desassossego
»  2019-01-11  »  Carlos Tomé Como a dor desfolha o peito