• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Terça, 21 de Agosto de 2018
Pesquisar...
Sex.
 35° / 19°
Céu limpo
Qui.
 37° / 19°
Céu limpo
Qua.
 38° / 19°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  38° / 21°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

FURAR OU NÃO FURAR

Opinião  »  2016-01-09  »  José Ricardo Costa

"Há coisas que furam os ouvidos de uns mas não furam os ouvidos de outros. Cabe a cada um decidir o que fura ou não os seus, tendo apenas que não se furar ouvidos que não querem ser furados."

Bem nos podemos esforçar por explicar, com os mais sofisticados dotes retóricos, que somos a favor disto ou daquilo. Mas é nas reacções espontâneas que mais verdadeiramente nos revelamos. Pelo que observei do mundo e por livros que li cujas posições achei sensato adoptar, há muito que me considero política e filosoficamente liberal. Mas eu podia dizer que sou liberal apenas da boca para fora. Há muita gente que defende certos valores mas depois age de um modo completamente diferente. Ora, aconteceu-me ontem uma coisa que, apesar da sua insignificância, me levou a confirmar a minha convicção a esse respeito.

Ainda antes de contar o que me aconteceu, gostaria de dizer que sou habitualmente contido no que diz respeito a asneiras. E se é raro dizê-las mais raro ainda é escrevê-las. Será por isso com o mesmo tipo de constrangimento sentido nos julgamentos quando se trata de reproduzir certos diálogos registados nos processos, que irei aqui invocar algumas pérolas do nosso património vernacular.

Ontem, durante a minha hora de almoço, saí da escola para ir a uma caixa Multibanco, regressando depois pelo passeio junto ao gradeamento da escola até ao portão. É ainda no passeio que, de repente, oiço e vejo, no interior da escola, um fedelho (7º ou 8ºano) a gritar: «Pára com essa merda, caralho, estou farto disso, foda-se», enquanto se afastava do colega contemplado com tão sublimes impropérios. Afastava-se mas não se calava, e quanto mais longe estava do colega mais alto gritava as mesmas palavras, «caralho, foda-se, foda-se, caralho» de um tal modo que se ouvia não apenas numa área considerável da escola como também no seu exterior. De certeza que quem estivesse nas lojas e cafés em frente à escola estava também a levar com toda a diarreia verbal da criança.

Eu, habitualmente tolerante e paciente, passei-me dos carretos e num gesto pouco habitual em mim, gritei para o chamar. Resistiu ao meu primeiro grito mas já não resistiu ao segundo, dirigindo-se então até à grade para falar comigo. Num tom crispado que a mim próprio me surpreendeu, vociferei que não admitia que dissesse aquelas palavras aos gritos numa escola ou em qualquer parte fora da escola onde estivessem outras pessoas. O rapaz, humilde, pediu logo desculpa e dizendo que não voltaria a acontecer. Foi nesse momento que eu, sensibilizado com o arrependimento imediato e sincero do rapaz, disse num tom já bem apaziguador: «Baixinho, podes dizer o que quiseres, as asneiras que quiseres, não podes é dizê-las daquela maneira, havendo pessoas por perto».

Mal acabei de dizer isto, caí em mim: «Meu deus, eu sou professor, educador, formador. A minha obrigação seria dizer-lhe que não deve dizer asneiras, que é feio dizer asneiras, seja alto, seja baixinho, seja em em público, seja em privado». Tal como o rapaz se arrependeu do seu disparate, eu arrependi-me do meu, reconhecendo que não devia ter dito o que disse. Mas como gosto de perseguir um problema enquanto não tenho uma visão clara dele, horas depois, ao regressar a casa, voltei a pensar na minha atitude, para depois concluir que nada fiz que mereça censura.

O que eu fiz com aquele garoto foi tomar uma posição mais política do que moral. Se eu lhe tivesse dito que não deve dizer asneiras, seja quais forem as circunstâncias, eu estaria a intrometer-me na sua vida privada. Nunca aceitarei que fale assim numa sala de aula, numa escola aos gritos ou, fora da escola, se estiver a incomodar outras pessoas. Mas quem sou eu para lhe dizer que não pode falar assim se estiver em casa com um colega a jogar playstation, quando vê o Benfica sofrer um golo ou se entalar o dedo numa porta? Sim: quem sou eu? Qual a minha autoridade enquanto cidadão da mesma polis? A polis é a polis, o domus é o domus. Espaço público é uma coisa, espaço privado uma outra.  Quem advertiu aquela criança não foi pois um moralista que deseja impor certos valores cujo desrespeito não implica uma ameaça para a sociedade mas também não foi um relativista, um anarquista, um anómico, um fanático de um laissez-faire radical. Foi alguém que tomou uma posição política, explicando pedagogicamente que existe um espaço social que é de todos e que dentro desse espaço há que respeitar certas regras. Mas que fora dele, e desde que não se prejudique ninguém, cada um deve viver a sua vida da maneira que mais lhe agrada, tendo todo o direito de o fazer.

A dimensão política não deve ser completamente independente de uma dimensão moral. No fundo, em termos de teoria dos conjuntos, temos uma intersecção. Há coisas da política que nada têm que ver com a moral, há coisas da moral que nada têm que ver com a política, havendo, sim, é verdade, uma área que é comum a ambas, mas que não contempla a situação que acabei de descrever. Neste caso, uma incondicional defesa da liberdade individual. Há coisas que furam os ouvidos de uns mas não furam os ouvidos de outros. Cabe a cada um decidir o que fura ou não os seus, tendo apenas que não se furar ouvidos que não querem ser furados.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Protectorado »  2018-08-16  »  Jorge Carreira Maia

O Verão teve, até agora, dois acontecimentos políticos maiores. O caso Robles e o fogo de Monchique. Maiores para os mass media e para uma certa direita social. Por direita social não me refiro aos partidos políticos de direita, os quais não estiveram particularmente mal em ambos os casos, mas àqueles que se manifestam nas redes sociais, nas caixas de comentários dos jornais online, que surgem como espontâneos nos directos das televisões, isto é, a uma militância informe, mas muito activa, que vive despeitada pelos seus não estarem no governo.
(ler mais...)


O operário »  2018-08-15  »  Anabela Santos

O tempo está ameno, um dia claro, de um azul celeste. O convite para sair de casa estava feito pelas cores e o som da natureza.

Não sei se foi o corpo ou a alma que me empurraram da zona alta para o centro da cidade. Mas fui… E não não vou falar da degradação do centro histórico.
(ler mais...)


Ganha fama e senta-te à sombra da bananeira »  2018-08-15  »  Maria Augusta Torcato

Esta é uma crónica pequenina, muito ligeira, leve e fresca, como devem ser as refeições nos dias de muito calor e em período de férias. A crónica “das férias” virá na seguinte ronda de escritaria.
(ler mais...)


Época balnear »  2018-08-15  »  António Gomes

Na época balnear, o primeiro dia de visita à praia é sempre assim: quais são as novidades? A organização da coisa - os espaços para estacionamento, os acessos à dita, o espaço para arear… tudo na mesma, pouco mudou ou pelo contrário, grandes mudanças? Isto para quem vai sempre para o mesmo local… parece que não sabemos outro caminho, é prá li e pronto.
(ler mais...)


O meu Ti Boino »  2018-08-09  »  Maria Augusta Torcato

O meu Ti Boino foi-se. Faltavam-lhe dois aninhos para chegar aos cem.

A notícia chegou hoje, nesta terça feira de julho, logo pela manhazinha, e eu, que nunca tenho tempo para retornar a casa, porque a nossa terra é e será sempre a nossa casa, mesmo que nela não tenhamos passado mais do que um oitavo dos anos que temos, lá vou amanhã, quarta feira, também de manhazinha, para o acompanhar à sua última morada.
(ler mais...)


Um tema leve para o Verão »  2018-07-30  »  Nuno Curado

Tenho andado a pensar num tema ligeiro sobre o qual escrever nesta crónica, porque, pronto, é Verão e está calor e ninguém tem vontade de gastar energia a preocupar-se com temas importantes. Por isso é que nos telejornais lá temos as habituais reportagens na praia sobre a temperatura da água do mar, ou na Amareleja sobre os impressionantes 45 graus que lá se fazem sentir… todos os anos sem diferença… Quer dizer, este ano ainda não.
(ler mais...)


Torto e fora dos eixos »  2018-07-28  »  Jorge Carreira Maia

Tornou-se um lugar comum aproximar duas ideias que emergiram na mesma época, mas em obras literárias diferentes. Em Hamlet, William Shakespeare fazia notar que “O mundo está fora dos eixos. Oh! Sorte maldita! … Por que nasci para colocá-lo em ordem!”.
(ler mais...)


Um concubinato de conveniência »  2018-07-12  »  Jorge Carreira Maia

Desde o início que a actual solução governativa sofre de um pecado mortal. Este reside num governo onde só um dos partidos de esquerda tem assento. Ao escolher o caminho mais fácil, a esquerda resolveu alguns problemas de momento.
(ler mais...)


Obstipação intestinal: um mal cada vez mais presente »  2018-07-12  »  Juvenal Silva

A obstipação intestinal, também conhecida como prisão de ventre, é uma doença gastrointestinal cada vez mais presente e, com um grau de Incidência preocupante, já na idade infantil. Num organismo saudável, o percurso da matéria residual pelo trato digestivo, corresponde a um ciclo previsível e regular que poderá oscilar entre 6 a 24 horas.
(ler mais...)


F »  2018-07-12  »  José Ricardo Costa

Admito ser um bocadinho conservador, sobretudo naqueles dias em que acordo com uma certa vontade de lavar os dentes com pasta medicinal Couto e de ter um mordomo chamado Jeeves para me trazer o fato às riscas enquanto faz o resumo do Financial Times.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 10 dias)
»  2018-08-15  »  Maria Augusta Torcato Ganha fama e senta-te à sombra da bananeira
»  2018-08-16  »  Jorge Carreira Maia Protectorado
»  2018-08-15  »  Anabela Santos O operário