COISINHAS DE ESQUERDA
Opinião
» 2016-03-16
» José Ricardo Costa
"Ser de esquerda funciona para muitos como as cartes-de-visite, uma moda no século XIX que consistia em oferecer a amigos, conhecidos ou familiares fotografias de pequeno formato nas quais se pretendia assumir uma dada imagem perante o mundo, uma espécie de retrato moral e psicológico, fosse este verdadeiro ou falso"
Desejando motivar os alunos para o capítulo de Filosofia Política, explico que o tema ajuda a esclarecer, entre outras coisas, o que significa ser de esquerda ou de direita. Um aluno mais curioso resolveu então perguntar-me se sou de esquerda ou de direita. Expliquei-lhe que por uma razão deontológica não iria responder mas apeteceu-me divertir um bocadinho, lançando-lhe então o desafio de adivinhar. O moço observa-me, mexe no queixo, reflecte. Por fim, com ar assertivo, decide que sou de esquerda. Por fora, fiquei impassível. Por dentro, em estado de pânico. Pensei logo numa desgraçada semelhança entre mim e Mário Nogueira, algo no meu olhar que possa lembrar a Ana Avoila, enfim, sinais que me dêem aquele ar de quem vai para uma Manif. no Rossio contra qualquer coisa que mexa. Ao contrário do Nani Moretti, que implorava ao outro para dizer qualquer coisinha de esquerda, a minha preocupação era sobre o que o aluno pudesse dizer de mim para me considerar de esquerda. Temendo o pior, mas com um giocôndico sorriso nos lábios, peço-lhe para me explicar a razão. Com expressão analítica, diz-me então que devo ser de esquerda pois tenho ar de ser boa pessoa. Respirei de alívio: nada na sua resposta remeteu para um putativo ar engagé, para uma semiótica marxista-leninista-trotskista-estalinista-maoista-castrista-chavista, nada que me faça ter ar de deputado do Bloco de Esquerda ou de ser primo do João Galamba. Em suma, nada que me tirasse o sono.
Horas depois, a caminho de casa, voltei a pensar no assunto, tendo o alívio dado lugar à perplexidade. Conheço suficientemente o mundo e os seres humanos para saber que não se é melhor ou pior pessoa por se ser de esquerda ou de direita. O que é impressionante é o modo eficaz como uma capa ideológica consegue moldar o carácter de uma pessoa. De facto, dá muito jeito ser de esquerda. Pode-se ser um pulha, patife, narcisista, arrogante, egoísta, ambicioso, manipulador, vaidoso e insensível ao próximo. Mas nada como uma messiânica ideologia, a defesa de princípios éticos superiores, a retórica de uma sociedade igualitária para funcionar como sistema imunitário que sublime todos os vícios pessoais. Aliás, não é por acaso que haverá sempre maior tolerância e compreensão face a crimes e barbaridades praticados pela esquerda, desde regimes despóticos a actos terroristas, do que pela direita. Porquê? Pela nobreza da ideologia, pelo altruísmo e fraternidade inerentes aos princípios, pela bondade de uma acção que pretende redimir o mundo dos seus pecados. Passa-se pois com a esquerda o mesmo que se passa com o ser cristão. Uma pessoa apresenta-se ao mundo como cristã, vende, com bom proveito, a sua imagem cristã, podendo com isso disfarçar ou desculpar tanto os seus pecadilhos como os seus pecadilhões.
Ser de esquerda funciona assim para muitos como as cartes-de-visite, uma moda no século XIX que consistia em oferecer a amigos, conhecidos ou familiares fotografias de pequeno formato nas quais se pretendia assumir uma dada imagem perante o mundo, uma espécie de retrato moral e psicológico, fosse este verdadeiro ou falso. Hoje não há cartes-de-visite. Não há em papel mas há de outra maneira: basta ser do partido A ou B, vestir-se de certa maneira, ir às Manifs, ler os livros certos, defender as ideias ou causas certas no restaurante certo ou no bar certo. Tal como numa carte-de-visite, vender uma imagem ideal e que faça os outros acreditarem ser aquela pessoa um produto em total coerência com essa imagem. Nada melhor do que um aluno ingénuo e que nada percebe de política para termos a consciência da força e eficácia de certas ideias.
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COISINHAS DE ESQUERDA
Opinião
» 2016-03-16
» José Ricardo Costa
Ser de esquerda funciona para muitos como as cartes-de-visite, uma moda no século XIX que consistia em oferecer a amigos, conhecidos ou familiares fotografias de pequeno formato nas quais se pretendia assumir uma dada imagem perante o mundo, uma espécie de retrato moral e psicológico, fosse este verdadeiro ou falso
Desejando motivar os alunos para o capítulo de Filosofia Política, explico que o tema ajuda a esclarecer, entre outras coisas, o que significa ser de esquerda ou de direita. Um aluno mais curioso resolveu então perguntar-me se sou de esquerda ou de direita. Expliquei-lhe que por uma razão deontológica não iria responder mas apeteceu-me divertir um bocadinho, lançando-lhe então o desafio de adivinhar. O moço observa-me, mexe no queixo, reflecte. Por fim, com ar assertivo, decide que sou de esquerda. Por fora, fiquei impassível. Por dentro, em estado de pânico. Pensei logo numa desgraçada semelhança entre mim e Mário Nogueira, algo no meu olhar que possa lembrar a Ana Avoila, enfim, sinais que me dêem aquele ar de quem vai para uma Manif. no Rossio contra qualquer coisa que mexa. Ao contrário do Nani Moretti, que implorava ao outro para dizer qualquer coisinha de esquerda, a minha preocupação era sobre o que o aluno pudesse dizer de mim para me considerar de esquerda. Temendo o pior, mas com um giocôndico sorriso nos lábios, peço-lhe para me explicar a razão. Com expressão analítica, diz-me então que devo ser de esquerda pois tenho ar de ser boa pessoa. Respirei de alívio: nada na sua resposta remeteu para um putativo ar engagé, para uma semiótica marxista-leninista-trotskista-estalinista-maoista-castrista-chavista, nada que me faça ter ar de deputado do Bloco de Esquerda ou de ser primo do João Galamba. Em suma, nada que me tirasse o sono.
Horas depois, a caminho de casa, voltei a pensar no assunto, tendo o alívio dado lugar à perplexidade. Conheço suficientemente o mundo e os seres humanos para saber que não se é melhor ou pior pessoa por se ser de esquerda ou de direita. O que é impressionante é o modo eficaz como uma capa ideológica consegue moldar o carácter de uma pessoa. De facto, dá muito jeito ser de esquerda. Pode-se ser um pulha, patife, narcisista, arrogante, egoísta, ambicioso, manipulador, vaidoso e insensível ao próximo. Mas nada como uma messiânica ideologia, a defesa de princípios éticos superiores, a retórica de uma sociedade igualitária para funcionar como sistema imunitário que sublime todos os vícios pessoais. Aliás, não é por acaso que haverá sempre maior tolerância e compreensão face a crimes e barbaridades praticados pela esquerda, desde regimes despóticos a actos terroristas, do que pela direita. Porquê? Pela nobreza da ideologia, pelo altruísmo e fraternidade inerentes aos princípios, pela bondade de uma acção que pretende redimir o mundo dos seus pecados. Passa-se pois com a esquerda o mesmo que se passa com o ser cristão. Uma pessoa apresenta-se ao mundo como cristã, vende, com bom proveito, a sua imagem cristã, podendo com isso disfarçar ou desculpar tanto os seus pecadilhos como os seus pecadilhões.
Ser de esquerda funciona assim para muitos como as cartes-de-visite, uma moda no século XIX que consistia em oferecer a amigos, conhecidos ou familiares fotografias de pequeno formato nas quais se pretendia assumir uma dada imagem perante o mundo, uma espécie de retrato moral e psicológico, fosse este verdadeiro ou falso. Hoje não há cartes-de-visite. Não há em papel mas há de outra maneira: basta ser do partido A ou B, vestir-se de certa maneira, ir às Manifs, ler os livros certos, defender as ideias ou causas certas no restaurante certo ou no bar certo. Tal como numa carte-de-visite, vender uma imagem ideal e que faça os outros acreditarem ser aquela pessoa um produto em total coerência com essa imagem. Nada melhor do que um aluno ingénuo e que nada percebe de política para termos a consciência da força e eficácia de certas ideias.
Brasil, China, Entre-os-Rios e Novo Banco
» 2019-03-09
» Jorge Carreira Maia
1. A DOENÇA DO BRASIL. Apesar de sermos latinos e de permitirmos coisas inaceitáveis nos países do centro e do norte da Europa, ainda é difícil para os portugueses compreender a doença que ataca com virulência inusitada o Brasil. |
Remodelação, Bloco, Greves e Exames
» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
1. REMODELAÇÃO DO GOVERNO. A importância da remodelação do governo ocorrida no início da semana é, do ponto de vista da orientação política, tendencialmente nula. |
Mulher
» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Se é adquirido que com o 25 de Abril de 1974, as mulheres alcançaram o reconhecimento dos seus direitos mais fundamentais, exigindo a igualdade na vida, entre mulheres e homens, certo é, que fora o que seria obrigatório conceder, com o objectivo de serenar os ânimos reivindicativos femininos, praticamente tudo continua por fazer. |
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Por estranho que pareça, houve um tempo em que se ia ao restaurante sobretudo para comer. Sim, também para conviver, comemorar, fazer negócios, mas sempre com o prazer da boa mesa como alvo. Nós, portugueses, para além de comer adoramos falar sobre o que comemos, nem que seja para lembrar, com a expressão lúbrica do lobo dos desenhos animados, o maravilhoso cabrito com grelos que comemos há 20 anos. |
Aero… coisa, mas muito séria
» 2019-02-21
» António Gomes
A noticia teve origem na informação prestada em reunião de câmara pelo vice-presidente da mesma: aeroporto internacional, 4 Kms de pista, 160 voos/dia, 200 milhões de investimento, etc.. E foi apresentada com pompa e circunstância, uma grande mais valia para Torres Novas e arredores. |
Opções
» 2019-02-21
» Anabela Santos
E de repente, quando somos agradavelmente surpreendidos por um montante razoável em euros de que não estávamos à espera, a reação é de espanto e de alegria. Faz falta, é sempre bem vindo. A partir do momento em que recebemos tão agradável notícia, impõe-se um pensamento … o que fazer com todo o dinheiro recebido? |
Para quê tanto vermelho?
» 2019-02-21
» Ana Sentieiro
O Dia de São Valentim é, à semelhança do Carnaval, do Dia da Mulher, do Dia da Aproximação do Pi ou do próprio Dia do Pi, uma celebração à qual não foi atribuída o estatuto de feriado e, como tal, não é respeitada no agregado de festividades. |
Beija o chão e abraça a humilhação
» 2019-02-15
» Ana Sentieiro
Olá! O meu nome é Ana, mas podes tratar-me por “caloira” num tom agressivo e um tanto incomodativo ou, se preferires, “besta”, acompanhado com “Enche vinte!” entoado de um modo pouco sugestivo. |
Caixa, Marcelo, Venezuela e Papa
» 2019-02-08
» Jorge Carreira Maia
1. CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS. O que se tem vindo a saber da Caixa Geral de Depósitos dá razão aos que, na União Europeia, julgam ser necessário impor uma espécie de protectorado aos países do sul da Europa. |
Lisboetas?
» 2019-02-07
» Inês Vidal
Tento fazer este exercício: o que é que as pessoas que não conhecem Torres Novas ficaram a saber sobre o nosso concelho, depois de lerem o artigo publicitário disfarçado de reportagem, que saiu no sábado numa alegada revista, de um honrado semanário nacional? Ora bem. |
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» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
Remodelação, Bloco, Greves e Exames |
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» 2019-02-21
» Anabela Santos
Opções |
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» 2019-02-21
» António Gomes
Aero… coisa, mas muito séria |
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» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar. |
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» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Mulher |