Linguagem comum - jorge carreira maia
Opinião
» 2025-09-20
» Jorge Carreira Maia
As democracias vivem do desacordo e do conflito entre perspectivas e interesses políticos divergentes. Contudo, esses desacordos e conflitos estão enraizados numa linguagem comum que permite que os projectos políticos sejam julgados pelo voto popular, sem isso representar um problema para quem defende projectos derrotados, nem dar um acréscimo de poder e de legitimidade – para além do que está na lei – a quem vence. O que surgiu, com a chegada em força da direita radical e extrema-direita, foi uma nova linguagem que não se inscreve na linguagem comum, mas que pretende aniquilar essa linguagem e impor uma outra completamente diferente, na qual os projectos políticos democráticos não tenham cabimento.
Quando não há uma linguagem comum, o que surge não é apenas a incomunicabilidade entre as partes, mas a violência. Não se trata de derrotar os outros nas urnas, mas de utilizar eventuais vitórias nas urnas para aniquilar os outros, pervertendo o jogo democrático e, se isso não bastar, usar a perseguição política e a violência física. Basta observar o que se passa nos EUA. A Europa não é diferente dos Estados Unidos. Os eleitores – tal como aconteceu nos EUA – estão, cada vez mais, a escolher soluções radicais, políticas extremistas e a enfeitiçar-se com uma linguagem que traz violência verbal e aniquilação do outro. O espectro que assola o mundo ocidental já não é o do comunismo, mas o da guerra civil, cuja finalidade é liquidar a democracia liberal. É para uma guerra civil larvar que estes movimentos orientam a sua política, a sua comunicação e a sua formatação do eleitorado.
Uma guerra civil pode ser fria ou quente. Uma ditadura é um guerra civil fria, em que uma parte – a que está no poder – tem as armas e a outra está desarmada. É quente quando os dois lados têm armas. Ainda é possível – pelo menos, na Europa – evitar a catástrofe, emboras as notícias que vêm de França, da Alemanha e de Inglaterra não sejam animadoras. As forças democráticas parecem de mãos atadas. A destruição da linguagem comum e a consequente radicalização são processos políticos que, a partir de certa altura, fogem ao controlo dos feiticeiros que os lançaram, tornando-se uma bola de neve que ninguém controla e que arrasta tudo no seu caminho. Estamos a chegar a esse ponto. Se a democracia perder a linguagem comum que a sustenta, o que resta não é política, mas violência. A responsabilidade das forças democráticas é dupla: travar a deriva extremista e reconstruir a comunicação com os cidadãos. Sem isso, o risco não é o de perder umas eleições, mas a própria democracia e a vida decente que só ela permite.
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Linguagem comum - jorge carreira maia
Opinião
» 2025-09-20
» Jorge Carreira Maia
As democracias vivem do desacordo e do conflito entre perspectivas e interesses políticos divergentes. Contudo, esses desacordos e conflitos estão enraizados numa linguagem comum que permite que os projectos políticos sejam julgados pelo voto popular, sem isso representar um problema para quem defende projectos derrotados, nem dar um acréscimo de poder e de legitimidade – para além do que está na lei – a quem vence. O que surgiu, com a chegada em força da direita radical e extrema-direita, foi uma nova linguagem que não se inscreve na linguagem comum, mas que pretende aniquilar essa linguagem e impor uma outra completamente diferente, na qual os projectos políticos democráticos não tenham cabimento.
Quando não há uma linguagem comum, o que surge não é apenas a incomunicabilidade entre as partes, mas a violência. Não se trata de derrotar os outros nas urnas, mas de utilizar eventuais vitórias nas urnas para aniquilar os outros, pervertendo o jogo democrático e, se isso não bastar, usar a perseguição política e a violência física. Basta observar o que se passa nos EUA. A Europa não é diferente dos Estados Unidos. Os eleitores – tal como aconteceu nos EUA – estão, cada vez mais, a escolher soluções radicais, políticas extremistas e a enfeitiçar-se com uma linguagem que traz violência verbal e aniquilação do outro. O espectro que assola o mundo ocidental já não é o do comunismo, mas o da guerra civil, cuja finalidade é liquidar a democracia liberal. É para uma guerra civil larvar que estes movimentos orientam a sua política, a sua comunicação e a sua formatação do eleitorado.
Uma guerra civil pode ser fria ou quente. Uma ditadura é um guerra civil fria, em que uma parte – a que está no poder – tem as armas e a outra está desarmada. É quente quando os dois lados têm armas. Ainda é possível – pelo menos, na Europa – evitar a catástrofe, emboras as notícias que vêm de França, da Alemanha e de Inglaterra não sejam animadoras. As forças democráticas parecem de mãos atadas. A destruição da linguagem comum e a consequente radicalização são processos políticos que, a partir de certa altura, fogem ao controlo dos feiticeiros que os lançaram, tornando-se uma bola de neve que ninguém controla e que arrasta tudo no seu caminho. Estamos a chegar a esse ponto. Se a democracia perder a linguagem comum que a sustenta, o que resta não é política, mas violência. A responsabilidade das forças democráticas é dupla: travar a deriva extremista e reconstruir a comunicação com os cidadãos. Sem isso, o risco não é o de perder umas eleições, mas a própria democracia e a vida decente que só ela permite.
Alívio, decadência e sensatez
» 2026-04-18
» Jorge Carreira Maia
Um suspiro de alívio. Há muito que a União Europeia não recebia uma boa notícia. Teve-a no domingo com a derrota, nas eleições húngaras, de Viktor Orbán. Mais do que a vitória de Péter Magyar, o importante foi a derrota de um claro opositor ao projecto europeu, amigo de dois grande inimigos da União Europeia, Putin e Trump. |
Miau
» 2026-04-18
» Carlos Paiva
Se eu tiver 20 ovelhas e o meu vizinho nenhuma, em média, cada um de nós tem 10 ovelhas. Sem análise crítica, a estatística pode espelhar tudo e qualquer coisa, menos a realidade. Mas são necessários números para iniciar todo o processo. |
Celebremos o 25 de Abril, lutemos pela dignidade no trabalho
» 2026-04-18
» António Gomes
Poucos são os que entendem e menos ainda os que concordam com as alterações à legislação do trabalho que o governo do Montenegro quer impor a toda a força. Ninguém pediu, ninguém reivindicou alterações legislativas para as relações do trabalho, nem sequer as confederações patronais, a coligação que apoia o governo não apresentou essas ideias em campanha eleitoral, não foram por isso sufragadas, não têm legitimidade. |
Bloqueio infinito...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
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Este gajo é maluco...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
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O castelo fácil
» 2026-04-05
» Carlos Paiva
Uma estratégia comercial converteu-se em moda social. Não é propriamente inédito, diversas tentativas de estimular o consumo fizeram-no inúmeras vezes. Refiro-me especificamente à "experiência". Produtizou-se a "experiência" com o intuito de revitalizar turismo, restauração, hotelaria, entretenimento e cultura. |
Até quando, passado, abusarás da nossa paciência?
» 2026-04-05
» António Mário Santos
Numa ida ao museu municipal Carlos Reis, no último sábado, a fim de participar numa acção cultural com a pintora torrejana Conceição Lopes, ouvi, dum interlocutor, ao defender a construção do museu de arqueologia industrial, que «quem não está atento e não respeita o seu passado, não está a contribuir para a construção do futuro». |
Constituição, Saramago e Crueldade
» 2026-04-03
» Jorge Carreira Maia
Constituição. A Constituição portuguesa faz cinquenta anos. Tem marcas da época, isto é, do processo de ruptura com o regime autoritário do Estado Novo e da intensa luta política que se seguiu. |
Escolas e influenciadores
» 2026-03-22
» Jorge Carreira Maia
Provocou alarido a investigação do Público sobre a presença, em espaço escolar, de influenciadores tidos como pouco recomendáveis. Foram detectados 80 casos. Discutiu-se o papel dos directores, mas também do Ministério da Educação, no controlo das entradas nas escolas. |
Painéis fotovoltaicos ou a identidade patrimonial de uma cidade
» 2026-03-22
» António Gomes
Provavelmente já vamos tarde, tal é o número de atentados ao património, à paisagem urbana e arquitetónica do centro histórico de Torres Novas. Quase tudo começou com o desleixo e o abandono de centenas de imóveis que hoje ou são ruínas em perigo para quem passa ou em alguns casos são espaços vazios emparedados fruto da intervenção forçada do município. |
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» 2026-04-14
» Hélder Dias
Este gajo é maluco... |
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» 2026-04-14
» Hélder Dias
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» 2026-03-22
» António Gomes
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» 2026-04-05
» António Mário Santos
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» 2026-03-22
» António Mário Santos
Falemos de cultura e do que o município pode criar |