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O precipício ao virar da esquina - antónio mário

Opinião  »  2026-06-07  »  António Mário Santos

Algo vem ganhando força e expressão, nos últimos tempos, a nível nacional: a consciência da ingovernabilidade do sistema político.

O aumento do descontentamento popular, ante a realidade sociopolítica da degradação da qualidade de vida no mundo do capitalismo neoliberal, alimentou o crescimento da extrema-direita.

Esta expressa-se, quotidiana, meticulosamente, nas redes sociais da globalização, com cadeirão também garantido na maioria dos meios de comunicação, jornalísticos, radiofónicos, televisivos. Como temas sensíveis: o fomento de qualquer peixeirada, assente, regra geral, em dois, preferencialmente, seleccionados: o mal que faz à estabilidade económica e social a imigração, principalmente a de cor; a questão da igualdade de género, que ofende o machismo sexista do mito de D. Juan.

Temas que, como fomos aprendendo no mundo contemporâneo, fazem ruído, criam indignação e mal-estar, conduzem a uma situação de insegurança, na vida quotidiana.

É esta, pelo menos, a sensação generalizada com que se fica, no comentário da informação transmitida, assente na defesa duma política conservadora, que pretende ressuscitar as políticas derrotadas, na segunda guerra mundial, com a vitória das democracias, da aceitação pela quase totalidade dos países do planeta, da cartas das Nações Unidas e dos Direitos do Homem e do Cidadão.

A verdade é que, em cada eleição, por este mundo do capitalismo neoliberal, parte do voto democrático vai deslizando para o bornal dos partidos da extrema-direita, criando no espaço da fragmentação partidária, uma insegurança e um problema. Insegurança, porque, por muito que, à esquerda, se batalhe pela defesa dos direitos fundamentais do cidadão, nos temas essenciais do desenvolvimento económico e social, a mensagem, ainda que apercebida e tida como certa, não surte o menor efeito pragmático, na altura do voto na urna. Um problema, porque em todos os países que vão cedendo ao ressurgimento hitleriano do racismo, a cidadania transforma-se num inimigo social, a desigualdade numa característica básica do ser humano, a cor da pele, o modo de vida, a crença, a língua, em elementos de desestabilização e de destruição da tradição do colonizador.

Não é desconhecida de ninguém a erosão dos partidos socialistas, sociais-democratas, comunistas, anarquistas, sindicalistas, ambientalistas, assim como a inquietude dos neo-liberais e centristas pela atracção que os de extrema-direita exercem no ressentimento popular, ante a continuidade de políticas que, quando atingem a governação, aqueles partidos tradicionais renegam as suas promessas eleitorais.

A opção pelas promessas de segurança e paz nas ruas, de defesa dos valores nacionais do patriotismo, do homem superior à mulher, do perigo que representa a emigração na vida quotidiana, da superioridade da raça branca em relação às outras, do amor pela tradição e pelo passado de grandeza, embora mais não sejam que propaganda de vendedores ao serviço das multinacionais e das grandes empresas de tecnologia, fazem mossa e determinam os caminhos que conduzem a um mundo em que a humanidade é empurrada para um abismo suicidário.

Limitam-se a sobreviver os escolhidos pelos que, hoje, já puseram em marcha o seu plano de substituição dos seres humanos pela IA, que, na actualidade, não só já controla os jogos de guerra à escala planetária, como é causadora da profunda degradação do clima e do ambiente. Como, duma forma criminosa, a longo prazo, pratica a diminuição planetária do número de crianças, quer pela mortalidade entre a juventude fértil que a guerra origina, quer pelo ressurgimento de pandemias sem tratamento conhecido, quer pelo abuso da criação de novos guetos de migrações de populações sobre pretextos racistas e de criação de paraísos para os escolhidos, quer pelo abuso de mão d’obra numa disfarçada forma de escravatura, quer no fabrico duma mentalidade em que a indiferença pelo outro impede a consciência do ser humano planetário.

Como impedir esta caminhada para o matadouro, com um sorriso nos lábios e a estupidez gravada nos miolos?

Algo que deveria fazer-nos, democratas, cidadãos planetários, não só pensar, mas agir.

 

 

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