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Suave cumplicidade

Opinião  »  2018-09-26  »  Carlos Tomé

"Cada actuação dos La Fontinha consegue transmitir ao público a cumplicidade do momento. Uma suave cumplicidade."

Aqui há um ano, prometeram que o homem ia voltar e ele voltou mesmo. Nessa altura o homem era o José Afonso, e a sua música ecoou tão simples e tão pura no auditório do Hotel dos Cavaleiros que os LaFontinha conseguiram o milagre de ressuscitar o genial autor de geniais canções, que agora querem tratar como um vulgar herói nacional grato ao poder, e cuja gratidão o poder reconhece com o panteão, retirando-o da terra e do povo que ele sempre adorou.

Desta vez, os LaFontinha obrigaram o Fausto a vir mais uma vez a Torres Novas. Depois da noite memorável do Virgínia em que esteve por cá, agora foi a sua música e com ela a sua genialidade que subiram ao palco do estúdio Alfa.

Mas só pode estar com a sua música quem a adopta e a interpreta com tudo aquilo que ela tem de belo, e com todo o significado que assume para quem a sente. Porque a música do Fausto, como de resta a de outros autores, encerra em si circunstância especiais, nasce de histórias concretas, conta situações, defende ideias, modos de pensar, percorre caminhos estreitos e veredas apertadas onde só cabem alguns, aqueles a quem a sua arte lhes entra no corpo sem lhes pedir licença mas simultaneamente exige cumplicidades, guarda de segredos, comunhão de qualidades, partilha dos sentimentos mais profundos como os sonhos, todos os sonhos.

Assumidas pelos LaFontinha, com o rigor que colocam em todas as suas interpretações, as canções do Fausto lembram-me sonhos lindos. Mercê de uma forma de estar no palco aparentemente descontraída mas muito intensa, serena e cúmplice, cada actuação dos La Fontinha consegue transmitir ao público a cumplicidade do momento. Uma suave cumplicidade.

Muito longe de exibicionismos bacocos que levam o público a dançar e gritar com se estivesse num ginásio a fazer exercícios físicos, os músicos dos LaFontinha ocupam o palco para tocar e cantar com a serenidade e discrição necessárias, tentando interpretar as diversas obras-primas do Fausto e criando a verdade dos que não se esticam em bicos de pés.

O respeito pelo autor sente-se em cada música, em cada poema. E o que se retira é que a música é muito mais do que um conjunto de notas sem alma, nem dor, nem alegria, é um irresistível sentimento de partilha e orgulho e honra nessa partilha que se espraia pela sala. E, embora possa sentir vontade de saltar e dançar nalguns momentos, o público não o faz porque estas como outras obras-primas entram no mais interior de cada um, no mais desconhecido, e anicham-se no colo, paralisando os corpos mas aguçando os sentidos e os sentimentos. Como se tudo fosse um sonho, um sonho lindo.

 

 

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