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Ordem para demolir

Opinião  »  2014-08-01  »  João Carlos Lopes

Inaugurada há quase 130 anos, que se cumprem curiosamente no ano que vem, e numa altura em que o país estava falido e a câmara não andava melhor, a velha praça do peixe não tinha nada que a recomendassse em termos patrimoniais, benza-a Deus. Não havia nela ornamentos, arcadas interiores, ferros, cantarias, azulejos ou fosse o que fosse minimamente singular: era, na verdade um barracão, encostado às cavalariças, de elementos construtivos pobres e insignificantes. Ah sim, havia o portão, arraçado à arquitectura do ferro do século XIX, mas isso não fazia do pardieiro nada de assinalável,. Directo ao assunt justificava-se a ”reabilitação”? Reabilitação de quê? É mais que duvidoso, mas a política autista de nada querer ao menos discutir, tem destas coisas. No fundo, ao invés da ”reabilitação” de coisa nenhuma, mais valia fazer qualquer coisa de novo naquele espaço, deixando como memória o portão. E já era muito. Deixemo-nos de lamechises, que os tempos estão para coisas sérias: alguém olha para trás e lamenta a demolição das oficinas do Nery? De resto, as coisas são mesmo assim: ao invés da praça do peixe, o velho Virgínia, isso sim, foi uma perda patrimonial para Torres Novas a sua demolição. Passada duas gerações, não rola uma lágrima pelo antigo teatro. Para mal dos nossos pecados, temos de levar com aquele horripilante ”memorial”, monumento à piroseira que o camartelo ou um raio que o parta num inverno mais bravo, teimam em poupar.

Coisa pior é o indescritível mamarracho que ocupa a velha garagem Claras. Vendido ao princípio como uma cena à la Calatrava, tudo luz e vidro e o céu azul a ver-se, uma capa fina e elegante sob o sol e a chuva, afinal era ilusão do photoshop. O desporto actual mais praticado pelos torrejanos é passar pelo local e praguejar violentamente, dizer mal da vida à vista de semelhante aberração, um telhado de aviário nascido do nada, a dois passos do castelo e a afrontar o respeitável e belo solar dos Vassalos. Entre aquela latagem toda e o edifício que resta, surge a mãe de todas as hesitações: e agora, como se liga aquilo? Simplesmente não é possivel. O que sobra não é a antiga entrada da garagem do início do século, mas um abastardamento da década de 50 ou 60, sem qualquer valor, e que fica ali a empatar ou, na melhor das hipóteses, a esconder a vergonha que está por detrás, um hino à tonteira que a minha imbecilidade, sou o primeiro a reconhecê-la para dar o exemplo, não consegue entender: não há ali um assomo estético, uma linha de interpretação, um rasgo qualquer, um material, que expliquem a triste ousadia. É uma cena do mal.

Adiante: há que ultrapassar a visão piegas do patrimoniozinho, que infelizmente é coisa que temos pouco e fazer uso do camartelo quando é necessário. O chamado centro histórico, cheio de ruínas e construções mais que manhosas, aí está à nossa espera: abram-se novas pracetas e largos, dê-se mais luz às sombras malvadas dos séculos, que teimam em travar o passo à renovação da nossa vila.

 

 

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