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Os três salazares - jorge carreira maia

Opinião  »  2025-11-09 

PRIMEIRO SALAZAR. Foi um ditador cinzento e manhoso. Tinha a virtude de odiar políticos histriónicos e espalhafatosos. Esse ódio virtuoso, porém, era acompanhado por outros ódios nada virtuosos. Odiava, antes de tudo, a liberdade. O país que geria com mão de ferro era uma prisão a céu aberto, pois, para além das prisões políticas, não havia lugar que não estivesse sob vigilância, notícia, livro, peça de teatro ou filme que não fosse objecto de censura. Odiava que os portugueses se instruíssem, pois instrução era coisa apenas para alguns, os de bem. Os outros tinham a miséria dos campos, a pobreza das fábricas, a mediocridade do dia-a-dia como destino. Odiava a realidade e arrastou Portugal para 13 anos de guerras coloniais, num mundo onde a colonização tinha perdido sentido, de tal modo que nem o Vaticano aceitou a política colonial do beato Oliveira Salazar.

SEGUNDO SALAZAR. Um salazarito histriónico e espalhafatoso, sempre pronto para berrar. Manhosinho, cinzentão e provocador. O primeiro Salazar, que não admirava histriões, não o aceitaria nem para porteiro. Julga que Deus o enviou, mas é claro, para qualquer observador atento, que aqueles modos, as coisas que diz, os cartazes com que conspurca a imagem de Portugal, os berros e esgares com que ele e os seus inundam o parlamento e as televisões, tudo isso é obra do tinhoso, talvez de um belzebu da classe baixa que anda à procura de promoção nas hostes infernais e esteja empenhado na perdição dos portugueses. E como todos sabemos, quando alguém, por influência do tinhoso ou de um seu agente, se perde, vai acabar no inferno.

TERCEIRO SALAZAR. O mais importante dos três. É, segundo o dicionário da Porto Editora, um utensílio de cozinha que consiste numa espátula de borracha presa a um cabo de madeira ou plástico, usado para rapar tachos ou tigelas. Este salazar é o símbolo dos outros. Quando um Salazar, ou mesmo um salazarito, toma conta dos tachos e das tigelas, o que fica para os portugueses, para a maioria, é a rapar tachos e tijelas, como se o seu destino fosse o de permanecer à porta da cozinha, à espera dos tachos vazios e das tijelas lambidas, para rapar os restos lá deixados pelos portugueses de bem, sempre disponíveis para trazer a pátria na boca e o conteúdo dos tachos no bolso. Será este salazar que os portugueses terão direito, se um dia decidirem eleger um qualquer salazarito histriónico e sem maneiras, possuído por um belzebu à procura de promoção por arrastar os portugueses para o inferno.


 

 

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