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O Cacetete

Opinião  »  2018-12-19  »  Miguel Sentieiro

Neste momento de convulsão social, com inúmeras classes profissionais em greve, existe uma em particular que não me consegue deixar indiferente. A greve dos guardas prisionais acontece por uma clara falta de diálogo e de desconhecimento por parte dos sindicatos do plano estratégico mais profundo que se trata da criação de um novo super herói tuga chamado “Guarda Prisional numa cadeia portuguesa” ou GPCP. De facto, longe dos holofotes da comunicação social, foi criado um protocolo com a Marvel Comics para a substituição de personagens já algo desgastadas como o Homem Aranha, Capitão América, Hulk, Thor, Tocha Humana e afins.

Fartos de fazerem sequelas com o tipo a lançar teias de aranha pelos pulsos e a vestir fatos de licra esquisitos, a Marvel descobriu em Portugal um terreno fértil para o surgimento de um novo Herói: o GPCP ou na versão Hollywoodesca “The Jail Man”. Conseguimos, com recurso ao método Correio da Manhã, interceptar algumas conversas da discussão na fase embrionária do projeto entre responsáveis da Marvel e alguém do ministério da Justiça, para percebermos como tudo começou.

Apesar de cientes da importância que um herói lusitano poderia ter na imagem do país lá fora, percebemos que os responsáveis portugueses não abdicariam de princípios chave nas negociações: O fato de licra é que não! Quanto ao resto, tudo poderia ser arrojado, mesmo a puxar para o inverosímil. O enredo começaria assim: “Um indivíduo que parece normal, sai de casa com a lancheira debaixo do braço e prepara-se para entrar dentro de uma prisão de alta segurança com 20 bandidos… 20?… 20 é pouco,… metemos 50 (diz o tipo da Marvel),… eu avançava logo para os 100,… mas para estarmos aqui a falar de Heróis, mandamos-lhe com 200 e não ficam dúvidas sobre o seu desempenho (contrapõe o responsável político).”

E assim surge a notícia “Na prisão de Santa Cruz do Bispo um guarda prisional consegue dar conta de 200 reclusos no refeitório”. Percebendo que estão no bom caminho na construção do Super Guarda, foram ainda mais longe e decidiram que tinham de dar ferramentas extra aos vilões para que o Jail Man brilhasse ao mais alto nível. Se o Homem Aranha se debateu contra o Duende Verde que voava com recurso a jactos acopolados nos pés, o Capitão América aniquilou o Caveira Vermelha munido de super poderes aterradores, também o nosso Super Guarda teria de ter vilões à altura. “Mas o facto de serem 200 bandidos não chega? Não. Para isso temos o John Rambo, que deu cabo de 90 mauzões armados até aos dentes em menos de um fósforo. Temos de facultar aos bandidos armas para tornarem a acção do Guarda solitário ainda mais estóica.

”Dar salas de musculação aos bandidos para estes poderem ficar mais fortes e robustos na hora de andarem à lambada, dar telemóveis com internet aos bandidos para estes poderem comunicar com os bandidos lá de fora na hora de precisarem de mais “armamento” pesado e dar um cacetete muito duro ao Guarda para ele se fazer respeitar na hora em que fica sozinho em frente de 200 musculados e rudes bandidos. Tudo estava a correr às mil maravilhas nesta construção do super personagem, quando entraram os picuinhas representantes sindicais a reivindicarem mais guardas nas cadeias. “Shiuuu ó chato! O rácio de 200 para 1 compatível com um super herói está feito!… deixa-te disso!” A ministra da Justiça, tentando salvar o acordo com a Comics (nome sugestivo), ainda veio dizer que este não seria o momento adequado para a greve. Que os reclusos precisavam de receber as famílias num espaço de tempo inferior a 5 dias (parece que alguns não passariam sem o bolo rei da sogra feito com brindes escondidos).

Tentou mendigar junto dos responsáveis da Marvel que adiassem a estreia mundial da sequela “Os Vingadores” garantindo que o Super Guarda iria entrar em breve numa acção espectacular com recurso a bonés, canivetes suíços e panelas de cozinha, mas eles mostraram pouca vontade de esperar. Numa acção desesperada, os reclusos fizeram um motim com palavras de ordem “queremos um super-guarda… só, para nós!!!” E começaram a pegar fogo aos colchões que tinham à mão. Ainda chamaram o Jail Man para ver se o podiam imolar ao que ele respondeu: “Caros reclusos deixem-se disso que o Tocha Humana é personagem de outra história! Vejam lá se não querem que eu vista o meu fato de super herói e aplique de forma algo agressiva um duro cacetete na vossa frágil moleirinha…; assim, à falta de melhor, sempre posso fazer parte da sequela “os vingadores”…”

 

 

 

 

 

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