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Gente comum com memória especial

Opinião  »  2018-03-08  »  Carlos Tomé

"Tenho para mim que neste como noutros casos a história é feita pelos próprios resistentes"

Como estava farta de ouvir dizer que a PIDE só tinha dado em alguns meliantes umas pancadinhas de-quando-em-vez que não faziam mal nenhum, num processo de branqueamento total do fascismo português, Aurora Rodrigues, antiga militante do MRPP e hoje procuradora da República, decidiu contar as suas histórias na prisão na época do Marcelo Caetano. E em 2011 editou o livro “Gente Comum – uma história na PIDE”.

Dantes era a palraria dos reis, um interminável listar de nomes e cognomes, como quem recita as serras e os rios do império. Eram os reis que derrotavam os infiéis em guerras intermináveis, o povo era uma gentalha desdentada, cheia de piolhos e mal trajada, a arraia-miúda que escarrava sangue tuberculoso para o chão. Eram os figurantes da história, como se não fizessem parte dela. Gente comum.

Entretanto, com o andar da carruagem do tempo, parece que vamos ganhando alguma lucidez, capaz de ousar pensar que seria importante deixar algum registo do que foi o passado recente para a malta que fica por cá. Os 48 anos que este país viveu ainda estão bem vivos em algumas memórias e a geração facebook talvez não perdesse nada em conhecer o sabor desses tempos. O combate ao fascismo foi uma realidade com expressão local, aqui em Torres Novas também houve quem resistisse por diversas formas e alguns ainda estão vivos.

Se não fizermos tudo para registar os exemplos e preservar a memória dos torrejanos que foram inconformistas a sério, seremos todos responsáveis pelo inevitável esquecimento colectivo. Assim de repente, no mundo dos torrejanos vivos, vêm-me à cabeça os casos do António Canais, João Espanhol, António Canelas, Fernanda Tavares, Emídio Martins, Rui Pereira, José Ribeiro, José Alves Pereira, António Mário Santos, Trincão Marques, Vaz Teixeira, Joaquim Alberto, Pena dos Reis, João Palla Lizardo e outros (desculpem-me as omissões), todos eles com uma história de resistência activa em algum momento da sua vida. Todos eles gente comum.

António Mário Santos (que também foi um resistente), em comentário n’“O Riachense” (edição de 23.02.18) ao meu artigo no JT (edição de 2.02.18), leu o que eu não escrevi e retirou do meu texto pensamentos que eu não tive. Não falei no PCP e nem sequer pensei que só dali sopraram os ventos resistentes. É certo que Santa Comba Dão não desresponsabiliza o nosso próprio dever de registar este passado, mas neste caso, como noutros, a responsabilidade não é a mesma para todos.

Nem só os militantes do PCP resistiram ao fascismo, felizmente não estavam sozinhos, pois também houve católicos, socialistas, anarco-sindicalistas, outros comunistas e outros que também deram o corpo às balas. Mas eu nunca disse nem pensei o contrário. Desconheço completamente se existe algum registo dessas lutas nos arquivos do PCP e calculo que não exista muita documentação dispersa uma vez que a luta em clandestinidade impunha regras e cautelas que não aconselhavam os registos escritos. No entanto, isso também não nos desresponsabiliza.

Tenho para mim que neste como noutros casos a história é feita pelos próprios resistentes, aqueles que forjaram as lutas, que foram intervenientes activos nos acontecimentos, os que deram o peito às balas. A tal gente comum, mas com uma memória especial. Aliás, ali na vila ao lado há uns malucos que querem editar um livro precisamente sobre as memórias de um resistente aproveitando quase e só o seu discurso directo. Isso parece-me muito importante. E não é preciso arquivos, nem documentos nem nada disso, basta falar com ele e deixá-lo relatar a sua vivência. Basta a memória, essa maluca.

Mas se não a registamos, essa realidade desaparece e qualquer dia ninguém acredita que houve fascismo e resistência cá por estas bandas. Por isso é que eu temo que a malta se vá embora sem se fazer esse registo. A António Mário, que também foi um resistente e é historiador e investigador da história local, tocam-lhe mais responsabilidades nessa tarefa, muito mais do que a este escriba, pobre coitado que não foi uma coisa nem é outra.

 

 

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