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Que concelho desejamos?

Opinião  »  2025-07-22  »  António Mário Santos

Entrámos em período pré-eleitoral autárquico. Nos partidos candidatos à tomada do poder, há algo que anuncia o fim dum ciclo. Ainda que as principais figuras candidatas à presidência do executivo camarário, nos partidos tradicionais do poder, não apresentem grande novidade, ou pela transferência dum cargo para outro, ou pela permanência no mesmo, o que revela certa prudência, ou certa dificuldade, em relação à reconhecida necessidade de mudança, são notórias as alterações na composição das listas, quer para o executivo camarário, quer para a Assembleia Municipal, mesmo paras as juntas de freguesia.

Buscou-se localmente - num momento político em que a ameaça dum retrocesso civilizacional coloca, por influência da extrema-direita, através da redes sociais, nas percepções individuais fomentadas pelas notícias falsas por aquelas divulgadas, a conservadora e reaccionária ideia da masculinização da sociedade, através da violência sexual e supremacia social, do machismo soez e embrutecido no ataque ao legal direito à identidade de género - um refrescamento das listas através da ascensão da mulher, que importa salientar.

Mostra que a sociedade torrejana, por influência dos valores da democracia, mudou. A ascensão da mulher, que, hoje, já assume papel de relevo na educação, na medicina, na justiça, na cultura, no mundo associativo, na assistência social, começa, localmente, a exigir o justo reconhecimento político e a confrontar o machismo com a sua sensibilidade e um olhar diferente para a resolução dos problemas colectivos. Os casos das listas do Bloco de Esquerda e do independente P’La Nossa Terra, ao apresentarem mulheres como cabeças-de-lista, se normal no primeiro, inovador no segundo, revelam uma ruptura com a secundarização do feminino, que nem o Partido Socialista, nem a AD(PSD+CDS) conseguiram assumir, ainda que cedessem, nas listas para a Câmara, nos lugares secundários.

Apresentadas as listas e as candidaturas, interessa, sobretudo, tomar conhecimento dos programas que defendem.

Um primeiro exemplo, repetitivo, democraticamente negativo.

O PS, há mais de trinta anos com o monopólio autárquico, usa, rotineiro, de forma descarada, sem nenhum respeito pelas outras candidaturas, o período pré-eleitoral com uma avalanche de projectos e obras na cidade e no concelho, que lembram, a quem viveu esses tempos, os métodos da União Nacional localmente apresentada pelo Dr. Carlos Mendes, para cativar o voto dos e das munícipes. Manifesta uma clara intenção de influenciar o eleitor concelhio, congeminada com antecedência para coincidir com o tempo do voto. A aceitação de tal metodologia não fica bem a um candidato que se deseja reformador e renovador!

O que deveria importar neste momento, era o que cada partido pensa sobre Torres Novas, não só na sua dimensão concelhia, mas na sua integração num meio mais vasto, que lhe foi história e sociedade, economia e desenvolvimento. Delimitada entre a serra de Aire e o Tejo, na sua inter-relação com Alcanena, Golegã, Entroncamento, Vila Nova da Barquinha. Um polo agrícola, comercial, industrial, educativo, cultural, de serviços, quer no sector da saúde, do desporto, do lazer, do turismo. Que qualifique os lugares, seja atractivo para a juventude, com meios diversificados de ensino, transporte e empregabilidade garantida.

Há que rever a noção de interioridade, de recolocar a qualidade ambiental, a reconversão florestal, mas também as respostas urgentes e inadiáveis do emprego, da habitação, das condições de vida, do apoio ao envelhecimento social, da reforma activa, da defesa intransigente da água e do solo como base da sustentada fixação da espécie humana.

Que se não vote por rotina, por percepções que terceiros utilizam para atingir os seus próprios fins.

Exija-se aos candidatos programas claros.

Estou muito à vontade para escrever estas reflexões sobre as eleições e quais os seus objectivos. O meu tempo já não verá as transformações que creio serem essenciais para o concelho e a região envolvente. Isso não me impede de defender um país menos desigual, mais justo e solidário, onde o respeito pelo outro não ignore o direito legitimo à diferença individual. Desejando ser europeu, mas sem ignorar que a supremacia branca é um pretexto de exploração económica, que gerou, no passado, campos de concentração e de extermínio nazis, como hoje o genocídio de Gaza. A violência e a mentira, por muito que destruíssem, nunca venceram o desejo da liberdade consciente.

O futuro concelhio, o país, a humanidade, o mundo, ontem como hoje, sempre dependeram do que se ama e se defende.

 

 

 

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