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Piropo

Opinião  »  2016-01-06  »  Inês Vidal

"Chegava ao ponto em que a resposta com que eu arrematava o assunto, deixava incrédulo e sem palavras quem nos havia presenteado com aquele rasgo poético, verdadeira arte de rua."

Quem me conhece, sabe que sempre fui refilona. Estou melhor agora – ou não, dependendo do ponto de vista. Esta coisa toda dos piropos e respectiva punição deixa-me algo nostálgica. Em primeiro lugar porque, graças à minha fama de respondona ou ao avançar da idade, que já deixa marcas, os piropos na rua para com a minha pessoa surgem hoje em menor número (se bem que uma vez por outra ainda me depare com uma simpática buzinadela ou um lisonjeiro beijito lançado no ar. Há gostos para tudo!). Mas a nostalgia leva-me a outros tempos, em que sendo eu a mais maria-rapaz de todo o meu grupo de amigas (e a menos assediada, já que elas eram – e são – todas muito mais giras que eu), cabia-me a mim a defesa da sua honra nas horas de aflição. Chegava ao ponto em que a resposta com que eu arrematava o assunto, deixava incrédulo e sem palavras quem nos havia presenteado com aquele rasgo poético, verdadeira arte de rua. A última que me lembro metia ameixas, e mais não digo. Não sei o que era mais rude, se o piropo ou a resposta de quem nunca soube muito bem ouvir calada. A verdade é que se gerava ali um momento que poderia muito bem ter sido evitado e que nunca trouxe nada de muito produtivo às nossas vidas, a não ser umas boas gargalhadas que ainda hoje surgem quando relembramos o momento. Os piropos serão sujeitos a punição. Acho bem. Temos todo o direito de andar na rua sem ouvir tamanhos impropérios. Já quem os faz fica desprotegido pela lei, que não os defende de respostas como as minhas. Fazer o quê? É tudo legitimado pela “auto-defesa”!

 

 

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