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Torres Novas no III Congresso da Oposição Democrática (1973) - josé alves pereira

Opinião  »  2023-04-24  »  José Alves Pereira

" “Ao tempo, o que surgia como imperativo era o empenhamento na resistência e a convicção de que a liberdade teria que ser conquistada."

Neste Abril de 2023, passam cinquenta anos da realização em Aveiro do III Congresso da Oposição Democrática. É um bom pretexto para uma pequena resenha dum tempo de resistência em que Torres Novas participou.

Nesse distante Abril, estava-se na recta final do regime. A queda física de Salazar e o descrédito da primavera marcelista haviam provocado já o abandono das ilusões semeadas nos sectores liberais. Mergulhado em grandes dificuldades internas, isolado internacionalmente, colocado perante as crescentes contestações sociais, sindicais e estudantis, ao regime restava a censura, a repressão e as prisões, como meios de se perpetuar no poder .

A incorporação de milhares de jovens nas fileiras militares, a compreensão, mesmo dentro das forças armadas, que a Guerra Colonial, que se prolongava há 13 anos, estava num beco sem saída não se perspectivando qualquer solução política, conduziam a grandes contradições e descontentamentos múltiplos.

Mas o regime necessitava, para se legitimar, de dar um ar de abertura política, de mostrar que a oposição existia, tanto mais que se estava em ano de eleições.

Apesar das proibições e perseguições dos meses anteriores, acompanhando e dinamizando as movimentações sociais que se iam manifestando em muitos sectores da sociedade portuguesa, as organizações democráticas distritais, polarizadas em torno do que veio a designar-se por MDP/CDE, desenvolveram reuniões, legais ou semi-legais, preparatórias da participação cívica e política de um maior número de portugueses.

Também em Torres Novas se vivia então um período de intensas movimentações democráticas, culturais, associativas e sindicais. Nas reuniões preparatórias, nomeadamente em Leiria, Marinha Grande, Aveiro, a oposição democrática do distrito foi representada por vários torrejanos, alguns dos quais vieram a integrar a Comissão Nacional. Os seus nomes: Álvaro Maia (emp. comercial), Arlindo Tavares (emp. comercial), Augusto Neves (bancário), Carlos Trincão Marques (advogado), Faustino Bretes (jornalista), João José Lopes (comerciante), José A. Pereira (estudante). Nos dias do encontro, outros torrejanos estiveram presentes.

Perante a determinação dos participantes em efectuar uma romagem ao túmulo do democrata aveirense Mário Sacramento, resistindo à nota proibitiva do Governo Civil, foi sobre estes descarregada na av. Lourenço Peixinho, local da concentração, uma brutal carga pela polícia de choque com os respectivos cães.

Na véspera, à noite, da projectada manifestação, 8 de Abril, realizou-se no “sótão” do cinema Avenida uma reunião das comissões distritais para decidir o que fazer dada a nota de proibição emanada do Governador Civil. As opções centravam-se entre cumprir as proibições governamentais ou realizar a manifestação, entendida como direito democrático. Prevaleceu a segunda opção, com as consequências conhecidas.

Aguardando a decisão, muitos congressistas mantiveram-se num salão anexo à sala. Era necessário ocupar o tempo de espera. Soube-se que no edifício estavam o José Afonso e o José Jorge Letria, a quem foi pedido que entoassem algumas das suas canções. Entretanto, e num improvisado Canto Livre, soltavam-se já as cantorias de resistência mais em voga. A surpresa foi verificar que, quem animava esse improviso, eram o João José Lopes (João Espanhol) e o Rui Alves Pereira, que exercitavam em escala ampliada as práticas conviviais do Cine Clube de Torres Novas.

Hoje é fácil analisar os acontecimentos, porque se tem no horizonte do calendário a data que daí a pouco mais de um ano seria o marco libertador de 25 de Abril de 1974. Mas, ao tempo, o que surgia como imperativo era o empenhamento na resistência e a convicção de que a liberdade teria que ser conquistada.

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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