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Cumpre-se a tradição

Opinião  »  2018-06-21  »  Anabela Santos

"Obrigada por acreditarem que vale a pena, obrigada pelo trabalho, pelo esforço,"

Junho, mês dos santos populares… António, Pedro e João.
Santo António, conhecido por Santo António de Lisboa, o santo que pregou aos peixes, o Santo casamenteiro, não é exclusivo da nossa capital e não é de Pádua.
Nas minhas memórias ele é torrejano. Nasceu no meu bairro, junto da capela.
Santo António não é dos outros, é nosso. E, por isso, é digno de homenagem feita pela nossa gente.

Ainda não estamos no mês de junho mas já se começa a ver movimento lá para os lados da Capela.
Quem passa percebe que aqueles homens e mulheres, jovens e crianças preparam a tão esperada festa, única e tão nossa (do bairro e da cidade)… festa em homenagem ao Santo.
Com muita convicção, estas pessoas mostram que o bairrismo continua vivo e com mais ou menos dificuldades mantêm viva a tradição.
Na minha memória, junho cheira a sardinha assada e a manjerico. Lembra vida pelas ruas engalanadas com fitas de múltiplas cores. Lembra folia, música, alegria.
Lembra a procissão que sai do adro, depois da missa, e percorre, ao som da banda, as ruas do bairro. Entre lágrimas, sorrisos e rezas, os “vizinhos” seguem os andores mostrando a sua fé e, mais uma vez, o bairrismo.
As colchas da Dona Fátima, da dona Conceição, da dona da loja e de tantos outros enchem as ruas de cor, de respeito, de emoção. Mais uma vez se cumpre a tradição.
E, eu, a Elsa, a Susana e a Maria, miúdas solteiras, transportamos o andor de Santo António, cumprindo, assim, o nosso dever sem qualquer sacrifício.
O som da banda continua...

Junho lembra, ainda, as horas , as tardes, as noites, os dias que antecedem o arraial e nos juntávamos, eu e os amigos do bairro, para ensaiar a marcha com muita responsabilidade. Só podia ser assim, a marcha sai à rua e nada pode correr mal.
Os foguetes anunciam a saída e vaidosos os marchantes seguem “à risca” a coreografia ensaiada pelo paciente Alexandre.
No final do dia, o recinto da festa está cheio. As sardinhas, as bifanas, a cerveja e o vinho não param de circular. A música anima os presentes pela noite fora. Há dança e alegria.
Cumpre-se a tradição…

Estas são as minhas memórias que foram interrompidas tristemente, o ano passado, com a notícia de que não se iria realizar a festa de Santo António.
Valeram as celebrações religiosas vividas com a mesma intensidade de sempre.
Mas, este ano, graças a um grupo de jovens que teve como objetivo manter a tradição dos festejos em homenagem ao Santo, as minhas memórias voltaram.
Disse-me o João Miguel, miúdo que conheço desde bebé, que esta seria uma grande festa.
-Então, João, está tudo a correr bem? Têm ajudas? Têm apoios? O pessoal está animado?
- Está tudo bem. Todos bem dispostos. O trabalho é feito pelos membros da Associação e contamos com a ajuda da família e amigos. Temos tudo organizado e quarta feira estará tudo pronto para o inicio da festa. Temos apoio da Câmara Municipal tanto a nível de materiais, como a nível monetário. Não há queixas ... E, a entidade que menos nos apoia e devia apoiar é a Santa Casa da Misericórdia uma vez que no final da festa a maior percentagens dos lucros reverte a favor da Instituição.
Neste momento interrompo o João. Não tinha ideia de que seria essa a distribuição dos lucros. Explicou-me que a Associação fica com uma pequena percentagem que será gasta na compra de tachos, talheres, loiças necessárias que estão em falta e o resto do dinheiro irá para a Santa Casa.

Não sei se é justo ou não. Não sei que faz a Santa Casa com o dinheiro - Eu sugeria que o investimento fosse na capela – mas, sendo assim, seria justo terem mais apoio da Instituição.
Enfim! Não há bela sem senão…
- Veja lá o que vai escrever, Anabela. - Diz- me o João no final da conversa.
- O que havia de escrever João?

Obrigada por acreditarem que vale a pena, obrigada pelo trabalho, pelo esforço, pelo tempo despendido, pela dedicação. Obrigada por manterem viva uma tradição que é do bairro de Santo António, sim, mas também de toda a cidade.
Está escrito …
E, lá vem ela, a marcha. Este ano também temos a Madragoa. O povo sai à rua. Começa o arraial.

Mais um ano e aqui esta
esta marcha que é do povo
gente simples que é de cá
se junta com sangue novo
e sem olhar a idades
todos se sentem contentes
gente simples de CA
mais um ano e aqui esta
para mostrar a santo António
a raça das suas gentes.
(Letra de Jorge pinheiro,
música foi Paulo leitão)

 

 

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