• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Quinta, 13 Dezembro 2018   |     Directora: Inês Vidal   |     Estatuto Editorial   |     História do JT
   Pesquisar...
Dom.
 16° / 7°
Céu nublado com chuva moderada
Sáb.
 17° / 7°
Céu nublado com chuva moderada
Sex.
 15° / 7°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  17° / 9°
Períodos nublados com aguaceiros e trovoadas
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

A MANCHA HUMANA

Opinião  »  2015-10-11  »  José Ricardo Costa

"É mais fácil passar um camelo pelo buraco da agulha do que um rico comer o pão que o diabo amassou sem ter de se desfazer dele."

Toda a gente sabe que Portugal é um lugar perigoso para quem precisa de entrar numa casa de banho pública mas também é verdade que nunca estamos preparados para o pior. Há dias, numa viagem de comboio, precisei de ir à casa de banho. Abro a porta e entro no Inferno, não no de Dante mas no de Rabelais, confrontando-me com uma daquelas situações radicais que são mais uma facada nas nossas feridas narcísicas e que valem como todo um programa na área da Antropologia Filosófica: dentro da sanita, uma enorme, avassaladora, pletórica, mesopotâmica (de acordo com a estética hegeliana), ameaçadora cornucópia castanha, vulgo, cagalhão. Enfim, que os leitores me perdoem a indisfarçável falta de polidez mas não há eufemismo que possa traduzir, sem trair, o verdadeiro sentido, natureza ou estatuto ontológico daquela tétrica e granítica massa castanha. Claro que desisti do que me tinha levado até ali, que, felizmente, não era urgente, e lá regressei, pávido e nada sereno, ao meu lugar.

Não estava a brincar ou apenas tentar ser parvo, coisa para a qual não preciso de me esforçar muito, quando falei em Antropologia Filosófica. Sentar-me no lugar depois de uma experiência escatológica daquela dimensão, roubou-me a calma e tranquila concentração de que precisava para continuar com a Singela Proposta do meu Swift, precisando, como de pão para a boca, de olhar para os passageiros em meu redor em busca de uma humanidade da qual, momentos antes, me senti exilado. Deus sabe o quanto precisei, com inusitada avidez, de procurar rostos, olhares, expressões, gestos, bocejos, pessoas acordadas, pessoas a dormir, pessoas caladas, pessoas a falar, pessoas a ver filmes, a escrever sms`s, a ler, a olhar pela janela, tudo, mas mesmo tudo o que me pudesse alhear, libertar, desalienar de toda aquela sinistra visão que exacerba o pessimismo e a angústia de todo o existencialista, enfim, esquecer o pesadelo e voltar a encontrar a luz que cintila à superfície da mais simples e radiante humanidade.

Mas, como diria um coro grego, os dados estavam lançados, a fortuna fugiu a sete pés para os antípodas e o destino riu-se da minha miséria com estridente escárnio: não consegui voltar a enfrentar a humanidade com os mesmos olhos. Olhava para a humanidade mesmo ali à minha frente, mas, ver, ver verdadeiramente, via só o cagalhão. Indelével, obsessivo, resiliente, conspurcando as sinapses do meu córtex pré-frontal, dando origem a um iníquo processo de obstipação mental. Queria olhar para as pessoas da maneira como devem ser olhadas mas a minha cabeça só expelia especulações imundas, fazendo de mim um tarado, se bem que tarado distópico. Já não se tratava de olhar para as pessoas em busca da sua sensualidade, da sua carne, da sua volúpia. Quisesse Deus que fosse isso. Não, a minha cabeça já só queria saber se era o maldito cagalhão parte intrínseca daquele jovem de calças rotas que não parava de ler e enviar mensagens. Ou se daquela mulher bonita, vistosa e elegantemente vestida que vinha junto à janela oposta à minha. Se daquele homem ou mulher que formavam um casal humilde, gente de poucos recursos, mesmo à minha frente. Eu queria associar o cagalhão à pessoa ou a pessoa ao cagalhão, pela sua idade, o seu sexo, a sua classe social, a sua educação, a sua beleza, o poder ser de esquerda, de direita ou do PS, a sua roupa, a sua personalidade, mas em vão. No meu obstipado cérebro apenas ressoavam, com sons guturais, como se fosse a Linda Blair no Exorcista na fase crítica em que cuspia líquidos verdes e castanhos e tinha hemorróidas no rosto, as palavras do papa Inocêncio III no De Miseria Humanae Vitae

"Tu, homem, andas pesquisando ervas e árvores; estas, porém, produzem flores, folhas e frutos, e tu produzes lêndeas, piolhos e vermes; daquelas brotam azeite, vinho e bálsamo, e do teu corpo escarros, urina e excrementos?"

Eis-me, pois, a pesquisar, não ervas e árvores, mas pessoas, simplesmente pessoas, com os psicológicos, sociológicos, antropológicos, semióticos quadros mentais com que estamos habituados a entendê-las e eis que na minha cabeça tudo se reduz a um fracturante cagalhão, perante cuja densidade ontológica ou pureza fenomenológica não há Psicologia, Sociologia, Antropologia ou Semiótica que resista. Se nas clássicas vanitas é o tempo e a morte que nos une, homens e mulheres, velhos e jovens, ricos e pobres, sábios e analfabetos, este cagalhão entrou na minha vida com o impacto de uma verdadeira ruptura epistemológica ou de um furacão evangélico se bem que para uma Má Nova. Sim, há o tempo. Sim, há a morte. De ora avante, há também aquele cagalhão. Nele está toda a humanidade sem dele poder fugir como todos os tripulantes no Lifeboat do Hitchcock. Nele tudo o que somos desaparece para nos tornarmos Nele. De ora avante, na minha vida, não verei nada tão comunista, tão verdadeiramente revolucionário ou tão evangelicamente igualitário, como aquele cagalhão. Em verdade vos digo: é mais fácil passar um camelo pelo buraco da agulha do que um rico comer o pão que o diabo amassou sem ter de se desfazer dele. 

 

 

 Outras notícias - Opinião


O drama dos partidos de poder »  2018-12-07  »  Jorge Carreira Maia

A crise em que se arrasta o principal partido da oposição, o PSD, é sintomática da natureza dos partidos de poder em Portugal. São fortes e sólidos quando estão no poder; são frágeis e à beira da desagregação quando a governação lhes foge.
(ler mais...)


Mulheres »  2018-12-07  »  Inês Vidal

São mulheres. São presidentes, directoras, empresárias, polícias, bombeiras, autarcas, entre tantas outras profissões ou actividades. Acima de tudo, são mulheres. Ocupam cargos que um dia foram tradicionalmente de homens, ou foram as primeiras a fazê-lo por estas bandas.
(ler mais...)


Direito à indignação »  2018-12-07  »  Fernando Faria Pereira

O conceito deve-se, tanto quanto me lembro a Mário Soares, figura incontornável da democracia, que protagonizou a Presidência Aberta pelo Ambiente em resposta ao artigo 66º da constituição (ambiente e qualidade de vida) que estipula no seu nº 1: todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender.
(ler mais...)


Amasso Friday »  2018-12-07  »  Miguel Sentieiro

Vi as imagens daquela massa humana compactada à porta da loja de aspiradores na tal Black Friday. Numa primeira análise temo confessar que também embarquei na tese “ o que passa na cabeça destes mentecaptos para, numa 6ª feira de manhã, se sujeitarem a uma espera de horas neste degredo massivo?”.
(ler mais...)


As estradas do concelho de Torres Novas »  2018-12-07  »  António Gomes

Uma parte muito significativa das estradas, ruas, ruelas, largos, rotundas, somando mais de cem, que fazem parte da rede viária deste concelho, encontram-se em estado de deterioração mais ou menos avançado. Algumas situações estão mesmo num estado miserável, como sabemos.
(ler mais...)


Como funciona a nossa memória »  2018-12-07  »  Juvenal Silva

 

A memória é essencial para a nossa capacidade de gravar, armazenar e recuperar informações. A nossa memória é uma máquina fantástica, que contém as nossas perceções, os nossos sentimentos, as nossas memórias, imaginação e permite-nos pensar e, ser quem somos.
(ler mais...)


Filhos e netos »  2018-11-23  »  Jorge Carreira Maia

Para o meu neto Manuel.

Há uma diferença essencial, para um pai e avô, entre o nascimento de um filho e o de um neto. O nascimento do filho traz com ele, para além do prazer que a sua vinda significa, problemas práticos.
(ler mais...)


Palavra passe »  2018-11-21  »  Fernando Faria Pereira

Estaciono à primeira. Entro no café. Portas automáticas. 3 rapazes: o do lado de lá e outros 2. Boa noite! Bnoite. 1 Água com gás natural sem copo. A televisão está no CM: desgraças, previsíveis ameaças.
(ler mais...)


Biblioteca com vida »  2018-11-21  »  Anabela Santos

Há muitos anos, não quero lembrar quantos para não recordar que já estou na “meia idade”, subia, com alguma regularidade, a ladeira de Salvador e dirigia-me à biblioteca municipal, que ficava junto da igreja.
(ler mais...)


Quais os sintomas e tratamentos naturais dos resfriados »  2018-11-21  »  Juvenal Silva

Os resfriados podem ocorrer em qualquer época do ano. Todavia, são mais comuns entre as estações de outono e inverno.

Os sintomas mais comuns são: coriza, espirros, congestão nasal, tosse, dor garganta, cansaço, perda de apetite, febre baixa, embora nas crianças possa ser mais elevada ocasionalmente.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2018-11-23  »  Jorge Carreira Maia Filhos e netos
»  2018-11-21  »  Juvenal Silva Quais os sintomas e tratamentos naturais dos resfriados
»  2018-11-21  »  Anabela Santos Biblioteca com vida
»  2018-11-21  »  Fernando Faria Pereira Palavra passe
»  2018-12-07  »  Jorge Carreira Maia O drama dos partidos de poder