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O desafio

Opinião  »  2018-04-20  »  Jorge Carreira Maia

"As culturas ditas juvenis são uma das principais armas de liquefacção do mundo e introduzem rupturas, quase sempre dolorosas, entre gerações."

Tenho estado a ler The Benedict Option: A Strategy for Christians in a post-Christian Nation, um livro do conservador Rod Dreher. O autor, um cristão ortodoxo americano, defende que os Estados Unidos são já uma sociedade pós-cristã. O livro apresenta uma proposta de resistência dos cristãos ao modo de vida actual. Uma parte dessa estratégia passa pela educação das novas gerações. Dreher defende que as famílias cristãs devem evitar educar os filhos nas escolas públicas. Caso não tenham dinheiro para uma escola de orientação religiosa, a opção é fazer a escolaridade em casa, para as novas gerações não serem contaminadas pela cultura existente na sociedade pós-cristã.

Deixando de lado a visão apocalíptica do autor, há um problema crucial que se coloca relativamente à educação das novas gerações. E esse problema toca a cristãos, agnósticos e ateus. Como fazer passar os valores familiares para os filhos? A questão surge pelo peso desmesurado que os grupos de amigos, que se constituem, por norma, na escola, têm na formação dos jovens. Esses grupos inscrevem-se numa cultura que rompe, de forma radical, com os valores da família, cultura essa que é um produto híbrido entre a imaturidade das novas gerações e a manipulação a que elas são sujeitas por adultos obscuros, mas poderosos, escondidos atrás dos produtos de consumo, dos grandes meios de comunicação de massas e das redes sociais. As chamadas culturas juvenis fomentam, no mundo ocidental, a afirmação do jovem não pela emulação de um modelo parental mas pela revolta sistemática contra ele.

O resultado de tudo isto é aquilo a que o sociólogo polaco Zygmunt Bauman chama modernidade líquida. Nada no mundo contemporâneo é sólido. Não o são as instituições e ainda menos o é a cultura. As culturas ditas juvenis são uma das principais armas de liquefacção do mundo e introduzem rupturas, quase sempre dolorosas, entre gerações. O diagnóstico de Rod Dreher não é despropositado, pois o problema é real, tanto nos EUA como na Europa. A rasura dos valores das gerações anteriores é um problema não apenas porque afecta a transmissão de uma identidade colectiva, mas porque desarma os jovens perante as ciladas do mundo. Ao contrário do que propõe Dreher com o seu anátema da escola pública, precisamos de uma estratégia em que famílias e escolas (públicas e privadas) encontrem meios que ajudem as novas gerações a enfrentar o mundo e a preservar as tradições morais e culturais, de âmbito religioso ou não, que lhes darão uma identidade sólida mas adaptável a um mundo em dissolução contínua. É este o desafio.

 

 

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