• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Domingo, 20 Janeiro 2019    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qua.
 14° / 9°
Céu nublado com chuva fraca
Ter.
 14° / 6°
Céu nublado com chuva fraca
Seg.
 14° / 5°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  14° / 8°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Torres Novas está lá dentro

Opinião  »  2018-06-06  »  Carlos Tomé

"Torres Novas ainda lhe há-de pedir batatinhas. João Espanhol é muito maior do que as grandes superfícies comerciais"

Casa Espanhol, uma das três lojas mais antigas de Torres Novas, fechou as suas portas no passado dia 30 de Maio. Torres Novas nunca mais será a mesma terra. Com este encerramento encerra-se uma determinada forma de estar na vida, a generosidade e a inteligência de conseguir estar quase 80 anos à frente de um estabelecimento comercial que marcou indelevelmente a vida da cidade.

Amolava facas e tesouras, consertava chapéus-de-chuva, reparava tesouras de poda e de tosquia, mas o João Espanhol sempre foi muito mais do que um amola tesouras. Não usava gaita-de-beiços nem andava pelas ruas de casa em casa ao final da tarde a alertar as necessidades, a cavalo numa bicicleta.

A sua vida de artífice e de cidadão empenhado na participação da vida colectiva da sua terra, interveniente activo no que de mais importante ela tem de geração de amizades, de riqueza de acções e de criação de arte, sempre ultrapassou a de um simples comerciante, sempre saltou aquela imagem feita e estática do homem que estava atrás de um balcão e arranjava fechaduras e chaves e tesouras e desvendava os segredos dos cofres da vida.

O João Espanhol conseguiu moldar a sua cidade à imagem e semelhança da sua casa, fê-la ajoelhar perante si, embevecida pela sua postura simples e pelas suas atitudes genuínas e exemplos claros que lhe transmitia diariamente. Com a sua personalidade solidária, amigo de todos, não olhando a cores partidárias, o João Espanhol e a Casa Espanhol confundiam-se, eram uma só pessoa. Foi essa postura íntegra e popular que conquistou a sua cidade e a vergou aos seus pés.
Torres Novas ainda lhe há-de pedir batatinhas. João Espanhol é muito maior do que as grandes superfícies comerciais que enxameiam todos os cantos da cidade, mais importante que as ruínas que transformam em pó o casco da urbe e reduzem-na a um simulacro de vida, tudo perante a passividade e o assobio para o lado da autarquia que olha para o 30 de Maio com a complacência dos justos, fechando os olhos, escondendo a cabeça na areia e ignorando as suas responsabilidades nesta história toda. João Espanhol tem em si a verticalidade e coerência do hino nacional, da Grândola e do Avante entoados pelo seu vozeirão pondo todos em sentido e a todos tocando e fazendo soar coros espontâneos e improvisados de braço no ar.

Lá dentro está a casa cheia de memórias, referências, opções, pedaços de vida, fotografias da sua veia artística, cumplicidades várias, cânticos, músicas, vivas, punhos no ar. Lá dentro estão as máquinas, as ferramentas, centenas de artefactos usados milhares e milhares de vezes em milhares de gestos repetidos até ao infinito. Artífice da amizade. Lá dentro estão as memórias políticas de um tempo em que as opções eram assumidas de corpo inteiro, custosas, implicando a vida inteira, limitando movimentos mas criando liberdade. O João Espanhol sempre foi razoável, sempre entendeu todas as opções, sempre colocou a amizade num pedestal e as coisas sem importância no caixote do lixo.

É lá dentro que está a vida. Lá dentro também está a vida de Tores Novas. Por isso a Casa Espanhol não pode fechar definitivamente, porque fechando acaba-se com a vida de todos. A memória só pode reviver se alguém a preservar. A memória desta terra está lá dentro. E seremos todos responsáveis se a vida que lá está dentro não for defendida. Se Torres Novas, ela própria, não quiser fechar tem de pedir batatinhas ao João Espanhol e voltar a dar vida à Casa Espanhol.

 

 

 Outras notícias - Opinião


As eleições europeias »  2019-01-11  »  Jorge Carreira Maia

Das três eleições que decorrerão este ano – Regionais da Madeira, Legislativas e Europeias – serão estas últimas as mais importantes para o nosso destino a médio prazo.
(ler mais...)


O desassossego »  2019-01-11  »  Anabela Santos

Ou eu estou num estado de loucura que me faz confundir o real com o irreal, ou vivo num país imaginário, num sonho (menos bom) permanente, ou totalmente enganada vinte e quatro horas por dia.

Não são poucas as vezes que ouço ou leio nos meios de comunicação que o país vive tempos tranquilos.
(ler mais...)


E o Zeca revisitou-nos »  2019-01-11  »  António Gomes

Não foi um qualquer concerto, foi mesmo a sério. O Zeca revisitou-nos, desta vez no Estúdio Alfa, pela mão dos “LaFontinha”. Tal como há 50 anos, José Afonso esteve entre nós, em Torres Novas.
(ler mais...)


Como a dor desfolha o peito »  2019-01-11  »  Carlos Tomé

1.Embora uma das imagens de marca do antigo regime fosse a opressão, felizmente existem histórias de resistência espalhadas por muitos locais. A resistência contra o fascismo não foi uma expressão meramente teórica, antes foi preenchida com muitos exemplos reais, episódios de coragem, gente de carne e osso que trocou as voltas ao destino, lutando contra ventos e marés.
(ler mais...)


O negócio dos extremos »  2018-12-20  »  Jorge Carreira Maia

Uma das questões que parece atormentar certos comentadores políticos é a da ausência de uma extrema-direita em Portugal. Apesar de isso não ser completamente verdade – não existe uma extrema-direita organizada politicamente, mas existe uma extrema-direita social, ainda inorgânica –, há uma outra questão que deveria merecer atenção.
(ler mais...)


A OBESIDADE É UM PROBLEMA DE SAÚDE »  2018-12-19  »  Juvenal Silva

A obesidade é um problema de saúde e também um fator de risco para diversas doenças. Pessoas com mais de 20% de peso acima do recomendado para a sua altura e sexo, são mais vulneráveis a doenças degenerativas, nomeadamente problemas cardíacos, determinados tipos de doenças cancerosas, diabetes, artrite, etc.
(ler mais...)


Os(as) caixas de supermercado »  2018-12-19  »  António Gomes

Todos os anos por esta altura, sou confrontado com os episódios que se repetem quase mecanicamente nas grandes superfícies comerciais - estou a falar daquele dueto entre cliente e o caixa – “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”, “quer um saco?”, “tem cartão cliente e factura com número de contribuinte, deseja?”

Dias, semanas seguidas, ali estão elas ou eles sempre disponíveis e na esmagadora maioria bem-humorados.
(ler mais...)


Haja fé »  2018-12-19  »  Anabela Santos

Assim, em pouco mais de um abrir e fechar de olhos, estamos, de novo, em Dezembro. Mês de festa, de família, de celebrar o aniversário de Jesus Cristo, presépio, árvore de Natal, luzes, música, afetos, união e solidariedade.
(ler mais...)


O Cacetete »  2018-12-19  »  Miguel Sentieiro

Neste momento de convulsão social, com inúmeras classes profissionais em greve, existe uma em particular que não me consegue deixar indiferente. A greve dos guardas prisionais acontece por uma clara falta de diálogo e de desconhecimento por parte dos sindicatos do plano estratégico mais profundo que se trata da criação de um novo super herói tuga chamado “Guarda Prisional numa cadeia portuguesa” ou GPCP.
(ler mais...)


Alheados »  2018-12-19  »  Inês Vidal

Afastámo-nos da coisa pública. Por descrédito, por falta de tempo, por egoísmo. Seja por que motivo for, andamos tendencialmente longe de tudo o que diz respeito à gestão das nossos destinos e deixamos em mãos alheias as decisões da nossa vida.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2019-01-11  »  Jorge Carreira Maia As eleições europeias
»  2019-01-11  »  António Gomes E o Zeca revisitou-nos
»  2019-01-11  »  Anabela Santos O desassossego
»  2019-01-11  »  Carlos Tomé Como a dor desfolha o peito