• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Segunda, 18 de Junho de 2018
Pesquisar...
Qui.
 31° / 19°
Períodos nublados com aguaceiros e trovoadas
Qua.
 34° / 20°
Períodos nublados
Ter.
 34° / 19°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  37° / 18°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Torres Novas está lá dentro

Opinião  »  2018-06-06  »  Carlos Tomé

"Torres Novas ainda lhe há-de pedir batatinhas. João Espanhol é muito maior do que as grandes superfícies comerciais"

Casa Espanhol, uma das três lojas mais antigas de Torres Novas, fechou as suas portas no passado dia 30 de Maio. Torres Novas nunca mais será a mesma terra. Com este encerramento encerra-se uma determinada forma de estar na vida, a generosidade e a inteligência de conseguir estar quase 80 anos à frente de um estabelecimento comercial que marcou indelevelmente a vida da cidade.

Amolava facas e tesouras, consertava chapéus-de-chuva, reparava tesouras de poda e de tosquia, mas o João Espanhol sempre foi muito mais do que um amola tesouras. Não usava gaita-de-beiços nem andava pelas ruas de casa em casa ao final da tarde a alertar as necessidades, a cavalo numa bicicleta.

A sua vida de artífice e de cidadão empenhado na participação da vida colectiva da sua terra, interveniente activo no que de mais importante ela tem de geração de amizades, de riqueza de acções e de criação de arte, sempre ultrapassou a de um simples comerciante, sempre saltou aquela imagem feita e estática do homem que estava atrás de um balcão e arranjava fechaduras e chaves e tesouras e desvendava os segredos dos cofres da vida.

O João Espanhol conseguiu moldar a sua cidade à imagem e semelhança da sua casa, fê-la ajoelhar perante si, embevecida pela sua postura simples e pelas suas atitudes genuínas e exemplos claros que lhe transmitia diariamente. Com a sua personalidade solidária, amigo de todos, não olhando a cores partidárias, o João Espanhol e a Casa Espanhol confundiam-se, eram uma só pessoa. Foi essa postura íntegra e popular que conquistou a sua cidade e a vergou aos seus pés.
Torres Novas ainda lhe há-de pedir batatinhas. João Espanhol é muito maior do que as grandes superfícies comerciais que enxameiam todos os cantos da cidade, mais importante que as ruínas que transformam em pó o casco da urbe e reduzem-na a um simulacro de vida, tudo perante a passividade e o assobio para o lado da autarquia que olha para o 30 de Maio com a complacência dos justos, fechando os olhos, escondendo a cabeça na areia e ignorando as suas responsabilidades nesta história toda. João Espanhol tem em si a verticalidade e coerência do hino nacional, da Grândola e do Avante entoados pelo seu vozeirão pondo todos em sentido e a todos tocando e fazendo soar coros espontâneos e improvisados de braço no ar.

Lá dentro está a casa cheia de memórias, referências, opções, pedaços de vida, fotografias da sua veia artística, cumplicidades várias, cânticos, músicas, vivas, punhos no ar. Lá dentro estão as máquinas, as ferramentas, centenas de artefactos usados milhares e milhares de vezes em milhares de gestos repetidos até ao infinito. Artífice da amizade. Lá dentro estão as memórias políticas de um tempo em que as opções eram assumidas de corpo inteiro, custosas, implicando a vida inteira, limitando movimentos mas criando liberdade. O João Espanhol sempre foi razoável, sempre entendeu todas as opções, sempre colocou a amizade num pedestal e as coisas sem importância no caixote do lixo.

É lá dentro que está a vida. Lá dentro também está a vida de Tores Novas. Por isso a Casa Espanhol não pode fechar definitivamente, porque fechando acaba-se com a vida de todos. A memória só pode reviver se alguém a preservar. A memória desta terra está lá dentro. E seremos todos responsáveis se a vida que lá está dentro não for defendida. Se Torres Novas, ela própria, não quiser fechar tem de pedir batatinhas ao João Espanhol e voltar a dar vida à Casa Espanhol.

 

 

 Outras notícias - Opinião


O governo e os professores »  2018-06-07  »  Jorge Carreira Maia

O que terá levado o ministro da Educação a afirmar que, perante a posição dos sindicatos, o governo, que tinha prometido recuperar quase três anos do tempo em que as carreiras dos professores estiveram congeladas, não contará qualquer tempo para a progressão docente? O ministro pode achar que é uma estratégia brilhante para enfrentar os sindicatos, mas não percebeu como ela é humilhante para os professores, que se sentem tratados como crianças que são castigadas por um ministro a quem, na verdade, não reconhecem qualquer autoridade política ou educativa.
(ler mais...)


As Claques »  2018-06-06  »  José Ricardo Costa

Há quatro anos, naquela derradeira fase em que cada jogo é uma final, fui a Aveiro ver o Benfica-Arouca. Indo inocentemente para trás de uma baliza acabei engolido por uma ubérrima claque encarnada transformada num grupo de ménades em pleno desvario, que, apesar do meu cachecol também encarnado, fizeram-me sentir tão em casa como a atravessar o cruzamento de Shibuya em hora de ponta.
(ler mais...)


Empurrar com a barriga »  2018-06-06  »  António Gomes

O edifício dos “Lourenços”, ocupado há 14 anos pela câmara, vai ser adquirido pelo município (390 mil euros). A ocupação do edificio foi acordada por um período de 18 meses, em 2004, sem hipóteses de renovação.
(ler mais...)


A medicina na idade antiga e as plantas medicinais »  2018-06-06  »  Juvenal Silva

A medicina sempre foi considerada uma arte sagrada e era ensinada nos templos. O diagnóstico da doença estava associado ao pecado, e o paciente era isolado para evitar a contaminação a outras pessoas, tanto físicas como espirituais e psicológicas.
(ler mais...)


Espanhol »  2018-06-06  »  Inês Vidal

A minha filha pedia-me hoje que a ajudasse a escolher um local e uma figura da nossa terra. Procurava uma resposta para um trabalho de estudo do meio. Lembrei-me do castelo, por conhecer o seu gosto pela história dos reis e rainhas de Portugal, mas quanto às figuras, andámos por ali as duas a deambular entre várias hipóteses, mas nenhum que nos arrebatasse de uma só vez.
(ler mais...)


A eutanásia, dois problemas »  2018-05-30  »  Jorge Carreira Maia

Ontem foram discutidos na Assembleia da República quatro projectos de lei que visavam legalizar a eutanásia. Todos os projectos foram chumbados. Contudo, segundo alguns deputados, o problema voltará ao parlamento na próxima legislatura.
(ler mais...)


Maio de 68 e democracia »  2018-05-18  »  Jorge Carreira Maia

Passam este mês 50 anos dos acontecimentos que ficaram conhecidos por Maio de 68, um conjunto de revoltas estudantis que se prolongaram numa onda grevista, sem precedentes, dos operários franceses. Por norma, salienta-se a natureza excepcional desses acontecimentos, onde se aliaram reivindicações libertárias dos estudantes, na área dos comportamentos sociais e sexuais, com as exigências sindicais bem mais prosaicas por parte significativa da mão-de-obra francesa.
(ler mais...)


Uma questão de memória? »  2018-05-17  »  Eduarda Gameiro

Sempre fui portadora de uma lacuna de grandes dimensões: a memória. E, quando sou confrontada com uma situação em que esta faculdade tem grande importância, e eu me encontro na sua ausência, há sempre quem me relembre:
- ‘’Andas a comer muito queijo!’’.
(ler mais...)


Bonés há muitos »  2018-05-17  »  José Ricardo Costa

Há um romance chamado A Montanha Mágica cuja acção se passa num sanatório. Numa altura em que o cérebro humano já só está preparado para aguentar livros de “figuras públicas”, auto-ajuda, espiritualidades e receitas de cozinha, ou então estados de alma no Facebook e meia dúzia de palavras chilreadas a conta-gotas, torna-se bizarro haver quem se lembre de escrever romances passados em sanatórios e de ainda precisar de 700 páginas para o fazer.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 10 dias)