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Jornal Torrejano
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Todo bem vestido e sem sítio para ir

Opinião  »  2026-05-18  »  Carlos Paiva

Existirá sempre um leque de temas infelizes, más decisões, incompetências, desleixos, corrupção, para alimentar qualquer cronista em qualquer jornal local. A abundância temática por vezes é tal que se perde o foco no essencial e deriva-se para o acessório. A razão de ser dilui-se na fertilidade da oferta e perde a objectividade do propósito.

O caso torrejano podia ser ilustrativo desta realidade, embora me pareça algo tão transversal que dispense exemplos paradigmáticos.

O que singulariza o caso torrejano, é o facto da fonte temática se reduzir a um único partido político e três pessoas. Para uma janela temporal superior a trinta anos. Como é que um universo tão pequeno (sim, no figurado também) gera tanta matéria prima negativa, durante tanto tempo?

Desde que o homem se junta em grandes grupos, formando comunidades, regista-se invariavelmente uma prioridade. A criação de um espaço de convívio social. Um espaço comunitário, tipicamente central, na orgânica urbanística dessa sociedade. A relevância deste espaço é patente inclusivamente nas sociedades nómadas. O simbolismo da centralidade revela a importância atribuída ao local e ao que lá se passa.

Nas civilizações que serviram de berço à ocidental contemporânea, a nossa, além da centralidade urbana, a monumentalidade da arquitectura e a sofisticação das edificações dedicadas à função de espaço para convívio social, evidenciam a mesma importância, o mesmo valor, a mesma prioridade. A ágora grega, o fórum romano, eram locais destinados a potenciar a manifestação de ideias, a partilha de experiências, o comércio, a discussão política. A interacção humana.

Perfeitamente individualizado, separado do entretenimento, a decorrer noutros espaços, teatro circo, da boémia, nas tabernas e bordéis e da religião, em templos de culto, o convívio social civilizado viajou da palhota central, da tenda nómada, e ficou imortalizado em pedra requintadamente esculpida pelas civilizações que precederam a nossa.

Entrelaçado no entretenimento e no comércio, por influência da espinha dorsal capitalista que tanto nos caracteriza actualmente, o espaço de convívio social vive tempos difíceis. A speaker`s corner perdeu a intelectualidade para a vulgaridade e o fórum passou a ser sinónimo de consumismo. No entanto, as sociedades adaptaram-se e o convívio social civilizado permanece, resiliente, em espaços públicos (onde os há) e em tertúlias privadas.

A linha de coerência evidente na política, de mais de trinta anos e três indivíduos, em Torres Novas, é o estrangulamento sistemático dos espaços de convívio social. Potenciar o entretenimento populista brejeiro e forçar o consumismo de franchise, em simultâneo. Mentirosamente anunciados como cultura e progresso. Decisões políticas anularam o convívio social comunitário, eventualmente produtivo, substituindo-o pela banalidade inconsequente garantida. Uma vez é casuística, duas ou mais, é padrão.

A apatia generalizada, a indiferença instituída, o desleixo vulgarizado, não são consequências do ar que se respira ou da água que se bebe nestas paragens. Muito menos bruxedo. São o preço que se paga pela remoção sistemática do convívio social civilizado da comunidade.

Distraídos pela abundância da oferta negativa, endereçada por automatismo acrítico, condicionado pela visão de túnel, deixa as questões pertinentes e as evidências claras que as sustentam passar incógnitas. Como uma pulga de peruca e óculos escuros na pelagem de um camelo imundo.

 

 

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