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Sinais dos tempos

Opinião  »  2015-12-02  »  João Carlos Lopes

"À velha escola, veja-se o paradoxo, poderão ir agora parar alguns dos que, na sua meninice, ali entraram um dia a ver a vida e o mundo à sua frente."

Há pequenas notícias que, de tão vulgares e aparentemente merecedoras de pouca atenção, escondem brutalmente o sentido das coisas e o rumo deste nosso mundo, confuso e improvável. Na Meia Via, a antiga escola primária vai dar lugar a um lar de idosos, o termo que eufemisticamente inventámos para arrumar as pessoas em estado social terminal. É uma notícia vulgar, igual a centenas que se ouvem por todo o país. O local que outrora se destinava a fazer nascer crianças para o conhecimento e para o saber, e onde alegremente lhes eram abertas as janelas do mundo, servirá agora para concentrar velhos (idosos é uma invenção cheia de complexos de culpa) socialmente afastados das redes sociais que dantes lhes davam amparo, a família e a vizinhança, agora entretidas permanente e febrilmente nas tarefas irrealizáveis e ilusórias de uma vida ditada pelas imposições de uma ideologia dos crescimentos eternos, das competividades, do sagrado consumo, da promessa do paraíso entre promoções semanais e descontos no cartão. À velha escola, veja-se o paradoxo, poderão ir agora parar alguns dos que, na sua meninice, ali entraram um dia a ver a vida e o mundo à sua frente, ávidos da luminosidade que acompanha sempre os horizontes do futuro. Ninguém conseguirá imaginar, sem ser esses velhos outrora crianças, o que sentirão agora, ao verem-se de novo entre aquelas paredes com mais sombras que luz e onde os ponteiros dos relógios avançam num desvario incompreensível. Que pensarão eles deste mundo?

 

 

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