As raízes da guerra e as raízes do ódio: factos & mitos - acácio gouveia
Opinião
» 2022-04-13
» Acácio Gouveia
"“Contrariamente ao que se possa pensar, a ideia duma aliança militar europeia, nasceu na Europa por via do tratado de Dunquerque."
“Não vamos atacar nenhum país. Aliás, não atacámos a Ucrânia”, Sergei Lavrov
Perante o artigo de opinião de José Alves Pereira “As guerras como as árvores, têm raízes”, questiono-me por que razão haverá portugueses a legitimarem a guer ... (quero dizer: a acção militar especial) de Putin, quando tantos russos lhe são adversos. Desde vetustos generais na reserva, até residentes em Portugal que conheço pessoalmente, passando por intelectuais e cientistas, prémio Nobel, jornalistas, artistas, clérigos da Igreja Ortodoxa Russa e gente comum, são muitíssimos e variados os russos que se opõem à citada invas ... (perdão: acção militar especial). Uma análise fria dos argumentos expostos no artigo em causa, contrastada com factos verificáveis, revelará que é completamente infundada a tese do caracter defensivo desta iniciativa bélica.
Mas comecemos pela liberdade de expressão. A prova de que existe espaço para o contraditório em Portugal está, por exemplo, nas intervenções de Alexandre Guerreiro (comentador da TVI) que são, basicamente, traduções livres da narrativa de V. Putin e de S. Lavrov. O consenso vasto de opiniões que a invasão (perdão: a operação militar especial) da Ucrânia mereceu entre os comentadores, não deve ser confundido com ausência de liberdade de pensamento ou servilismo. Liberdade para não concordar o mainstream, não significa obrigação de discordar do mainstream. Aliás, este consenso ficou espelhado na reacção da comunidade internacional, que se demarcou da inusitada guerra (perdão: operação militar especial) iniciada por Putin. Até mesmo os tradicionais aliados da Federação Russa (Cuba, Venezuela, Nicarágua, China, Irão, etc.) se escusaram de votar contra a moção que condenou tão anacrónica iniciativa. Oxalá, na Rússia de Putin, houvesse semelhante abertura e liberdade de expressão! Oxalá! Por lá, contam-se já por milhares os presos por se terem manifestado pacificamente contra a guerra (vocábulo aliás proibido-proibição ridícula, que revela a má consciência do regime); por aquelas bandas, a censura aperta e fecham-se jornais que divergem da “verdade” ditada pelo Kremlin; da pátria russa estão a exilar-se milhares para fugir ao sufoco dum regime totalitário, belicista, obscurantista e incompetente. Oxalá, na Rússia de Putin, fosse possível o contraditório vigente entre nós e, provavelmente, não assistiríamos à tragédia atual, nem os russos teriam de lidar com o pântano em que Putin os está atascando.
Passemos à OTAN/NATO: factos & mitos. Contrariamente ao que se possa pensar, a ideia duma aliança militar europeia, nasceu na Europa (e não nos EUA imperialistas) por via do tratado de Dunquerque, assinado entre a Grã-Bretanha e França, em 1947. Só em 1949, surge a OTAN, integrando mais países e de ambos lados do Atlântico. Entre os países fundadores da OTAN, estava Portugal, então uma ditadura, o que não fazia jus à defesa de valores da liberdade e democracia apregoada pela aliança nascente. (A Grécia, que ingressou em 1951, só descambou para o fascismo em 1967, por via do golpe dos coronéis). Mas se estas ditaduras mancham a imagem da OTAN, o que dizer dos regimes dos países integrantes do pacto de Varsóvia nascido em 1955: URSS, Checoslováquia, Polónia, Hungria, RDA, Bulgária, Albânia e Roménia? Embora regidos por ideologia oposta ao fascismo, exerciam o poder de forma igualmente totalitária: repressão, censura, parcas liberdades, direitos e garantias, ausência de eleições livres (ou então fraudulentas), proscrição do livre pensamento, etc.. Por outro lado, sendo ambas alianças assumidas como defensivas, a verdade é que o Pacto de Varsóvia foi também o guardião da pureza ideológica do socialismo e interveio militarmente, várias vezes, nos países signatários para reprimir revoltas populares: Volksaufstand, (Alemanha de Leste), em 1953, Poznan (Polónia) e Hungria, ambas em 1956; a construção do muro de Berlim em 1961; a ocupação da Checoslováquia em 1968. É a doutrina Brejnev em acção, também apelidada da “soberania limitada”. Isto é, o Pacto de Varsóvia tinha como missão explícita, para lá da defesa face a ameaças externas, ser garante da fidelidade à cartilha ideológica por parte dos seus signatários, mesmo à revelia da independência dos povos. Portanto, as chamadas “democracias populares” não eram nem populares (com a possível exceção da Bulgária) nem democráticas. Com a implosão das União Soviética, os povos da Europa Central puderam decidir do seu futuro e fizeram-no optando pela democracia liberal, com exceção da Bielorrússia, onde vigora um regime sob uma liderança impopular de legitimidade tão duvidosa como a do almirante Américo Thomaz em 1958.
É verdade que a intenção de não alargar as fronteiras da OTAN para leste consta de atas de negociações com a Federação Russa em 1990, mas também é verdade que não foi assinado nenhum tratado formal nesse sentido. Portanto, expansão para leste não foi nenhuma imposição dos EUA, mas sim escolha livre dos respetivos povos. E, a começar pelos países bálticos e Polónia, eles lá sabiam porquê! Sem a protecção da OTAN a sua segurança e independência estariam fortemente ameaçadas por um Putin, que explicitamente os quer incluir na sua zona de influência, independentemente, mesmo recorrendo à força. As raízes da adesão à Europa Ocidental e ao Atlântico têm a ver com o passado traumático de submissão ao poder imperial da Rússia e da URSS (basta evocar Katin* ou o Holodomor**, por exemplo, e foi o medo infundido pela doutrina expansionista e racista de Putin que atraiu a OTAN para as fronteiras da Federação Russa.
Posteriormente, abordarei a questão do alegado nazismo ucraniano (ou russo, porque não?), os acontecimentos da praça Maiden, o “cerco” à Rússia, as operações militares da OTAN (bem como as russas) e, claro, demonstrarei que é fantasiosa qualquer intensão de levar a cabo uma missão militar especial contra a Rússia por parte da OTAN.
(*) Na floresta de Katin, em 1939, foram executados à ordem de Estaline pelo menos 4.400 mil militares e quadros polacos. O reconhecimento da responsabilidade soviética por este massacre foi já reconhecido pelo próprio presidente Putin em 2010.
(**) Campanha de fome orquestrada por Estaline na República Socialista Soviética da Ucrânia, em 1932, e que resultou na morte de pelo menos 3 milhões de ucranianos.
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As raízes da guerra e as raízes do ódio: factos & mitos - acácio gouveia
Opinião
» 2022-04-13
» Acácio Gouveia
“Contrariamente ao que se possa pensar, a ideia duma aliança militar europeia, nasceu na Europa por via do tratado de Dunquerque.
“Não vamos atacar nenhum país. Aliás, não atacámos a Ucrânia”, Sergei Lavrov
Perante o artigo de opinião de José Alves Pereira “As guerras como as árvores, têm raízes”, questiono-me por que razão haverá portugueses a legitimarem a guer ... (quero dizer: a acção militar especial) de Putin, quando tantos russos lhe são adversos. Desde vetustos generais na reserva, até residentes em Portugal que conheço pessoalmente, passando por intelectuais e cientistas, prémio Nobel, jornalistas, artistas, clérigos da Igreja Ortodoxa Russa e gente comum, são muitíssimos e variados os russos que se opõem à citada invas ... (perdão: acção militar especial). Uma análise fria dos argumentos expostos no artigo em causa, contrastada com factos verificáveis, revelará que é completamente infundada a tese do caracter defensivo desta iniciativa bélica.
Mas comecemos pela liberdade de expressão. A prova de que existe espaço para o contraditório em Portugal está, por exemplo, nas intervenções de Alexandre Guerreiro (comentador da TVI) que são, basicamente, traduções livres da narrativa de V. Putin e de S. Lavrov. O consenso vasto de opiniões que a invasão (perdão: a operação militar especial) da Ucrânia mereceu entre os comentadores, não deve ser confundido com ausência de liberdade de pensamento ou servilismo. Liberdade para não concordar o mainstream, não significa obrigação de discordar do mainstream. Aliás, este consenso ficou espelhado na reacção da comunidade internacional, que se demarcou da inusitada guerra (perdão: operação militar especial) iniciada por Putin. Até mesmo os tradicionais aliados da Federação Russa (Cuba, Venezuela, Nicarágua, China, Irão, etc.) se escusaram de votar contra a moção que condenou tão anacrónica iniciativa. Oxalá, na Rússia de Putin, houvesse semelhante abertura e liberdade de expressão! Oxalá! Por lá, contam-se já por milhares os presos por se terem manifestado pacificamente contra a guerra (vocábulo aliás proibido-proibição ridícula, que revela a má consciência do regime); por aquelas bandas, a censura aperta e fecham-se jornais que divergem da “verdade” ditada pelo Kremlin; da pátria russa estão a exilar-se milhares para fugir ao sufoco dum regime totalitário, belicista, obscurantista e incompetente. Oxalá, na Rússia de Putin, fosse possível o contraditório vigente entre nós e, provavelmente, não assistiríamos à tragédia atual, nem os russos teriam de lidar com o pântano em que Putin os está atascando.
Passemos à OTAN/NATO: factos & mitos. Contrariamente ao que se possa pensar, a ideia duma aliança militar europeia, nasceu na Europa (e não nos EUA imperialistas) por via do tratado de Dunquerque, assinado entre a Grã-Bretanha e França, em 1947. Só em 1949, surge a OTAN, integrando mais países e de ambos lados do Atlântico. Entre os países fundadores da OTAN, estava Portugal, então uma ditadura, o que não fazia jus à defesa de valores da liberdade e democracia apregoada pela aliança nascente. (A Grécia, que ingressou em 1951, só descambou para o fascismo em 1967, por via do golpe dos coronéis). Mas se estas ditaduras mancham a imagem da OTAN, o que dizer dos regimes dos países integrantes do pacto de Varsóvia nascido em 1955: URSS, Checoslováquia, Polónia, Hungria, RDA, Bulgária, Albânia e Roménia? Embora regidos por ideologia oposta ao fascismo, exerciam o poder de forma igualmente totalitária: repressão, censura, parcas liberdades, direitos e garantias, ausência de eleições livres (ou então fraudulentas), proscrição do livre pensamento, etc.. Por outro lado, sendo ambas alianças assumidas como defensivas, a verdade é que o Pacto de Varsóvia foi também o guardião da pureza ideológica do socialismo e interveio militarmente, várias vezes, nos países signatários para reprimir revoltas populares: Volksaufstand, (Alemanha de Leste), em 1953, Poznan (Polónia) e Hungria, ambas em 1956; a construção do muro de Berlim em 1961; a ocupação da Checoslováquia em 1968. É a doutrina Brejnev em acção, também apelidada da “soberania limitada”. Isto é, o Pacto de Varsóvia tinha como missão explícita, para lá da defesa face a ameaças externas, ser garante da fidelidade à cartilha ideológica por parte dos seus signatários, mesmo à revelia da independência dos povos. Portanto, as chamadas “democracias populares” não eram nem populares (com a possível exceção da Bulgária) nem democráticas. Com a implosão das União Soviética, os povos da Europa Central puderam decidir do seu futuro e fizeram-no optando pela democracia liberal, com exceção da Bielorrússia, onde vigora um regime sob uma liderança impopular de legitimidade tão duvidosa como a do almirante Américo Thomaz em 1958.
É verdade que a intenção de não alargar as fronteiras da OTAN para leste consta de atas de negociações com a Federação Russa em 1990, mas também é verdade que não foi assinado nenhum tratado formal nesse sentido. Portanto, expansão para leste não foi nenhuma imposição dos EUA, mas sim escolha livre dos respetivos povos. E, a começar pelos países bálticos e Polónia, eles lá sabiam porquê! Sem a protecção da OTAN a sua segurança e independência estariam fortemente ameaçadas por um Putin, que explicitamente os quer incluir na sua zona de influência, independentemente, mesmo recorrendo à força. As raízes da adesão à Europa Ocidental e ao Atlântico têm a ver com o passado traumático de submissão ao poder imperial da Rússia e da URSS (basta evocar Katin* ou o Holodomor**, por exemplo, e foi o medo infundido pela doutrina expansionista e racista de Putin que atraiu a OTAN para as fronteiras da Federação Russa.
Posteriormente, abordarei a questão do alegado nazismo ucraniano (ou russo, porque não?), os acontecimentos da praça Maiden, o “cerco” à Rússia, as operações militares da OTAN (bem como as russas) e, claro, demonstrarei que é fantasiosa qualquer intensão de levar a cabo uma missão militar especial contra a Rússia por parte da OTAN.
(*) Na floresta de Katin, em 1939, foram executados à ordem de Estaline pelo menos 4.400 mil militares e quadros polacos. O reconhecimento da responsabilidade soviética por este massacre foi já reconhecido pelo próprio presidente Putin em 2010.
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