O sentido da vida
Opinião
» 2017-11-29
» Carlos Tomé
"A tal velhinha, de que ninguém sabe sequer o nome, há-de continuar a sua vida."
Há pessoas que vivem toda a vida sem se dar por elas. No fundo parece que não calcam o mesmo chão, que não bebem o seu café na Praça, uma italiana com adoçante faxavor, parece que não andam cá por estas bandas, são como o homem invisível, por vezes só se vê o contorno do casaco, remetendo-se a um silêncio exasperante e a uma invisibilidade que nos alimenta a ilusão de termos alguma importância ao pé deles.
Quando vão ao Mário Alturas pedem sempre meia dose de frango assado que o Carlitos serve com uma rapidez maluca driblando as mesas descansando os penantes em sapatos de pano que o Livramento nunca precisou de usar para fintar os stiques espanhóis em Valladolid. Depois da meia dose, do jarrinho da ordem, do pudim flan e de um ligeiro arroto disfarçado com o guardanapo de papel a esconder a boca, dão por encerrada a actuação jantarística.
Lá em casa é outra vez a solidão que os coloca sozinhos e com cara de caso no meio dos outros e que lhes escava lentamente o interior até ser apenas um contorno, ocos todos eles, as suas vidas desvanecem-se por completo, sem préstimo algum. É o sentido da vida que lhes escapa mais uma vez. É a água que lhes surge diante dos olhos. Coisa obsessiva esta, a água sempre a água a secar-lhes todos os desejos.
Naquela noite a solidão apertou mais do que o costume e o dia amanheceu igual a todos os outros, mas não foi para ela que o dia nasceu. A água estava fria mas não a impediu. Entrou nela como quem se deita num abismo, como quem inicia uma viajem ao desconhecido. Queria só fugir de si, fugir dali, esquecer tudo.
Nas margens do Almonda, ali perto da biblioteca, ventre de tantos pensamentos, quando se preparava para participar numa prova de atletismo, Nádia Carvalho avistou um corpo a boiar e lançou-se ao rio sem grandes pensamentos. Sem hesitações. O gesto salvou a idosa que se havia atirado à água do Almonda precisamente nesse momento.
O mergulho da Nádia, vou ali salvar uma velhinha e venho já – no feliz título do JT -, fica para a posteridade como um genuíno acto de solidariedade numa semana de bestial violência. O gesto de Nádia prova que este sentimento faz parte, lá no fundo, do ser humano e dá um sentido à vida.
A tal velhinha, de que ninguém sabe sequer o nome, há-de continuar a sua vida. Talvez alheia a este tipo de gestos, ou talvez não, se calhar eternamente agradecida. A idosa - quando não se sabe a identidade da pessoa espeta-se-lhe este anátema - viu a sua vida voltar de novo graças à vontade de Nádia, mas não sabemos nada de si, da sua vida, da sua solidão, das razões que a levaram às margens do Almonda ali onde se escondem e frutificam todos os pensamentos. É só uma velhinha que foi salva das águas do Almonda. É pouco, é nada.
Depois do Almonda já não é a água que lhe tinge a vida, nem a solidão que a domina. Agora também Nádia entra nela, diminuindo-lhe a solidão, aumentando-lhe a alma. Não sei se é assim que se cala a solidão, mas afinal parece que o sentido da vida às vezes surge de um simples gesto, alheio a qualquer pensamento, emergindo das águas frias de um rio, muito para lá dos pensamentos dos grandes filósofos ou mesmo dos Monty Python.
© 2026 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
O sentido da vida
Opinião
» 2017-11-29
» Carlos Tomé
A tal velhinha, de que ninguém sabe sequer o nome, há-de continuar a sua vida.
Há pessoas que vivem toda a vida sem se dar por elas. No fundo parece que não calcam o mesmo chão, que não bebem o seu café na Praça, uma italiana com adoçante faxavor, parece que não andam cá por estas bandas, são como o homem invisível, por vezes só se vê o contorno do casaco, remetendo-se a um silêncio exasperante e a uma invisibilidade que nos alimenta a ilusão de termos alguma importância ao pé deles.
Quando vão ao Mário Alturas pedem sempre meia dose de frango assado que o Carlitos serve com uma rapidez maluca driblando as mesas descansando os penantes em sapatos de pano que o Livramento nunca precisou de usar para fintar os stiques espanhóis em Valladolid. Depois da meia dose, do jarrinho da ordem, do pudim flan e de um ligeiro arroto disfarçado com o guardanapo de papel a esconder a boca, dão por encerrada a actuação jantarística.
Lá em casa é outra vez a solidão que os coloca sozinhos e com cara de caso no meio dos outros e que lhes escava lentamente o interior até ser apenas um contorno, ocos todos eles, as suas vidas desvanecem-se por completo, sem préstimo algum. É o sentido da vida que lhes escapa mais uma vez. É a água que lhes surge diante dos olhos. Coisa obsessiva esta, a água sempre a água a secar-lhes todos os desejos.
Naquela noite a solidão apertou mais do que o costume e o dia amanheceu igual a todos os outros, mas não foi para ela que o dia nasceu. A água estava fria mas não a impediu. Entrou nela como quem se deita num abismo, como quem inicia uma viajem ao desconhecido. Queria só fugir de si, fugir dali, esquecer tudo.
Nas margens do Almonda, ali perto da biblioteca, ventre de tantos pensamentos, quando se preparava para participar numa prova de atletismo, Nádia Carvalho avistou um corpo a boiar e lançou-se ao rio sem grandes pensamentos. Sem hesitações. O gesto salvou a idosa que se havia atirado à água do Almonda precisamente nesse momento.
O mergulho da Nádia, vou ali salvar uma velhinha e venho já – no feliz título do JT -, fica para a posteridade como um genuíno acto de solidariedade numa semana de bestial violência. O gesto de Nádia prova que este sentimento faz parte, lá no fundo, do ser humano e dá um sentido à vida.
A tal velhinha, de que ninguém sabe sequer o nome, há-de continuar a sua vida. Talvez alheia a este tipo de gestos, ou talvez não, se calhar eternamente agradecida. A idosa - quando não se sabe a identidade da pessoa espeta-se-lhe este anátema - viu a sua vida voltar de novo graças à vontade de Nádia, mas não sabemos nada de si, da sua vida, da sua solidão, das razões que a levaram às margens do Almonda ali onde se escondem e frutificam todos os pensamentos. É só uma velhinha que foi salva das águas do Almonda. É pouco, é nada.
Depois do Almonda já não é a água que lhe tinge a vida, nem a solidão que a domina. Agora também Nádia entra nela, diminuindo-lhe a solidão, aumentando-lhe a alma. Não sei se é assim que se cala a solidão, mas afinal parece que o sentido da vida às vezes surge de um simples gesto, alheio a qualquer pensamento, emergindo das águas frias de um rio, muito para lá dos pensamentos dos grandes filósofos ou mesmo dos Monty Python.
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. |
Minudências que consomem - carlos paiva
» 2026-06-07
» Carlos Paiva
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. |
O precipício ao virar da esquina - antónio mário
» 2026-06-07
» António Mário Santos
Algo vem ganhando força e expressão, nos últimos tempos, a nível nacional: a consciência da ingovernabilidade do sistema político. O aumento do descontentamento popular, ante a realidade sociopolítica da degradação da qualidade de vida no mundo do capitalismo neoliberal, alimentou o crescimento da extrema-direita. |
A verdade dos números - antónio gomes
» 2026-06-07
» António Gomes
Realizou-se recentemente um debate sobre segurança e criminalidade em Torres Novas, promovido pela respectiva Assembleia Municipal e que contou com um conjunto de entidades oficiais – Secretária Geral do Sistema de Segurança Interna, comandante do Destacamento territorial da GNR, subcomissário da esquadra da PSP de Torres Novas, do coordenador da protecção Civil concelhia e ainda da procuradora da República e coordenadora da Comarca de Santarém. |
Labregos & rufiões - acácio gouveia
» 2026-06-07
» Acácio Gouveia
(...) e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os chifres dez diademas, e sobre as cabeças um nome de blasfémia” - Apocalipse S. João 13.1 Parece mesmo um argumento de filme apocalíptico, saído dos estúdios de Holywood, candidato a um sucesso de bilheteira. |
O rio que maltratamos mata-nos a sede
» 2026-05-18
» António Mário Santos
Em 20 de Março último publiquei, neste periódico, um artigo intitulado «Falemos de Cultura e do que o Município pode criar». Apontava, entre outros aspectos, um dos erros que, na minha opinião, menorizava a dimensão da actividade, neste sector específico do município: a sua municipalização, assente na pura opção dos seus técnicos, sem atenção ao que, na comunidade, se ia construindo. |
Da importância da redenção
» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Descansemos do triste estado do mundo e falemos de outra coisa. Façamos mesmo como os jogadores de Xadrez do poema de Ricardo Reis: Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia /Tinha não sei qual guerra, / Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo contínuo. |
Obras públicas concelhias
» 2026-05-18
» António Gomes
Deviam ser levadas a sério, com rigor e transparência. Mas não, em Torres Novas parece que é tudo ao contrário. Muitos se lembrarão ainda do que foi o calvário para concluir o edifício do antigo hospital, hoje Paços do Concelho, e mais recentemente o “bairro dos pobres”, bairro na Calçada António Nunes, entre outros… fez-se este caminho e parece que vai continuar. |
Todo bem vestido e sem sítio para ir
» 2026-05-18
» Carlos Paiva
Existirá sempre um leque de temas infelizes, más decisões, incompetências, desleixos, corrupção, para alimentar qualquer cronista em qualquer jornal local. A abundância temática por vezes é tal que se perde o foco no essencial e deriva-se para o acessório. |
A aposta na mobilidade não pode parar
» 2026-05-04
» António Gomes
Comemorámos o 25 de Abril e foi uma grande comemoração. Fiquei um pouco mais descansado quanto ao futuro da nossa Liberdade, a rua em 1974 foi o que decidiu o desfecho daquela data e agora, no 52.º aniversário, a rua voltou a não deixar dúvidas absolutamente nenhumas, tantas foram as pessoas por esse País fora que quiseram dizer presente para assegurar a Democracia e a Liberdade. |
|
» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Da importância da redenção |
|
» 2026-05-18
» Carlos Paiva
Todo bem vestido e sem sítio para ir |
|
» 2026-05-18
» António Gomes
Obras públicas concelhias |
|
» 2026-05-18
» António Mário Santos
O rio que maltratamos mata-nos a sede |
|
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia |