• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Terça, 23 de Outubro de 2018
Pesquisar...
Sex.
 23° / 12°
Períodos nublados
Qui.
 26° / 12°
Períodos nublados
Qua.
 26° / 14°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  25° / 15°
Períodos nublados com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

O sentido da vida

Opinião  »  2017-11-29  »  Carlos Tomé

"A tal velhinha, de que ninguém sabe sequer o nome, há-de continuar a sua vida."

Há pessoas que vivem toda a vida sem se dar por elas. No fundo parece que não calcam o mesmo chão, que não bebem o seu café na Praça, uma italiana com adoçante faxavor, parece que não andam cá por estas bandas, são como o homem invisível, por vezes só se vê o contorno do casaco, remetendo-se a um silêncio exasperante e a uma invisibilidade que nos alimenta a ilusão de termos alguma importância ao pé deles.

Quando vão ao Mário Alturas pedem sempre meia dose de frango assado que o Carlitos serve com uma rapidez maluca driblando as mesas descansando os penantes em sapatos de pano que o Livramento nunca precisou de usar para fintar os stiques espanhóis em Valladolid. Depois da meia dose, do jarrinho da ordem, do pudim flan e de um ligeiro arroto disfarçado com o guardanapo de papel a esconder a boca, dão por encerrada a actuação jantarística.

Lá em casa é outra vez a solidão que os coloca sozinhos e com cara de caso no meio dos outros e que lhes escava lentamente o interior até ser apenas um contorno, ocos todos eles, as suas vidas desvanecem-se por completo, sem préstimo algum. É o sentido da vida que lhes escapa mais uma vez. É a água que lhes surge diante dos olhos. Coisa obsessiva esta, a água sempre a água a secar-lhes todos os desejos.

Naquela noite a solidão apertou mais do que o costume e o dia amanheceu igual a todos os outros, mas não foi para ela que o dia nasceu. A água estava fria mas não a impediu. Entrou nela como quem se deita num abismo, como quem inicia uma viajem ao desconhecido. Queria só fugir de si, fugir dali, esquecer tudo.

Nas margens do Almonda, ali perto da biblioteca, ventre de tantos pensamentos, quando se preparava para participar numa prova de atletismo, Nádia Carvalho avistou um corpo a boiar e lançou-se ao rio sem grandes pensamentos. Sem hesitações. O gesto salvou a idosa que se havia atirado à água do Almonda precisamente nesse momento.

O mergulho da Nádia, vou ali salvar uma velhinha e venho já – no feliz título do JT -, fica para a posteridade como um genuíno acto de solidariedade numa semana de bestial violência. O gesto de Nádia prova que este sentimento faz parte, lá no fundo, do ser humano e dá um sentido à vida.

A tal velhinha, de que ninguém sabe sequer o nome, há-de continuar a sua vida. Talvez alheia a este tipo de gestos, ou talvez não, se calhar eternamente agradecida. A idosa - quando não se sabe a identidade da pessoa espeta-se-lhe este anátema - viu a sua vida voltar de novo graças à vontade de Nádia, mas não sabemos nada de si, da sua vida, da sua solidão, das razões que a levaram às margens do Almonda ali onde se escondem e frutificam todos os pensamentos. É só uma velhinha que foi salva das águas do Almonda. É pouco, é nada.

Depois do Almonda já não é a água que lhe tinge a vida, nem a solidão que a domina. Agora também Nádia entra nela, diminuindo-lhe a solidão, aumentando-lhe a alma. Não sei se é assim que se cala a solidão, mas afinal parece que o sentido da vida às vezes surge de um simples gesto, alheio a qualquer pensamento, emergindo das águas frias de um rio, muito para lá dos pensamentos dos grandes filósofos ou mesmo dos Monty Python.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Casimiro Pereira… dedicação e simplicidade »  2018-10-12  »  Anabela Santos

Pego na caneta, no papel, sento-me na mesa do café e questiono-me: como me atrevo a escrever sobre este senhor? – Não sei, corro o risco, simplesmente.

Era uma miúda, criança mesmo, quando Casimiro Pereira começou a sua vida autárquica em Torres Novas.
(ler mais...)


Como prevenir e tratar infeções urinárias »  2018-10-12  »  Juvenal Silva

Como prevenir e tratar infeções urinárias

As infeções urinárias são muito incómodas e mais recorrentes nas mulheres, que as obrigam a consultas médicas algumas vezes ao ano. Normalmente, o tratamento consiste na toma de antibióticos, que matam a infeção presente, mas deixam a bexiga vulnerável a uma próxima invasão bacteriana.
(ler mais...)


Venha daí um refrigerante fresquinho! »  2018-10-12  »  Miguel Sentieiro

Sumol é um dos actuais alvos da implacável máquina fiscal. Essa refrescante bebida de laranja, com bolhinhas, que nos alivia o calor no pingo do verão, afinal é um vilão cheio de sacarose para nos envenenar.
(ler mais...)


Passa »  2018-10-12  »  Inês Vidal

A Golegã auto intitula-se capital do cavalo. Veiga Maltez gostava de cavalos, havia cavalos na vila, sacou daquela da cartola e um dia disse: “cavalos são na Golegã”. A ideia pegou, vendeu e hoje já não é só o presidente que lhe chama assim.
(ler mais...)


The Times They Are A-Changin` »  2018-10-12  »  Jorge Carreira Maia

Ouvida nos dias que correm, a canção de Bob Dylan não deixa de parecer uma singular ironia, uma ironia que atinge o cerne das crenças que estão no coração das gerações que fizeram da balada dylaniana um símbolo do caminho para o paraíso.
(ler mais...)


O papel dos cidadãos »  2018-09-27  »  Jorge Carreira Maia

No início do ano lectivo, costumo explicar aos meus alunos de Ciência Política que a política é o lugar do mal. No seguimento da lição de Thomas Hobbes, tento mostrar-lhes que a política existe porque nós não somos moralmente irrepreensíveis e, movidos por interesses egoístas, fazemos mal uns aos outros.
(ler mais...)


Suave cumplicidade »  2018-09-26  »  Carlos Tomé

Aqui há um ano, prometeram que o homem ia voltar e ele voltou mesmo. Nessa altura o homem era o José Afonso, e a sua música ecoou tão simples e tão pura no auditório do Hotel dos Cavaleiros que os LaFontinha conseguiram o milagre de ressuscitar o genial autor de geniais canções, que agora querem tratar como um vulgar herói nacional grato ao poder, e cuja gratidão o poder reconhece com o panteão, retirando-o da terra e do povo que ele sempre adorou.
(ler mais...)


Podemos ou não prevenir as doenças oncológicas »  2018-09-26  »  Juvenal Silva

Como ocorre em muitas outras doenças crónicas e mortais, e apesar de décadas de investigações e milhões de dólares investidos, a ciência ainda não consegue definir a causa do crescimento descontrolado das células tumorais.
(ler mais...)


Orçamento Participativo, alguém se lembra dele?.. »  2018-09-26  »  Nuno Curado

Vamos ter mais um ano sem um Orçamento Participativo (OP) aqui em Torres Novas. Lembrei-me disso ao ver a notícia dos recentes vencedores do OP em Abrantes. O ano passado, o OP não avançou no nosso concelho com o argumento de ser ano de eleições.
(ler mais...)


As caixas de correio e a liderança »  2018-09-26  »  António Gomes


A imagem que acompanha esta crónica pode ser o espelho da degradação do centro e da cidade de Torres Novas. Chegámos aqui por responsabilidade do PS: abandono, desleixo, insegurança.

A fotografia foi tirada há três anos, mas já tudo estava assim antes.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 10 dias)