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O MERCADO DA INDIFERENÇA

Opinião  »  2026-04-28 

Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, decidiu isentar a organização do Rock in Rio do pagamento de 3 milhões de euros de taxas municipais devidas pela realização daquele mega-evento. Isto é, o autarca prefere abdicar de 3 milhões de euros em favor de uma grande multinacional do entretenimento, que lucra centenas de milhões de lucro nas suas iniciativas planetárias, a alocar esses 3 milhões, que cobraria, para as necessidades da educação, da acção social ou do desporto da população da capital.

O tema é que este modus operandi, a escalas mais pequenas, transformou-se no “modo de ser” do poder autárquico em geral. Só nos anos mais recentes, a Câmara de Torres Novas isentou grandes empresas do pagamento  de centenas de milhares de euros de taxas urbanísticas, em virtude do “interesse municipal” da sua actividade. Mais recentemente, isentou uma empresa de taxas urbanísticas que deveria pagar para a legalização de instalações construídas, repare-se. Também por causa do “interesse municipal” da referida empresa e chegados aqui, perguntamos então que actividade, empresa, iniciativa, está fora da esfera do “interesse municipal”.

Na sua própria casa, a Câmara é desleixada, incompetente e desinteressada de tudo o que não se inscreva no foguetório e no show-off, e isto é um padrão que tende a generalizar-se às autarquias de todo o país, que perderam o seu foco e o sentido das suas atribuições básicas e prioritárias, que é tratar da boa conservação dos equipamentos e espaços públicos, aquelas coisas para que é preciso ter uma atenção constante e persistente.

O que se passa com a novela do elevador do mercado municipal é um exemplo paradigmático desta maneira de tratar aquilo que não tem saída na foto das redes sociais, novo altar-ego e alter-ego do autarca português.

Há meses que os problemas com o elevador do mercado municipal de Torres Novas se arrastam, com o triste espectáculo de os vendedores terem de trazer e voltar arrumar, pelo exterior, o conteúdo das suas bancas devido às constantes e persistentes avarias do elevador interno, isto às cinco da madrugada, acordando e aborrecendo a vizinhança próxima.

No passado sábado houve mais uma queixa à polícia e a correspondente reclamação pelo lavarinto a horas impróprias, mas é como nada se passasse. Os vendedores do mercado, esses sim a desempenharem uma função de verdadeiro interesse municipal, são tratados como gente menor e o próprio mercado, praticamente o que resta das antigas “centralidades” da cidade, caminha assim para a sua extinção, com a contribuição decisiva da própria autarquia.

O que devia ser tratado nas palminhas das mãos, é visto como coisa dispensável que não merece a pressa e a urgência com que se trata e resolve, na hora, tudo o que tem que ver com o espectáculo e o populismo gourmet.

Quando o mercado acabar, se o mercado acabar e não for fortemente apoiado e visto como aquilo que representa não apenas em termos económicos, mas no enquadramento social e do que representa, ver-se-á Torres Novas reduzida ao seu silêncio de povoação sem uma réstia de vida própria, sem uma única razão para que as pessoas aqui acorram.

J.C.L.

 

 

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