Terramotos, tsunamis e incêndios - jorge carreira maia
Opinião
» 2025-10-02
» Jorge Carreira Maia
Corre como se fosse uma maldição chinesa, mas é duvidosa a origem. Diz o seguinte: “Que vivas tempos interessantes!”. Ora, não apenas os tempos são interessantes, como muitos de nós os vivem como uma maldição. De onde vem o interesse e de onde chega a maldição? Os tempos são interessantes porque toda uma configuração de valores e modos de viver está a cair, como se um grande terramoto a arrastasse para terra, transformando-a em pó. E a maldição? Como em muitos terramotos, o problema não é apenas o desabar das construções feitas pelo homem sob o impacto das ondas sísmicas, mas também o que vem depois, o tsunami e os incêndios, tal como aconteceu em Lisboa. E aquilo que estamos a assistir, ao nível dos valores e dos modos de viver, é, ao mesmo tampo, um maremoto e um sem número de incêndios.
O que aconteceu? Três grandes terramotos. Em primeiro lugar, as revoltas estudantis na Europa e nos Estados Unidos, simbolizadas no Maio de 68. Puseram em causa a ordem moral existente e representaram uma libertação dos indivíduos da tradição que os constrangia. Afirmação de um forte individualismo em matéria de costumes. Um segundo momento, é a vitória política do neoliberalismo, nos anos 80, com Margareth Tatcher e Ronald Reagan. Vitória de um individualismo económico que destruiu o consenso social do pós-guerra e arrastou as classes médias para a estagnação, se não para a pobreza. Por fim, mas como complemento da vitória do neoliberalismo, a Queda do Muro de Berlim e a morte política do comunismo, cuja ameaça, no âmbito da Guerra-Fria, levava os políticos ocidentais a cuidarem das suas populações.
Os últimos quarenta anos representam o tsunami e os incêndios, isto é, o processo de decomposição, tanto moral, como económico e político, dos valores herdados no Ocidente pela vitória aliada sobre o nazismo e o combate, posterior, ao comunismo. Aquilo que se está a assistir – e a ser vivido por muitos como uma maldição – é, por um lado, a emergência de valores, em nome das virtudes do conservadorismo e da tradição, que põem em causa as liberdades individuais. Por outro, uma paradoxal forma de comunitarismo que, ao mesmo tempo, prega os valores políticos da superioridade da comunidade e das suas tradições míticas sobre o indivíduo, enquanto fomenta o individualismo económico e intensifica as desigualdades sociais. Não sabemos se haverá para o mundo ocidental, algum Marquês de Pombal que reconstrua um novo mundo, mais amplo e luminoso. Nós somos aqueles que sofreram os terramotos e vivem ainda dentro ou do tsunami ou dos incêndios. Vivemos a maldição e somos cegos para o futuro.
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Terramotos, tsunamis e incêndios - jorge carreira maia
Opinião
» 2025-10-02
» Jorge Carreira Maia
Corre como se fosse uma maldição chinesa, mas é duvidosa a origem. Diz o seguinte: “Que vivas tempos interessantes!”. Ora, não apenas os tempos são interessantes, como muitos de nós os vivem como uma maldição. De onde vem o interesse e de onde chega a maldição? Os tempos são interessantes porque toda uma configuração de valores e modos de viver está a cair, como se um grande terramoto a arrastasse para terra, transformando-a em pó. E a maldição? Como em muitos terramotos, o problema não é apenas o desabar das construções feitas pelo homem sob o impacto das ondas sísmicas, mas também o que vem depois, o tsunami e os incêndios, tal como aconteceu em Lisboa. E aquilo que estamos a assistir, ao nível dos valores e dos modos de viver, é, ao mesmo tampo, um maremoto e um sem número de incêndios.
O que aconteceu? Três grandes terramotos. Em primeiro lugar, as revoltas estudantis na Europa e nos Estados Unidos, simbolizadas no Maio de 68. Puseram em causa a ordem moral existente e representaram uma libertação dos indivíduos da tradição que os constrangia. Afirmação de um forte individualismo em matéria de costumes. Um segundo momento, é a vitória política do neoliberalismo, nos anos 80, com Margareth Tatcher e Ronald Reagan. Vitória de um individualismo económico que destruiu o consenso social do pós-guerra e arrastou as classes médias para a estagnação, se não para a pobreza. Por fim, mas como complemento da vitória do neoliberalismo, a Queda do Muro de Berlim e a morte política do comunismo, cuja ameaça, no âmbito da Guerra-Fria, levava os políticos ocidentais a cuidarem das suas populações.
Os últimos quarenta anos representam o tsunami e os incêndios, isto é, o processo de decomposição, tanto moral, como económico e político, dos valores herdados no Ocidente pela vitória aliada sobre o nazismo e o combate, posterior, ao comunismo. Aquilo que se está a assistir – e a ser vivido por muitos como uma maldição – é, por um lado, a emergência de valores, em nome das virtudes do conservadorismo e da tradição, que põem em causa as liberdades individuais. Por outro, uma paradoxal forma de comunitarismo que, ao mesmo tempo, prega os valores políticos da superioridade da comunidade e das suas tradições míticas sobre o indivíduo, enquanto fomenta o individualismo económico e intensifica as desigualdades sociais. Não sabemos se haverá para o mundo ocidental, algum Marquês de Pombal que reconstrua um novo mundo, mais amplo e luminoso. Nós somos aqueles que sofreram os terramotos e vivem ainda dentro ou do tsunami ou dos incêndios. Vivemos a maldição e somos cegos para o futuro.
Alívio, decadência e sensatez
» 2026-04-18
» Jorge Carreira Maia
Um suspiro de alívio. Há muito que a União Europeia não recebia uma boa notícia. Teve-a no domingo com a derrota, nas eleições húngaras, de Viktor Orbán. Mais do que a vitória de Péter Magyar, o importante foi a derrota de um claro opositor ao projecto europeu, amigo de dois grande inimigos da União Europeia, Putin e Trump. |
Miau
» 2026-04-18
» Carlos Paiva
Se eu tiver 20 ovelhas e o meu vizinho nenhuma, em média, cada um de nós tem 10 ovelhas. Sem análise crítica, a estatística pode espelhar tudo e qualquer coisa, menos a realidade. Mas são necessários números para iniciar todo o processo. |
Celebremos o 25 de Abril, lutemos pela dignidade no trabalho
» 2026-04-18
» António Gomes
Poucos são os que entendem e menos ainda os que concordam com as alterações à legislação do trabalho que o governo do Montenegro quer impor a toda a força. Ninguém pediu, ninguém reivindicou alterações legislativas para as relações do trabalho, nem sequer as confederações patronais, a coligação que apoia o governo não apresentou essas ideias em campanha eleitoral, não foram por isso sufragadas, não têm legitimidade. |
Bloqueio infinito...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
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Este gajo é maluco...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
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O castelo fácil
» 2026-04-05
» Carlos Paiva
Uma estratégia comercial converteu-se em moda social. Não é propriamente inédito, diversas tentativas de estimular o consumo fizeram-no inúmeras vezes. Refiro-me especificamente à "experiência". Produtizou-se a "experiência" com o intuito de revitalizar turismo, restauração, hotelaria, entretenimento e cultura. |
Até quando, passado, abusarás da nossa paciência?
» 2026-04-05
» António Mário Santos
Numa ida ao museu municipal Carlos Reis, no último sábado, a fim de participar numa acção cultural com a pintora torrejana Conceição Lopes, ouvi, dum interlocutor, ao defender a construção do museu de arqueologia industrial, que «quem não está atento e não respeita o seu passado, não está a contribuir para a construção do futuro». |
Constituição, Saramago e Crueldade
» 2026-04-03
» Jorge Carreira Maia
Constituição. A Constituição portuguesa faz cinquenta anos. Tem marcas da época, isto é, do processo de ruptura com o regime autoritário do Estado Novo e da intensa luta política que se seguiu. |
Escolas e influenciadores
» 2026-03-22
» Jorge Carreira Maia
Provocou alarido a investigação do Público sobre a presença, em espaço escolar, de influenciadores tidos como pouco recomendáveis. Foram detectados 80 casos. Discutiu-se o papel dos directores, mas também do Ministério da Educação, no controlo das entradas nas escolas. |
Painéis fotovoltaicos ou a identidade patrimonial de uma cidade
» 2026-03-22
» António Gomes
Provavelmente já vamos tarde, tal é o número de atentados ao património, à paisagem urbana e arquitetónica do centro histórico de Torres Novas. Quase tudo começou com o desleixo e o abandono de centenas de imóveis que hoje ou são ruínas em perigo para quem passa ou em alguns casos são espaços vazios emparedados fruto da intervenção forçada do município. |
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» 2026-04-14
» Hélder Dias
Este gajo é maluco... |
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» 2026-04-14
» Hélder Dias
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» 2026-03-22
» António Gomes
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» 2026-04-05
» António Mário Santos
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» 2026-03-22
» António Mário Santos
Falemos de cultura e do que o município pode criar |