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É tempo de mudança

Opinião  »  2026-07-07  »  António Mário Santos

Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas.

Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público.

O actual presidente da Câmara herdou um sem número de casos bicudos, ainda por cima provenientes do seu próprio partido, com mais de trinta anos de gestão municipal, parte significativa com maioria absoluta, e no qual foi, em vários mandatos, presidente da Assembleia Municipal.

Herdou também uma onda de mal-estar populacional em relação à gestão camarária, que custou ao Partido Socialista uma profunda quebra eleitoral, a diminuição de vereadores e presidentes de junta, e na autarquia, a problemática duma gestão sem maioria.

Herança complicada, proveniente do seu próprio partido.

Cheia de promessas, assente num ciclo vicioso de subsídios para amodorrar o desencanto das obras que passavam de orçamento para orçamento, sem concretização. Com o aumento dos impostos directos e indirectos, e as verbas dos fundos comunitários, as autarquias passaram a gerir quantias, para que as suas capacidades dos quadros do pessoal não estavam, na maioria, preparadas.

Torres Novas ressentiu-se disso.

A secção de urbanismo, muito sensível, foi um dos exemplos do que é passar dos oito aos oitenta, com a mentalidade dum passado em que a descoordenação e o deixa andar se conciliavam com o favor e o interesse pessoal. De tal modo, que o actual presidente, enfrentando um pedido de auditoria aos serviços, de imediato assumiu mudanças nas chefias do quadro de pessoal, sendo o mais conhecido o da secção de urbanismo citada.

Mas não é a única. Relembro, como metáfora, uma antiga série inglesa da gestão do poder político, que revela que o que parece ser nunca realmente o é, com o título português de “Sim, Senhor Ministro”. Atrás de cada decisão política, há um burborinho de interesses sempre em movimento, que são geridos pela máquina da burocracia, e que, na maioria das vezes, escapa a quem assume a responsabilidade.

Por outro lado, o mundo acelerou.

O tempo tem outras formas de contagem, as redes sociais agudizaram as relações humanas, dividiram e hostilizaram cada vez mais as comunidades, subordinadas ao interesse, ao ter, ao conseguir, ao individualismo, à subordinação física e mental do cidadão à sociedade de consumo. A velocidade da ambição traduz-se pelo algoritmo da inteligência artificial. Ontem já era tarde para a concretização do que se ambiciona.

A democracia periga, ante o agravamento da desigualdade económica e social. O envelhecimento populacional, a ausência de soluções para a juventude, a mudança operada pela necessária emigração, a crise climática e ambiental que se agudiza a cada ano que passa, o cada vez mais gritante divórcio entre distribuição da riqueza e trabalho, a ameaça do aumento custo de vida como elemento dramático de incerteza quotidiana, as imagens dum mundo dilacerado por contínua violência, são o ponto de interrogação duma humanidade ante uma realidade cada vez mais indefinida.

A gestão pública, ante a ameaça da mudança, começou, por sua vez, a gerir a sua imagem também pelas redes sociais, manipulando-as. Por outro lado, experiente da emotividade populista, lançou mão das festas populares, de que nunca se conheceram ao certo as despesas e as receitas, e parte substancial envolvia o trabalho dos funcionários camarários, não contabilizado.

Houve, da parte do actual presidente, registe-se, a noção do supérfluo e do gasto, assumindo-se para o ano em curso apenas uma festa popular, a da cidade. E em entrevista recente, citou várias obras que deseja concluir.

Importa, nesta, como nas que, pelas diversas freguesias da cidade e concelho, se encontram a fingir que andam, assumir posições definidas: não cumprem, multam-se. Continuam sem cumprir, aplique-se a lei. Mas é necessário, também, uma autocrítica municipal: responsabilizar quem aprovou os anteriores concursos, com as falhas, quase sempre habituais, que geram alterações ao projectos, adiamentos sucessivos, sem que ninguém, gestão política do urbanismo municipal ou vencedores do concurso, sejam responsabilizados.

A publicidade municipal, que custou dinheiro aos munícipes, serviu para muita imagem e conversa fiada. Deve, se se deseja eficaz, ser repensada, não para elogio do político, mas para informação honesta do munícipe.

É tempo de mudança. E de seriedade de processos. Vivem-se tempos muito complexos. Não basta prometer. Há que agir. Com eficácia. E seriedade.

Para bem do concelho de Torres Novas.

 

 

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