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Jornal Torrejano
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Miradouro: o resto é paisagem

Opinião  »  2025-07-22 

Há ideias muito antigas que num passado já remoto se lançaram para o futuro e que vieram a tornar-se realidade. Pela simples razão de que, embora parecessem projecções de visionários, vieram a revelar-se adequadas e até indispensáveis.

Em 1938, pelo menos, ainda antes da II Guerra, era Torres Novas uma acanhada e sombria vilória, já se falava da necessidade do prolongamento da avenida até ao planalto do Rossio, atravessando o Almonda e devendo obrigatoriamente desinstalar-se algumas estruturas da Casa Nery. Também se falava da urgência de desviar parte do trânsito das ruelas do centro da vila com uma ligação entre o actual Açude Real e a Nacional 3, na zona dos Mesiões. No primeiro caso temos o viaduto de Rio Frio, no segundo a Avenida 8 de Julho, “visões” que demoraram 80 anos a ser concretizadas.

Poucos anos depois, pela década de 40 do século passado, o grande projecto objecto de falatório e artigos de jornal era a lagoa a instalar na Fontinha, terrenos de hortas que iam da antiga fábrica do álcool, onde está a actual biblioteca, até à quinta da Lezíria, esta ainda incluída nos terrenos da Fontinha.

Certamente por influência do que era visto em Tomar, o Nabão transformado num imenso plano de água com o majestoso açude dos frades, o mouchão, a levada, intui-se que o rio Almonda, à passagem pela vila, era invisível. E era, como hoje quase é. A Fontinha era a única hipótese de imaginar um enorme lago e fazer do rio Almonda, naquele local, a centralidade mais aprazível da vila. Aqui, a visão traduziu-se apenas num vislumbre do que se sonhava. Trinta anos depois não havia o lago da Fontinha. Havia água sim, mas nos três tanques das novas piscinas municipais de verão, tendo ficado por construir a piscina olímpica, que nunca havia de sair do papel. Depois, desgraçadamente, veio o mostrengo que um dia há-de ser gloriosamente apeado do local que estupidamente conspurcou.

O miradouro de São Pedro, naquele local, é uma ideia mais ou menos daquelas décadas de 40/50. Ao contrário das outras, não corporizava uma necessidade, uma urgência, uma utilidade prática óbvia. E naquele tempo, sejamos claros, ter-se feito ali um miradouro para avistar uma vila escura, feia, com metade das casas arruinadas e de construção pobre, não teria sido boa ideia.

A “boa ideia” voltou agora, quando parece que não havia outras prioridades e urgências. E há tantas que até faz impressão. É uma “obra” discutível, isso é evidente. Quem vai parar ali para apreciar a paisagem, os torrejanos? Não parece. Turistas, não temos, e os visitantes, poucos, ficam-se pelo roteiro habitual e não vão subir a Miguel de Arnide à procura de um simples miradouro.

Quando escandalosamente não há um passeio para peões entre a Bica e as Lapas, troço de grande fluxo pedonal, ou entre a Senhora da Vitória e a Ribeira (uma estrada perigosa onde pura e simplesmente retiraram a possibilidade de se caminhar e onde muito se caminha, em cima do alcatrão, claro), quando as calçadas do centro da “vila” estão permanentemente esventradas com crateras e pedras soltas, quando o jardim municipal na zona dos antigos baloiços está criminosamente abandonado, aí e em todo o troço até ao açude real, quando o piso das calçadas das ruas do centro histórico nunca é reparado, com destaque para a inenarrável Rua Miguel Bombarda, desde o largo da Botica em diante, quando os decks sobre o rio e as guardas das pontes nunca são tratados, apodrecendo até cair, quando não há uma rotina de higienização das principais ruas do centro histórico e a escadaria da travessa do Correio Velho está permanentemente imunda, quando o rio nunca é limpo, como devia, no final da cada primavera e mete nojo na maior parte dos locais dentro da cidade, quando os bancos e estruturas do Almonda Parque já estão degradadas porque se pensava que era só inaugurar esquecendo-se a conservação anual de madeiras, quando há mil e uma coisas como estas e outras que fariam de Torres Novas uma terra asseada e decente, e não a cidade onde tudo parece sujo, de má qualidade, inacabado e cheio de tralha urbana que tem arrasado os poucos largos que existiam e os espaços onde se podia caminhar à vontade, mesmo assim, diga-se, ainda se desculpava fazer na curva da Miguel de Arnide aquele miradouro. Como escape, como brincadeira.

Se a obra consistisse numa simples plataforma, bancos, um gradeamento e dois candeeiros. Ainda vá. Agora aquilo, uma coisa perfeitamente horrível - é uma opinião – em que não se vislumbra qualquer lógica (funcional, plástica, visual), aqueles monstros de betão pintados de amarelo a meter medo ao susto, isso não lembra ao diabo. Qualquer turista que por acaso por ali passe assusta-se antes de perceber que ali está um miradouro. Quanto aos passantes torrejanos, a grande maioria de carrinho, claro, nem olham, que as curvas são sempre locais perigosos. E se, mesmo ao passar de carro, ainda se contentavam com o vislumbre da paisagem por dois segundos, agora levam com cimento pelas trombas e nem a paisagem – um pequeno travelling cinematográfico – se consegue obter. E era lindo.

De modo que um cristão, cheio de boa vontade e compaixão aproxima-se do local do crime e topa logo com dois gigantes contrafortes, dir-se-ia a entrada num fortim contra a invasão dos bárbaros, ultrapassa essa porta escancarada e dá-se com dois paredões gigantescos, ambos guardados pelo exterior por duas entradas/portões onde jazem pendurados elementos do brasão de armas da terra, ostensivamente enormes não se sabe porquê e porquê ali, muito menos para quê. Com algum custo, depois da distracção provocada por esta parafernália de cimento em blocos, eis dois bancos virados à paisagem, cuja curiosidade, outra, assenta no facto de estarem eles próprios assentes numa plataforma elevada, não se sabe porquê, até porque uma pessoa senta-se neles e a linha do olhar cruza-se com o gradeamento, se era essa ideia - retirar o ângulo de visão do gradeamento. E um santo, no fim disto tudo, interroga-se: mas não era para se fazer apenas um miradouro?

A gente sabe que eles têm de brincar com alguma coisa e que só conseguem viver num continuum de atelier criativo ao nível de jardim de infância porque gerir uma autarquia e tratar de fazer o que é útil e conservar aquilo que é preciso conservar, antes de inventar, é mais difícil para esta geração da governação de “likes” e de “selfies”. Mas há limites. E esta obra – é uma opinião – ultrapassa um bocado, para não ser violento, os limites. É uma cena patética, difícil de imaginar que um dia seria possível. Mas foi. O resto é paisagem. C.C.


 

 

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