• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 18 Janeiro 2021    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 16° / 10°
Céu nublado com chuva fraca
Qua.
 16° / 10°
Céu nublado com chuva moderada
Ter.
 14° / 1°
Céu nublado com chuva fraca
Torres Novas
Hoje  14° / 2°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Um arco-íris em tons de cinza, por Inês Vidal

Opinião  »  2020-04-05  »  Inês Vidal

"A Ana João tem razão. Não vai ficar tudo bem."

Por estes dias, pedi às minhas filhas que pintassem um arco-íris para pendurarmos na porta de casa. Algo que dissesse, em todas as línguas latinas, e a quem por ali passasse, “vai ficar tudo bem”. No fundo, acho que me queria sentir uma boa mãe, daquelas que passaram os últimos quinze dias em casa a fazer de ponte entre seus filhos, uma escola fechada e uma resma de aulas online que mais parecia trabalhos forçados. Obrigada a ir trabalhar, se calhar mais ainda do que em dias normais, acabei por ceder à pressão das imagens passadas pelas muitas mães perfeitas que expunham nas redes sociais os seus belos trabalhos manuais de isolamento.

O bom da história é que, para mães imperfeitas, há filhas perfeitas. E a Ana João, contrariadíssima a pintar arco-íris com a legenda “Andrá tutto bene”, disse-me do alto da sua lucidez: “Sabes que não vai ficar tudo bem, não sabes? Isto é só para eles se entreterem porque não têm nada que fazer”. Parei sem resposta para tanta certeza num corpo de apenas 10 anos, e antes de me sorrir orgulhosa da filha que ali cresce, percebi que de facto não sou, nem quero ser, a mãe perfeita das redes sociais.

A Ana João tem razão. Não vai ficar tudo bem. Pelo caminho, morrerão muitas pessoas e muitas mais ainda morrem de solidão, todos os dias, aos bocadinhos. Pelo caminho, muitos filhos chorarão a ausência dos pais que, para os proteger, não voltarão tão cedo a casa. Pelo caminho, ficarão hábitos obsessivos de luta contra um bicho que não se vê, mas que se tem feito sentir. Pelo caminho, surgirá um mundo novo, nunca mais igual ao que deixámos para trás, onde nos abraçávamos e beijávamos sem distância.
Não sei se temos real noção daquilo que estamos a pedir às pessoas. Se me pedissem para ficar quinze dias em casa sem sair, fazia-o. Sei o que digo por experiência própria. Quando a causa é maior, é fácil acatar tal pedido. Mas reconheço que estamos a pedir muito a grande parte das pessoas. Especialmente àquelas a quem efectivamente exigimos que fechem a porta e vejam o mundo através de uma pequena janela embaciada.

A verdade é que já antes deste qualquer vírus que nos veio revolucionar a vida, a faixa etária mais idosa morria de solidão. O que hão-de dizer agora, quando lhe pedimos para não sair, para não verem os filhos ou netos, para não trocarem palavras com vizinhos, para não virem ao mercado à terça-feira, para não se confessarem na missa ou ao balcão da sua farmácia. Uma espécie de assalto disfarçado, assinado por quem nos lidera, onde a hipótese dada é apenas uma: “A morte ou a morte”.

Há muitos lados negros nesta história. Aliás, poucos são os que se pintam das cores do arco-íris. Por mais bandeiras que coloquemos à janela e palmas que entoemos nas varandas, por mais idílico o cenário das muitas horas que as famílias vão ter, finalmente, para se gozar uns aos outros, não vamos ficar todos bem. Muitos vão morrer. Muitos vão descobrir que não era aquela pessoa que queriam por perto, muitos vão sentir saudades do tempo que não passavam em casa, muitos vão descobrir que não notam qualquer diferença porque sozinhos já estavam, mas mais ainda vão sofrer na pele os efeitos da solidão que foram construindo.

Não li frase melhor que esta sobre estes dias que atravessamos: “Não romanciemos a pandemia”. Não há arco-íris que lhe dê cor, não há sonho que se torne realidade. Não há nada de bom que possa sair de uma situação em que dizemos às pessoas qual a vida que podem ou não podem viver!

 

 

 

 Outras notícias - Opinião


O TGV, o Ribatejo e o futuro das regiões - joão carlos lopes »  2021-01-12  »  João Carlos Lopes

Foi paradigmático o facto de, aquando da confirmação (pela enésima vez) da intenção do Governo em avançar com o TGV Lisboa/Porto, as únicas críticas, reparos ou protestos de autarcas da região terem tido por base a habitual choraminga do “também queremos o comboio ao pé da porta”.
(ler mais...)


Peixoto - rui anastácio »  2021-01-10  »  Rui Anastácio

Há uns meses, em circunstâncias que não vêm ao caso, tive o prazer de privar com José Luís Peixoto e a sua mulher, Patrícia Pinto. Foram dias muito agradáveis em que fiquei a conhecer um pouco da pessoa que está por trás do escritor.
(ler mais...)


A Pilhagem - josé ricardo costa »  2021-01-10  »  José Ricardo Costa

Podemos dizer que um jogo de futebol sem público ou vida sem música é como um jardim sem flores. Não que um jardim sem flores deixe de ser um jardim. Acontece que, como no jogo de futebol, fica melhor se as tiver. Já se for uma sopa de feijão com couves que não tenha couves, a comparação com o jardim sem flores não funciona, pela singela razão de que uma sopa de feijão com couves que não tenha couves, sendo ainda sopa, sopa de feijão com couves não é de certeza.
(ler mais...)


DAR VOZ AO TRABALHO - josé mota pereira »  2021-01-10  »  José Mota Pereira

Entrados na terceira década do século XXI, o Mundo dos humanos permanece o lugar povoado das injustiças, da desigualdade e do domínio de uns sobre os outros. Não é a mudança dos calendários que nos muda a vida.
(ler mais...)


Uma visita à direita nacional - jorge carreira maia »  2021-01-10  »  Jorge Carreira Maia

A sondagem da Aximage, para o DN/JN/TSF, referente ao mês de Dezembro, dá ao CDS uns miseráveis 0,3%. Os partidos também morrem e o CDS está moribundo. Teve um importante papel na transição à democracia e, também, na vida democrática institucionalizada.
(ler mais...)


Coltur… Quoltur… Coultur… Hábito - carlos paiva »  2021-01-10  »  Carlos Paiva

A arte pode dividir-se em dois grandes grupos. A arte comercial e a arte não comercial. A não comercial, por se reger pela criatividade, originalidade, inovação, profundidade, talento e virtuosismo, acaba por ser a produtora de matéria-prima para a arte comercial, regida essa pelas leis de mercado.
(ler mais...)


Resíduos urbanos - antónio gomes »  2021-01-10  »  António Gomes

O sector dos resíduos sólidos urbanos esteve recentemente na agenda mediática devido à revolta das populações que vivem perto dos aterros onde são depositados, pois assistem à constante degradação da sua qualidade de vida.
(ler mais...)


Como serás tu, 2021? - anabela santos »  2021-01-10  »  AnabelaSantos

 

O nosso maior desejo era fechar a porta a 2020 e abrir, com toda a esperança, a janela a 2021. E assim foi. Com música, alegria, festarola e fogo de artifício, tudo com peso e medida, pois havia regras a cumprir.
(ler mais...)


2021: uma vida que afaste a morte - inês vidal »  2021-01-10  »  Inês Vidal

Finalmente 2021. Depois de um ano em que mais do que vivermos, fomos meros espectadores, fantoches num autêntico teatro de sombras, com passos e passeatas manipulados por entre margens e manobras de cordelinhos, chegámos a 2021. E chegámos, como em qualquer ano novo, com vontade de mudar, de fazer planos, resoluções que acabaremos por abandonar antes do Carnaval.
(ler mais...)


2020, um ano para esquecer? - jorge carreira maia »  2020-12-20  »  Jorge Carreira Maia

O ano de 2020 não foi fácil. A pandemia desestruturou os nossos hábitos e começou a desfazer a relação tradicional que tínhamos com a vida. Introduziu a incerteza nas decisões, o medo nos comportamentos, o afastamento entre pessoas.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-12-19  »  Inês Vidal Paul do Boquilobo - Inês Vidal
»  2021-01-12  »  João Carlos Lopes O TGV, o Ribatejo e o futuro das regiões - joão carlos lopes
»  2020-12-20  »  Jorge Carreira Maia 2020, um ano para esquecer? - jorge carreira maia
»  2021-01-10  »  Inês Vidal 2021: uma vida que afaste a morte - inês vidal
»  2021-01-10  »  Jorge Carreira Maia Uma visita à direita nacional - jorge carreira maia