• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Quarta, 20 Março 2019    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Sáb.
 24° / 8°
Céu limpo
Sex.
 21° / 5°
Céu limpo
Qui.
 20° / 6°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  19° / 8°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

O VÉU DA IGNORÂNCIA

Opinião  »  2016-04-05  »  José Ricardo Costa

"Continuar a insistir na questão do véu das europeias em países muçulmanos ou no véu das muçulmanas nos países ocidentais, no quadro de um abstracto choque de culturas, não passa de um tremendo erro."

 

Volta e meia somos confrontados com o problema do vestuário, devido às diferenças entre a cultura ocidental e a muçulmana. Desta vez, por causa das hospedeiras da Air France serem obrigadas a usar véu e roupas largas, em Teerão. Para uns, será um sinal de respeito por uma cultura diferente. Outros vêem nisso uma humilhante cedência, contrapondo o facto de, na Europa, as muçulmanas serem livres de se vestir de acordo com a sua cultura. Logo, se uma mulher europeia é obrigada a usar véu em Teerão, uma muçulmana deverá tirá-lo em Londres, Paris ou Roma. Vou pedir ajuda a um filósofo inglês do século XVII chamado John Locke que, sob anonimato, escreve a sua famosa Carta sobre a Tolerância, num tempo em que católicos e protestantes se viam entre si como, em Raqqa ou Mossul, um fanático do DAESH vê um cristão. Nessa carta, joga com a noção de «coisa indiferente», de cujo contexto me desvio (ele fala de igrejas e seus diferentes rituais, eu de culturas) mas não da sua essência, e à qual recorro em busca de alguma luz para este problema. 

Em cada cultura há coisas indiferentes e outras que não o são. Cães, gatos, porcos, vacas, borregos são animais. Em Portugal é indiferente comer vaca, porco ou borrego mas repugnante a ideia de comer cão ou gato. E, havendo inúmeros matadouros onde os primeiros são diariamente mortos, será julgado criminalmente quem mate cães ou gatos. Não por serem menos animais do que os outros, ou seja, não se trata de um critério racional e objectivo, mas apenas porque isso fere a nossa sensibilidade cultural devido à relação afectiva que temos com eles. No Irão será indiferente comer vaca ou borrego. Mas já não o será comer porco, igualmente por razões culturais, neste caso, religiosas. Há sítios em África onde uma mulher pode ocupar o espaço público com o peito coberto ou descoberto. É indiferente. Já em Portugal é inaceitável a segunda situação, excepto na praia. Não é, pois, uma coisa indiferente. Se, em Portugal, uma dessas mulheres africanas for para a rua com o peito descoberto, será advertida pelas pessoas ou pela polícia. Ora, a mesma dualidade existe quando se pensa no papel do véu e do vestuário feminino na cultura ocidental ou na esmagadora maioria dos países muçulmanos. Em França, é indiferente uma mulher andar vestida desta ou daquela maneira, de cabeça descoberta, com gorro, boina, boné, chapéu, um lenço a cobrir a cabeça, ter o cabelo preto, vermelho lilás ou mesmo rapado. Já no Irão não é indiferente. Neste sentido, deve aceitar-se que, no Irão, uma mulher francesa possa ser obrigada a cobrir a cabeça pela mesma razão que, em França, uma mulher africana possa ser obrigada a cobrir o peito, não servindo o argumento de que na sua aldeia o faz. 

Mas há que separar o trigo do joio, não metendo tudo no mesmo saco. Neste sentido, terei que dar razão a quem defende que os países ocidentais, sob a bonita capa do multiculturalismo, vão longe de mais na aceitação de valores que chocam a nossa sensibilidade. Repito: não aceitamos que a mulher africana ande na rua de peito descoberto porque fere o nosso pudor. Repito: não aceitamos que matem cães ou gatos porque fere a nossa sensibilidade. Ora, se nos países ocidentais são inaceitáveis práticas de discriminação de género, práticas que revelem uma posição subalterna da mulher face ao homem, por que razão devemos aceitá-lo só porque isso é normal noutra cultura? Cobrir a cabeça com um véu é uma imposição religiosa mas não anula a individualidade e dignidade da mulher. Ainda hoje, em Portugal, em certas zonas rurais, ao contrário dos viúvos, as viúvas cobrem a cabeça com um lenço. Discriminação? Talvez, mas dentro de limites razoáveis. Todavia, obrigar uma mulher a tapar o rosto será na nossa cultura uma forma abominável de discriminação e subjugação do mesmo modo que seria ver uma mulher andar na rua presa por uma trela. O grau de espectacularidade é diferente mas o princípio que lhe subjaz é o mesmo.

O rosto é uma marca fundamental da nossa identidade e personalidade, é através do rosto que assumimos grande parte da nossa individualidade perante os outros, é através do rosto que vemos e somos vistos sem qualquer medo ou vergonha, é através do rosto que exprimimos as nossas emoções. Mostrar o rosto é uma afirmação da nossa liberdade, personalidade e individualidade no espaço público. Não por acaso existem expressões como «Não ter vergonha de dar a cara», «aparecer de cara lavada», «poder andar na rua de cabeça erguida», «dar de caras com alguém». É por isso chocante, para nós, ocidentais, que o rosto possa ser assumido publicamente por um homem no espaço público mas não por uma mulher. Aceito, pois, a proibição de prática tão repugnante nos países ocidentais, sendo condição necessária para poderem cá viver.

Em suma, não devemos julgar todas as práticas culturais como um todo mas perceber cada situação individualmente pelo seu menor ou maior grau de indiferença em função dos nossos valores culturais, que devem ser defendidos e protegidos de tudo o que os possa ameaçar. Continuar a insistir na questão do véu das europeias em países muçulmanos ou no véu das muçulmanas nos países ocidentais, no quadro de um abstracto choque de culturas, não passa de um tremendo erro.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Brasil, China, Entre-os-Rios e Novo Banco »  2019-03-09  »  Jorge Carreira Maia

1. A DOENÇA DO BRASIL. Apesar de sermos latinos e de permitirmos coisas inaceitáveis nos países do centro e do norte da Europa, ainda é difícil para os portugueses compreender a doença que ataca com virulência inusitada o Brasil.
(ler mais...)


Remodelação, Bloco, Greves e Exames »  2019-02-22  »  Jorge Carreira Maia

1. REMODELAÇÃO DO GOVERNO. A importância da remodelação do governo ocorrida no início da semana é, do ponto de vista da orientação política, tendencialmente nula.
(ler mais...)


Mulher »  2019-02-21  »  Margarida Oliveira

Se é adquirido que com o 25 de Abril de 1974, as mulheres alcançaram o reconhecimento dos seus direitos mais fundamentais, exigindo a igualdade na vida, entre mulheres e homens, certo é, que fora o que seria obrigatório conceder, com o objectivo de serenar os ânimos reivindicativos femininos, praticamente tudo continua por fazer.
(ler mais...)


Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar. »  2019-02-21  »  José Ricardo Costa

Por estranho que pareça, houve um tempo em que se ia ao restaurante sobretudo para comer. Sim, também para conviver, comemorar, fazer negócios, mas sempre com o prazer da boa mesa como alvo. Nós, portugueses, para além de comer adoramos falar sobre o que comemos, nem que seja para lembrar, com a expressão lúbrica do lobo dos desenhos animados, o maravilhoso cabrito com grelos que comemos há 20 anos.
(ler mais...)


Aero… coisa, mas muito séria »  2019-02-21  »  António Gomes

A noticia teve origem na informação prestada em reunião de câmara pelo vice-presidente da mesma: aeroporto internacional, 4 Kms de pista, 160 voos/dia, 200 milhões de investimento, etc..

E foi apresentada com pompa e circunstância, uma grande mais valia para Torres Novas e arredores.
(ler mais...)


Opções »  2019-02-21  »  Anabela Santos

E de repente, quando somos agradavelmente surpreendidos por um montante razoável em euros de que não estávamos à espera, a reação é de espanto e de alegria. Faz falta, é sempre bem vindo.

A partir do momento em que recebemos tão agradável notícia, impõe-se um pensamento … o que fazer com todo o dinheiro recebido?
O mais correto e consciente seria poupar, mas como há tantas coisas pendentes que nunca foram resolvidas por não haver essa tal quantia, a hipótese da poupança põe-se logo de parte.
(ler mais...)


Para quê tanto vermelho? »  2019-02-21  »  Ana Sentieiro

O Dia de São Valentim é, à semelhança do Carnaval, do Dia da Mulher, do Dia da Aproximação do Pi ou do próprio Dia do Pi, uma celebração à qual não foi atribuída o estatuto de feriado e, como tal, não é respeitada no agregado de festividades.
(ler mais...)


Beija o chão e abraça a humilhação »  2019-02-15  »  Ana Sentieiro

Olá! O meu nome é Ana, mas podes tratar-me por “caloira” num tom agressivo e um tanto incomodativo ou, se preferires, “besta”, acompanhado com “Enche vinte!” entoado de um modo pouco sugestivo.
Desde miúdos que somos inevitavelmente encurralados, durante um almoço com amigos dos nossos pais, no meio de breves golos de cerveja e rápidas trincas no papo-seco com patê de atum, na conversa dos “áureos tempos de faculdade”… Esta conversa consiste na partilha de histórias que remontam ao tempo em que todos eles possuíam um farfalhudo cabelo e conseguiam apertar o cinto das calças, bem como subir ao segundo andar sem se agarrarem ao corrimão com a língua de fora e a respiração acelerada.
(ler mais...)


Caixa, Marcelo, Venezuela e Papa »  2019-02-08  »  Jorge Carreira Maia

1. CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS. O que se tem vindo a saber da Caixa Geral de Depósitos dá razão aos que, na União Europeia, julgam ser necessário impor uma espécie de protectorado aos países do sul da Europa.
(ler mais...)


Lisboetas? »  2019-02-07  »  Inês Vidal

Tento fazer este exercício: o que é que as pessoas que não conhecem Torres Novas ficaram a saber sobre o nosso concelho, depois de lerem o artigo publicitário disfarçado de reportagem, que saiu no sábado numa alegada revista, de um honrado semanário nacional? Ora bem.
(ler mais...)


 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2019-02-22  »  Jorge Carreira Maia Remodelação, Bloco, Greves e Exames
»  2019-02-21  »  Anabela Santos Opções
»  2019-02-21  »  António Gomes Aero… coisa, mas muito séria
»  2019-02-21  »  José Ricardo Costa Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
»  2019-02-21  »  Margarida Oliveira Mulher