O regresso à escola - antónio mário santos
Opinião
» 2025-09-20
» António Mário Santos
Os meus três netos regressaram, hoje, como milhares no país, à escola pública. Levam na mochila, além de livros e cadernos, cada um o seu telemóvel. Alunos do 6.º e 10.º ano de escolaridade, têm os primeiros, pela frente uma novidade: a proibição, não só nas aulas, mas no recinto escolar, do uso daquele instrumento tecnológico. Medida governamental que, creio, todas as escolas aceitam, por ser reconhecidamente um elemento perturbador, não só da aula disciplinar em si, como, fora daquela, impeditivo da relação comunitária criadora da autoestima, do espírito crítico, do respeito pelo outro, da formação social a partir do convívio e do diálogo.
Sou de duas épocas educativas, com início e fim no século XX: do antes do 25 de Abril, e do depois da revolução.
Professor em ambas, na primeira enfrentava uma escola dividida em rapazes e raparigas, os primeiros maioritários e distribuídos pelas áreas disciplinares tecnológicas, mecânica, electricidade e comércio (esta mista), as raparigas inseridas na formação feminina, na aprendizagem dos lavores, da cozinha e da dactilografia, futuras boas donas de casa, algumas com possibilidade de dactilografia e estenografia na vida profissional. Ambos os sexos, separados nas aulas, nos recintos escolares, como na vida social de então, elas na opção secundária da educação da mulher como boa dona de casa, boa esposa e boa mãe; eles, os técnicos qualificados que a industrialização em curso necessitava. Era a regra geral educativa da sociedade totalitária salazar/cerejeira, depois marcelista, que (des)mentalizou o povo português durante quase cinquenta anos.
Com a revolução, e no seu percurso, por vezes tumultuoso, vivi uma outra escola, que aprendia a sua democratização. Com o tempo, acabaram as diferenças entre liceus e escolas industriais e comerciais públicas, as turmas tornaram-se mistas, dinamizaram-se associações de estudantes e de encarregados de educação, criaram-se jornais escolares, apostou-se nas actividades socio-cuturais, na formação das bibliotecas escolares, na melhoria dos apoios sociais e maior qualidade das cantinas e bares escolares.
As escolas assumiram a sua gestão, denominada democrática, fazendo parte dos seus órgãos directivos, listas de professores, de funcionários e de alunos eleitos. As actividades circum-escolares, que abriram a escola à sociedade, com esta chamada a participar na actividade escolar, criaram uma dinâmica em que a escola se integrava no meio e este nela. Os alunos eram os elementos fundamentais, que, na criatividade, no associativismo, na sala de aula, transformaram as escolas em locais de aprendizagem e de desenvolvimento cívico, sociocultural, de intercâmbio e de qualidade educativa. A internacionalização, com a entrada de Portugal na CEE, iniciou o intercâmbio estudantil com o mundo europeu.
Não é esta a escola que hoje existe. Nem em ambiente, nem em espírito.
A escola por objectivos - a preparação do terceiro ciclo, para o secundário, e deste para o universitário, alterou o dinamismo democrático assente no activismo igualitário da criação duma escola pública de qualidade. As classificações transformaram-se na vaca sagrada do sistema educativo actual, teoricamente permissores de carreiras definidas pelo mérito: o bacharelato, a licenciatura, o mestrado, e doutoramento. Na prática, diferenciadoras entre quem quer e pode, e quem quer mas não pode, nas despesas das matrículas, habitação, alimentação, custos obrigatórios diversos, que, ano a ano, agravaram aos segundos as possibilidades dum curso superior, afastado das possibilidades económicas familiares, e sem realistas alternativas ministeriais para a sua superação.
O individualismo e a cultura do self made man substituíram, na escola, os valores da empatia, da entreajuda, do respeito pelo outro.
A escola pública foi sendo, conscientemente, minimizada pela política governamental, e por parte de grupos de comunicação social, ante a privada, onde a capacidade económica gera a lei, e as elites consolidam a seu domínio do poder político, passado de pais a filhos. Repare-se como as vagas existentes no ensino superior público, se aumentaram em todo o país, tornaram-se dramáticas no ensino superior politécnico, principalmente no situado fora doa grandes centros populacionais, como nos casos de Santarém e de Tomar. Lisboa e Porto rebentam pelas costuras, o litoral acumula, o interior definha. O centralismo selecciona, o país empobrece.
Regresso aos meus netos e aos telemóveis. Tenho à minha frente a notícia sobre o estudo que a Universidade do Minho realizou nos segundo e terceiro ciclos e ensino secundário, em que os jovens do 6.º ano passavam uma média de três horas num dia de semana normal ao telemóvel, os do secundário quatro, sendo as raparigas quem mais passa o tempo na internet e nas redes sociais.
Os perigos do uso viciante do telemóvel, na Internet e redes sociais, são sinistramente superiores à sua qualidade de socialização.
A manipulação que os produtores dos conteúdos pretendem exercer nas mentalidades jovens, em formação, onde a curiosidade e a normal irreverência conduzem inconscientemente à assunção de regras forjadas para alimentação do seu espírito, inquieto com o cinzentismo do mundo real, transformam-nos em frágeis e fáceis presas do vampirismo tecnológico, monopolizado por elites totalitárias e antidemocráticas
Esperemos que o acerto humanizante da limitação do telemóvel nas escolas europeias consiga resistir à selvajaria manipulada da sua utilização fora delas.
Há que estar atento!
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O regresso à escola - antónio mário santos
Opinião
» 2025-09-20
» António Mário Santos
Os meus três netos regressaram, hoje, como milhares no país, à escola pública. Levam na mochila, além de livros e cadernos, cada um o seu telemóvel. Alunos do 6.º e 10.º ano de escolaridade, têm os primeiros, pela frente uma novidade: a proibição, não só nas aulas, mas no recinto escolar, do uso daquele instrumento tecnológico. Medida governamental que, creio, todas as escolas aceitam, por ser reconhecidamente um elemento perturbador, não só da aula disciplinar em si, como, fora daquela, impeditivo da relação comunitária criadora da autoestima, do espírito crítico, do respeito pelo outro, da formação social a partir do convívio e do diálogo.
Sou de duas épocas educativas, com início e fim no século XX: do antes do 25 de Abril, e do depois da revolução.
Professor em ambas, na primeira enfrentava uma escola dividida em rapazes e raparigas, os primeiros maioritários e distribuídos pelas áreas disciplinares tecnológicas, mecânica, electricidade e comércio (esta mista), as raparigas inseridas na formação feminina, na aprendizagem dos lavores, da cozinha e da dactilografia, futuras boas donas de casa, algumas com possibilidade de dactilografia e estenografia na vida profissional. Ambos os sexos, separados nas aulas, nos recintos escolares, como na vida social de então, elas na opção secundária da educação da mulher como boa dona de casa, boa esposa e boa mãe; eles, os técnicos qualificados que a industrialização em curso necessitava. Era a regra geral educativa da sociedade totalitária salazar/cerejeira, depois marcelista, que (des)mentalizou o povo português durante quase cinquenta anos.
Com a revolução, e no seu percurso, por vezes tumultuoso, vivi uma outra escola, que aprendia a sua democratização. Com o tempo, acabaram as diferenças entre liceus e escolas industriais e comerciais públicas, as turmas tornaram-se mistas, dinamizaram-se associações de estudantes e de encarregados de educação, criaram-se jornais escolares, apostou-se nas actividades socio-cuturais, na formação das bibliotecas escolares, na melhoria dos apoios sociais e maior qualidade das cantinas e bares escolares.
As escolas assumiram a sua gestão, denominada democrática, fazendo parte dos seus órgãos directivos, listas de professores, de funcionários e de alunos eleitos. As actividades circum-escolares, que abriram a escola à sociedade, com esta chamada a participar na actividade escolar, criaram uma dinâmica em que a escola se integrava no meio e este nela. Os alunos eram os elementos fundamentais, que, na criatividade, no associativismo, na sala de aula, transformaram as escolas em locais de aprendizagem e de desenvolvimento cívico, sociocultural, de intercâmbio e de qualidade educativa. A internacionalização, com a entrada de Portugal na CEE, iniciou o intercâmbio estudantil com o mundo europeu.
Não é esta a escola que hoje existe. Nem em ambiente, nem em espírito.
A escola por objectivos - a preparação do terceiro ciclo, para o secundário, e deste para o universitário, alterou o dinamismo democrático assente no activismo igualitário da criação duma escola pública de qualidade. As classificações transformaram-se na vaca sagrada do sistema educativo actual, teoricamente permissores de carreiras definidas pelo mérito: o bacharelato, a licenciatura, o mestrado, e doutoramento. Na prática, diferenciadoras entre quem quer e pode, e quem quer mas não pode, nas despesas das matrículas, habitação, alimentação, custos obrigatórios diversos, que, ano a ano, agravaram aos segundos as possibilidades dum curso superior, afastado das possibilidades económicas familiares, e sem realistas alternativas ministeriais para a sua superação.
O individualismo e a cultura do self made man substituíram, na escola, os valores da empatia, da entreajuda, do respeito pelo outro.
A escola pública foi sendo, conscientemente, minimizada pela política governamental, e por parte de grupos de comunicação social, ante a privada, onde a capacidade económica gera a lei, e as elites consolidam a seu domínio do poder político, passado de pais a filhos. Repare-se como as vagas existentes no ensino superior público, se aumentaram em todo o país, tornaram-se dramáticas no ensino superior politécnico, principalmente no situado fora doa grandes centros populacionais, como nos casos de Santarém e de Tomar. Lisboa e Porto rebentam pelas costuras, o litoral acumula, o interior definha. O centralismo selecciona, o país empobrece.
Regresso aos meus netos e aos telemóveis. Tenho à minha frente a notícia sobre o estudo que a Universidade do Minho realizou nos segundo e terceiro ciclos e ensino secundário, em que os jovens do 6.º ano passavam uma média de três horas num dia de semana normal ao telemóvel, os do secundário quatro, sendo as raparigas quem mais passa o tempo na internet e nas redes sociais.
Os perigos do uso viciante do telemóvel, na Internet e redes sociais, são sinistramente superiores à sua qualidade de socialização.
A manipulação que os produtores dos conteúdos pretendem exercer nas mentalidades jovens, em formação, onde a curiosidade e a normal irreverência conduzem inconscientemente à assunção de regras forjadas para alimentação do seu espírito, inquieto com o cinzentismo do mundo real, transformam-nos em frágeis e fáceis presas do vampirismo tecnológico, monopolizado por elites totalitárias e antidemocráticas
Esperemos que o acerto humanizante da limitação do telemóvel nas escolas europeias consiga resistir à selvajaria manipulada da sua utilização fora delas.
Há que estar atento!
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
» Carlos Paiva
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança?
» 2026-06-20
» António Mário Santos
Tenho, no ano que corre, seguido com a maior atenção as sessões públicas, quer do executivo camarário, quer da Assembleia Municipal, algo que nunca fiz nas duas últimas décadas. A maioria absoluta do Partido Socialista, no município, criara uma mentalidade de arrogância autoritária, geradora, por um lado, dum distanciamento entre governantes e governados, e, por outro, na formação duma coorte de lambebotismo acéfalo, cujos interesses próprios ou familiares assentavam na oportunidade de emprego nos quadros do pessoal municipal, nas bem aventuranças de subsídios, na aprovação de projectos de obras nunca bem clarificados, em festas e publicidade a esmo, num despesismo rotineiro não fiscalizado, que deixava um rasto de dúvidas sobre a legalidade de muitos actos de gestão. |
CH4
» 2026-06-20
» Carlos Paiva
Podemos enumerar os argumentos que habitualmente nos escudam de uma análise crítica, como se a escala económica, dimensão de mercado, localização geográfica, justificassem decisões péssimas, essencialmente motivadas por falta de verticalidade. |
Marxismo cultural, uma fantasia - jorge carreira maia
» 2026-06-20
» Jorge Carreira Maia
Há dias, deparei-me com um vídeo em espanhol sobre uma mudança irrevogável do Ocidente gerada por seis homens. O vídeo faz parte do conflito ideológico com o marxismo cultural. É um exemplo da linguagem que parte da direita e a extrema-direita usa na guerra cultural que desencadeou há anos. |
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. |
Minudências que consomem - carlos paiva
» 2026-06-07
» Carlos Paiva
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. |
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» 2026-06-23
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes |
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» 2026-06-20
» Jorge Carreira Maia
Marxismo cultural, uma fantasia - jorge carreira maia |
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» 2026-06-20
» Carlos Paiva
CH4 |
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» 2026-06-20
» António Mário Santos
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança? |
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» 2026-06-20
» António Gomes
Julgam-se donos disto tudo |