Paula Ribeiro, uma história de vida com música “Hoje sinto-me liberta, com asas, a fazer o que gosto de fazer”
Sociedade » 2015-08-14É difícil não conhecer o nome de Paula Ribeiro, a torrejana que aos seis anos tratava os palcos por tu e já ganhava dinheiro a tocar. Correu o país e o mundo e foi o acordeão, que tanto tocava ao contrário, como em cima da cabeça, que lhe deu fama e dinheiro. Depois de uma paragem de cerca de uma década, que a roubou aos palcos, Paula Ribeiro voltou de forma mais discreta, mas com os mesmos fãs. Admite que, se quisesse, tinha espectáculos todos os dias e que a música dá para viver, mas não para enriquecer.
É difícil não conhecer o nome de Paula Ribeiro, a torrejana que aos seis anos tratava os palcos por tu e já ganhava dinheiro a tocar. Correu o país e o mundo e foi o acordeão, que tanto tocava ao contrário, como em cima da cabeça, que lhe deu fama e dinheiro. Depois de uma paragem de cerca de uma década, que a roubou aos palcos, Paula Ribeiro voltou de forma mais discreta, mas com os mesmos fãs. Admite que, se quisesse, tinha espectáculos todos os dias e que a música dá para viver, mas não para enriquecer.
Como começou o seu percurso na música?
Este percurso começou aos 4 anos, quando a Banda Operária Torrejana ensaiava junto dos antigos bombeiros. Eu vivia na rua de S. Pedro, ouvia a banda a tocar e fugia de casa para ir ouvir os ensaios. Os meus pais acabaram por me inscrever na banda, comecei lá a aprender música. O primeiro instrumento foi a trompa, depois o trompete. Além disso, comecei a aprender teclado com o Abel de Sá. Mais tarde, fui para o conservatório de Tomar, uma das primeiras a inscrever-me, com 11 anos. O meu número de aluno é o 47, por isso foi logo quando abriu o conservatório e fui bolseira da Gulbenkian enquanto estava no conservatório. Ao mesmo tempo, fui ter aulas de acordeão com a Eugénio Lima, em Rio Maior. Daqui passei para Lisboa e estive cerca de um ano no Instituto Vitorino Matono. Com 14 anos já dava aulas no Conservatório Regional de Tomar, como monitora, porque era ainda muito jovem. E assim comecei a correr Portugal em actuações, a fazer gravações comerciais – primeiro cassetes e depois CD – a ir para o estrangeiro: Espanha, França, Suíça, Canadá, Brasil... A música correu muito depressa na minha vida. Logo de pequenina comecei a fazer espectáculos, uns bailaricos, mais dedicada à música popular.
Com que idade começou a fazer esses primeiros bailaricos?
Tinha seis anos quando comecei a fazer espectáculos sozinha. Aliás, comecei antes disso. Com três anos pedi ao meu pai para me comprar um pianinho na loja do Moiteiro, actual café Portugal. Guardo-o até hoje, todo estimadinho. Com esse piano, eu já tinha uma ambição de criança e dizia: “Eu com este piano vou ganhar dinheiro”. Então, corria os colegas comerciantes e tocava para eles e cantava canções do José Cid. E lá vinha eu com uns chocolates, umas moedinhas, uns rebuçados. E isso deu-me auto-estima para seguir uma carreira musical. A trabalhar a sério, foi a partir dos meus 6 anos. Comecei a ganhar dinheiro a sério e a ganhar para os instrumentos.
Entretanto, deixámos de ouvir falar na Paula Ribeiro...
Sim, todo esse período decorreu durante a minha infância e juventude. Em 1998, devido a problemas familiares - em muito causados pela ilusão do dinheiro - fiz uma paragem na minha carreira. Nessa fase, ganhei muito dinheiro e foi isso que originou a destruição da minha carreira e quase da minha própria vida. Fui então viver para São Paulo com o meu ex-marido, montámos lá um negócio que não tinha nada a ver com a música, porque a música para mim tinha acabado. Eu achava que a música era a culpada do que de mal tinha acontecido na minha vida, mas o problema não tinha sido a música...
Fui-me embora para esquecer, mas o Brasil foi como uma tropa para mim. Fui lutar com o desconhecido, comi o pão que o diabo amassou, aprendi a lutar pela vida, aprendi a ser eu, porque na altura era uma menina muito sensível e ingénua. O Brasil foi como fazer uma tropa de elite, onde fui aprender mesmo o que era a vida. Se me perguntar se tenho saudades, não, mas que me marcou, marcou, e deixei lá algumas pessoas, poucas, que me ajudaram muito. Se soubesse o que sei hoje, nunca teria ido para lá. Lutava cá com outros meios. Mas, na altura tinha 30 anos. Passei aquela que deveria ser a melhor fase da minha vida a aprender a viver!
E quando é que a música regressou à vida da Paula?
Em 2007 voltei para Portugal, porque sonhava com Torres Novas de noite e de dia. Vim ter com a minha mãe. E vim como a Linda de Susa, com a mala de cartão na mão, sem nada... E recomecei. Quando cheguei, a D. Beatriz, da pastelaria Império, deu-me a mão. Tenho muito a agradecer-lhe. Sem olhar a quem, nem porquê, deu-me a mão, deu-me trabalho, e foi lá que eu recomecei a minha vida. Depois, tive uma oferta para a Multifoto, porque já tinha trabalhado nesse ramo enquanto estive no Brasil e aceitei. Entretanto, conheci o pai do meu filho, engravidei e tive o meu pequeno. Quando fiquei desempregada, começaram a desafiar-me com a música. Tenho a agradecer ao sr. Manuel Ferreira, que me motivou. Emprestou-me os instrumentos e convidou-me para ajudar o antigo grupo de música da ARPE. Assim, comecei a inteirar-me novamente do mundo da música. Fui então ao supermercado comprar um órgão e, quando souberam que eu já tinha um e que já fazia de novo uns ritmos... queriam ouvir a Paula Ribeiro. Fiz uma passagem de ano, a título de brincadeira, na sede do Rancho Folclórico de Torres Novas, que também me tinha convidado para tocar. Depois, comecei a ter convites ali de um restaurante na Serra de Santo António onde fazem excursões. Depois um fala ao outro e fui ganhando cada vez mais clientes.
E hoje, oito anos depois do seu regresso?
Hoje em dia estou com uma carteira de clientes razoavelmente boa, que me dá trabalho para o ano inteiro. Não é o dinheiro que se ganhava antigamente. Quando eu saí ganhava em escudos e quando voltei já era em euros. Ganhamos hoje menos do que no tempo do escudo. Dá para sobreviver, dá para viver, para pagar as contas, criar o meu filho, mas não dá para enriquecer. Mas é aquilo que eu gosto de fazer. Cheguei à conclusão de que a culpa não era da música, a culpa era de quem tentava usar-se dela! Hoje em dia estou livre, estou completamente inspirada para a música, estou a chegar a um ponto de me concretizar como música. Não estou arrependida de ter voltado a tocar. Pelo contrário, acho que foi uma burrice da minha parte ter fugido da música, mas na altura tinha as pernas partidas. Tive de fazer uma curva maior para chegar ao meu destino, que sempre foi a música.
Quando chegou do Brasil, ficou feliz de ver que as pessoas ainda se lembravam da Paula Ribeiro?
Sim, muito. E, hoje em dia, quando vou a uma festa fico surpreendida por se lembrarem de mim. Ainda este fim-de-semana me disseram: “A minha filha, que era pequenina, fartou-se de dançar ao som da sua cassete que tinha o La Cucaracha e o Fadinho. A minha filha é aquela e o meu netinho já tem dois anos”. Como é que é possível as pessoas se lembrarem?! É gostoso, sentimo-nos bem das pessoas ainda se lembrarem de nós.
A Paula ficou mais conhecida por tocar acordeão. Também troca trompete, orgão e até vários instrumentos ao mesmo tempo. Quando voltou do Brasil não tinha nada? Como conseguiu recomeçar?
Não tinha nada. Primeiro, o senhor Manuel Ferreira emprestou-me alguns, depois a D. Beatriz pôs uma caixinha no balcão para quem quisesse ajudar-me a comprar um acordeão, porque ela sonhava que a Paula ainda ia ter um acordeão. Juntámos algum dinheiro, pedi o restante a um tio, e comprei um acordeão. O restante equipamento fui comprando com as actuações. Primeiro comprei umas colunas, mais tarde um amplificador. O dinheiro que fui ganhando, fui investindo na música.
Em palco toca músicas suas?
Toco músicas minhas e tenho planos de, em Setembro, passados estes anos todos, fazer uma nova gravação. Nunca mais gravei, o que tenho é o que fiz nos anos 90, quando gravei mais de uma dezena de cassetes. Tenciono gravar músicas inéditas e um estudo com músicas de antigamente, que digam algo ao meu estilo musical. A partir de Setembro, terei alguma coisa para passar nas rádios e para as pessoas terem como recordação desta nova fase da Paula Ribeiro.
A Paula disse-me, há dias, que se quisesse tinha concertos todos os dias do ano e que acha estranho quando se fala em crise, porque crise viu no Brasil. Continua a pensar assim?
Se eu quiser trabalhar no campo na música - eu não digo toda a gente e não me estou a promover nem a achar-me melhor que as outras pessoas –, mas se eu quisesse estava a trabalhar todos os dias. Mas como mãe e com a minha idade, já não posso trabalhar todos os dias. Vou fazer 46 anos em Agosto. Isto é uma vida muito cansativa, mexe muito com a parte psicológica. Fui muito explorada desde menina, comecei a trabalhar muito cedo, passei semanas sem dormir (nem sei como consegui conciliar com a escola, o conservatório, o instituto de línguas) e era tudo muito cansativo, mas como era sangue fresco ia aguentando. Hoje não tenho condições para aguentar uma semana inteira a tocar. Actuo aos fins-de-semana, pontualmente tenho trabalhos a meio da semana e festas de verão, festas privadas, festas de colectividades, dancetarias. Acho, sinceramente, que isto é uma crise fingida. Em Portugal, tivemos de tudo e muito, e agora não nos contentamos com pouco e chamam a isto crise. Eu ainda não vejo a miséria que vi no Brasil...
A Paula viveu essa miséria na pele?
Não. Passei muito, andei perto, mas não cheguei a bater no fundo. Abri bem os olhos, vi em que mundo estava. Tive sorte porque sou lutadora, fui à conquista de algo e não me deixei ficar quieta. Não fui para lá para enriquecer, fui para fugir, para me refugiar o mais longe possível. Tive de ser rápida a adaptar-me. Não passei fome, graças a essa família que conheci e que me bateu à porta e me deu comida quando eu não tinha. Não cheguei à miséria, mas vi-a de perto e cá ainda não a consegui ver.
Foi convidada como figurante do filme “Cartas de Guerra”, de Ivo Ferreira, que há-de estrear para o ano. Fale-nos dessa experiência. Porque se lembraram de si?
Fui convidada para tocar no filme, numa cena que se passa no Ultramar e mostra que na década de 60 as mulheres tinham de ter garra: ganhar, sobreviver, porque os maridos estavam na guerra. Fui participar como música, a distrair os militares. O contacto para esta participação aconteceu graças ao boca a boca. Até pensei que fosse uma coisa menos séria, mais amadora. Estive oito horas a tocar a mesma música. O meu nome foi dado por um colega que me viu a tocar o ano passado e ficou com o meu contacto. Achou que eu poderia ficar bem naquele papel e deu o meu nome à agência. Se tudo correr bem, o filme deverá estrear em Março de 2016.
Com esta história de uma infância que não teve, o que espera ensinar ao seu filho?
Não ser hipócrita, ser ele próprio, não viver no mundo da ilusão, ser o que quiser ser.... apoio. Que seja um homem verdadeiro, que não seja egoísta. Se lhe conseguir ensinar isso tudo, acho que a partir daí nascerá um grande homem. Vou ensinar-lhe que ele é filho do mundo. Estou cá a encaminhá-lo, amo-o de paixão, estou a ampará-lo enquanto é frágil e pequenino, mas o que lhe quero mostrar é que não somos de ninguém. Ele tem a mãe para o ajudar no que precisar, mas quero que ele siga o caminho que realmente quiser. Que seja feliz, já que eu sempre transmiti felicidade aos outros e não consegui tê-la!
Acha que conseguiu dar a volta?
Hoje sinto-me liberta, com asas, a fazer o que gosto de fazer na realidade. As marcas ficam sempre, mas sinto-me realizada, eu própria... e feliz!
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Paula Ribeiro, uma história de vida com música “Hoje sinto-me liberta, com asas, a fazer o que gosto de fazer”
Sociedade » 2015-08-14É difícil não conhecer o nome de Paula Ribeiro, a torrejana que aos seis anos tratava os palcos por tu e já ganhava dinheiro a tocar. Correu o país e o mundo e foi o acordeão, que tanto tocava ao contrário, como em cima da cabeça, que lhe deu fama e dinheiro. Depois de uma paragem de cerca de uma década, que a roubou aos palcos, Paula Ribeiro voltou de forma mais discreta, mas com os mesmos fãs. Admite que, se quisesse, tinha espectáculos todos os dias e que a música dá para viver, mas não para enriquecer.
É difícil não conhecer o nome de Paula Ribeiro, a torrejana que aos seis anos tratava os palcos por tu e já ganhava dinheiro a tocar. Correu o país e o mundo e foi o acordeão, que tanto tocava ao contrário, como em cima da cabeça, que lhe deu fama e dinheiro. Depois de uma paragem de cerca de uma década, que a roubou aos palcos, Paula Ribeiro voltou de forma mais discreta, mas com os mesmos fãs. Admite que, se quisesse, tinha espectáculos todos os dias e que a música dá para viver, mas não para enriquecer.
Como começou o seu percurso na música?
Este percurso começou aos 4 anos, quando a Banda Operária Torrejana ensaiava junto dos antigos bombeiros. Eu vivia na rua de S. Pedro, ouvia a banda a tocar e fugia de casa para ir ouvir os ensaios. Os meus pais acabaram por me inscrever na banda, comecei lá a aprender música. O primeiro instrumento foi a trompa, depois o trompete. Além disso, comecei a aprender teclado com o Abel de Sá. Mais tarde, fui para o conservatório de Tomar, uma das primeiras a inscrever-me, com 11 anos. O meu número de aluno é o 47, por isso foi logo quando abriu o conservatório e fui bolseira da Gulbenkian enquanto estava no conservatório. Ao mesmo tempo, fui ter aulas de acordeão com a Eugénio Lima, em Rio Maior. Daqui passei para Lisboa e estive cerca de um ano no Instituto Vitorino Matono. Com 14 anos já dava aulas no Conservatório Regional de Tomar, como monitora, porque era ainda muito jovem. E assim comecei a correr Portugal em actuações, a fazer gravações comerciais – primeiro cassetes e depois CD – a ir para o estrangeiro: Espanha, França, Suíça, Canadá, Brasil... A música correu muito depressa na minha vida. Logo de pequenina comecei a fazer espectáculos, uns bailaricos, mais dedicada à música popular.
Com que idade começou a fazer esses primeiros bailaricos?
Tinha seis anos quando comecei a fazer espectáculos sozinha. Aliás, comecei antes disso. Com três anos pedi ao meu pai para me comprar um pianinho na loja do Moiteiro, actual café Portugal. Guardo-o até hoje, todo estimadinho. Com esse piano, eu já tinha uma ambição de criança e dizia: “Eu com este piano vou ganhar dinheiro”. Então, corria os colegas comerciantes e tocava para eles e cantava canções do José Cid. E lá vinha eu com uns chocolates, umas moedinhas, uns rebuçados. E isso deu-me auto-estima para seguir uma carreira musical. A trabalhar a sério, foi a partir dos meus 6 anos. Comecei a ganhar dinheiro a sério e a ganhar para os instrumentos.
Entretanto, deixámos de ouvir falar na Paula Ribeiro...
Sim, todo esse período decorreu durante a minha infância e juventude. Em 1998, devido a problemas familiares - em muito causados pela ilusão do dinheiro - fiz uma paragem na minha carreira. Nessa fase, ganhei muito dinheiro e foi isso que originou a destruição da minha carreira e quase da minha própria vida. Fui então viver para São Paulo com o meu ex-marido, montámos lá um negócio que não tinha nada a ver com a música, porque a música para mim tinha acabado. Eu achava que a música era a culpada do que de mal tinha acontecido na minha vida, mas o problema não tinha sido a música...
Fui-me embora para esquecer, mas o Brasil foi como uma tropa para mim. Fui lutar com o desconhecido, comi o pão que o diabo amassou, aprendi a lutar pela vida, aprendi a ser eu, porque na altura era uma menina muito sensível e ingénua. O Brasil foi como fazer uma tropa de elite, onde fui aprender mesmo o que era a vida. Se me perguntar se tenho saudades, não, mas que me marcou, marcou, e deixei lá algumas pessoas, poucas, que me ajudaram muito. Se soubesse o que sei hoje, nunca teria ido para lá. Lutava cá com outros meios. Mas, na altura tinha 30 anos. Passei aquela que deveria ser a melhor fase da minha vida a aprender a viver!
E quando é que a música regressou à vida da Paula?
Em 2007 voltei para Portugal, porque sonhava com Torres Novas de noite e de dia. Vim ter com a minha mãe. E vim como a Linda de Susa, com a mala de cartão na mão, sem nada... E recomecei. Quando cheguei, a D. Beatriz, da pastelaria Império, deu-me a mão. Tenho muito a agradecer-lhe. Sem olhar a quem, nem porquê, deu-me a mão, deu-me trabalho, e foi lá que eu recomecei a minha vida. Depois, tive uma oferta para a Multifoto, porque já tinha trabalhado nesse ramo enquanto estive no Brasil e aceitei. Entretanto, conheci o pai do meu filho, engravidei e tive o meu pequeno. Quando fiquei desempregada, começaram a desafiar-me com a música. Tenho a agradecer ao sr. Manuel Ferreira, que me motivou. Emprestou-me os instrumentos e convidou-me para ajudar o antigo grupo de música da ARPE. Assim, comecei a inteirar-me novamente do mundo da música. Fui então ao supermercado comprar um órgão e, quando souberam que eu já tinha um e que já fazia de novo uns ritmos... queriam ouvir a Paula Ribeiro. Fiz uma passagem de ano, a título de brincadeira, na sede do Rancho Folclórico de Torres Novas, que também me tinha convidado para tocar. Depois, comecei a ter convites ali de um restaurante na Serra de Santo António onde fazem excursões. Depois um fala ao outro e fui ganhando cada vez mais clientes.
E hoje, oito anos depois do seu regresso?
Hoje em dia estou com uma carteira de clientes razoavelmente boa, que me dá trabalho para o ano inteiro. Não é o dinheiro que se ganhava antigamente. Quando eu saí ganhava em escudos e quando voltei já era em euros. Ganhamos hoje menos do que no tempo do escudo. Dá para sobreviver, dá para viver, para pagar as contas, criar o meu filho, mas não dá para enriquecer. Mas é aquilo que eu gosto de fazer. Cheguei à conclusão de que a culpa não era da música, a culpa era de quem tentava usar-se dela! Hoje em dia estou livre, estou completamente inspirada para a música, estou a chegar a um ponto de me concretizar como música. Não estou arrependida de ter voltado a tocar. Pelo contrário, acho que foi uma burrice da minha parte ter fugido da música, mas na altura tinha as pernas partidas. Tive de fazer uma curva maior para chegar ao meu destino, que sempre foi a música.
Quando chegou do Brasil, ficou feliz de ver que as pessoas ainda se lembravam da Paula Ribeiro?
Sim, muito. E, hoje em dia, quando vou a uma festa fico surpreendida por se lembrarem de mim. Ainda este fim-de-semana me disseram: “A minha filha, que era pequenina, fartou-se de dançar ao som da sua cassete que tinha o La Cucaracha e o Fadinho. A minha filha é aquela e o meu netinho já tem dois anos”. Como é que é possível as pessoas se lembrarem?! É gostoso, sentimo-nos bem das pessoas ainda se lembrarem de nós.
A Paula ficou mais conhecida por tocar acordeão. Também troca trompete, orgão e até vários instrumentos ao mesmo tempo. Quando voltou do Brasil não tinha nada? Como conseguiu recomeçar?
Não tinha nada. Primeiro, o senhor Manuel Ferreira emprestou-me alguns, depois a D. Beatriz pôs uma caixinha no balcão para quem quisesse ajudar-me a comprar um acordeão, porque ela sonhava que a Paula ainda ia ter um acordeão. Juntámos algum dinheiro, pedi o restante a um tio, e comprei um acordeão. O restante equipamento fui comprando com as actuações. Primeiro comprei umas colunas, mais tarde um amplificador. O dinheiro que fui ganhando, fui investindo na música.
Em palco toca músicas suas?
Toco músicas minhas e tenho planos de, em Setembro, passados estes anos todos, fazer uma nova gravação. Nunca mais gravei, o que tenho é o que fiz nos anos 90, quando gravei mais de uma dezena de cassetes. Tenciono gravar músicas inéditas e um estudo com músicas de antigamente, que digam algo ao meu estilo musical. A partir de Setembro, terei alguma coisa para passar nas rádios e para as pessoas terem como recordação desta nova fase da Paula Ribeiro.
A Paula disse-me, há dias, que se quisesse tinha concertos todos os dias do ano e que acha estranho quando se fala em crise, porque crise viu no Brasil. Continua a pensar assim?
Se eu quiser trabalhar no campo na música - eu não digo toda a gente e não me estou a promover nem a achar-me melhor que as outras pessoas –, mas se eu quisesse estava a trabalhar todos os dias. Mas como mãe e com a minha idade, já não posso trabalhar todos os dias. Vou fazer 46 anos em Agosto. Isto é uma vida muito cansativa, mexe muito com a parte psicológica. Fui muito explorada desde menina, comecei a trabalhar muito cedo, passei semanas sem dormir (nem sei como consegui conciliar com a escola, o conservatório, o instituto de línguas) e era tudo muito cansativo, mas como era sangue fresco ia aguentando. Hoje não tenho condições para aguentar uma semana inteira a tocar. Actuo aos fins-de-semana, pontualmente tenho trabalhos a meio da semana e festas de verão, festas privadas, festas de colectividades, dancetarias. Acho, sinceramente, que isto é uma crise fingida. Em Portugal, tivemos de tudo e muito, e agora não nos contentamos com pouco e chamam a isto crise. Eu ainda não vejo a miséria que vi no Brasil...
A Paula viveu essa miséria na pele?
Não. Passei muito, andei perto, mas não cheguei a bater no fundo. Abri bem os olhos, vi em que mundo estava. Tive sorte porque sou lutadora, fui à conquista de algo e não me deixei ficar quieta. Não fui para lá para enriquecer, fui para fugir, para me refugiar o mais longe possível. Tive de ser rápida a adaptar-me. Não passei fome, graças a essa família que conheci e que me bateu à porta e me deu comida quando eu não tinha. Não cheguei à miséria, mas vi-a de perto e cá ainda não a consegui ver.
Foi convidada como figurante do filme “Cartas de Guerra”, de Ivo Ferreira, que há-de estrear para o ano. Fale-nos dessa experiência. Porque se lembraram de si?
Fui convidada para tocar no filme, numa cena que se passa no Ultramar e mostra que na década de 60 as mulheres tinham de ter garra: ganhar, sobreviver, porque os maridos estavam na guerra. Fui participar como música, a distrair os militares. O contacto para esta participação aconteceu graças ao boca a boca. Até pensei que fosse uma coisa menos séria, mais amadora. Estive oito horas a tocar a mesma música. O meu nome foi dado por um colega que me viu a tocar o ano passado e ficou com o meu contacto. Achou que eu poderia ficar bem naquele papel e deu o meu nome à agência. Se tudo correr bem, o filme deverá estrear em Março de 2016.
Com esta história de uma infância que não teve, o que espera ensinar ao seu filho?
Não ser hipócrita, ser ele próprio, não viver no mundo da ilusão, ser o que quiser ser.... apoio. Que seja um homem verdadeiro, que não seja egoísta. Se lhe conseguir ensinar isso tudo, acho que a partir daí nascerá um grande homem. Vou ensinar-lhe que ele é filho do mundo. Estou cá a encaminhá-lo, amo-o de paixão, estou a ampará-lo enquanto é frágil e pequenino, mas o que lhe quero mostrar é que não somos de ninguém. Ele tem a mãe para o ajudar no que precisar, mas quero que ele siga o caminho que realmente quiser. Que seja feliz, já que eu sempre transmiti felicidade aos outros e não consegui tê-la!
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