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Mundo suspenso, cidade suspensa, vidas suspensas

Sociedade  »  2020-03-18 

O cair da noite assume contornos nunca imaginados, como se de repente a cidade fosse apenas um cenário e nada mais que um cenário

Os factos: durante os 50 dias em que a ditadura chinesa escondeu o surto do novo vírus (independentemente da sua origem ou da sua génese), empresários e milhares de turistas chineses visitaram a Itália, para onde aportavam, ao mesmo tempo, hordas de turistas e viajantes de outros países da Europa. O resto, já se sabe.

Também já se sabe que, com esta pandemia, é um mundo que acaba e outro que vai começar. Na vida comunitária, na organização social, na economia, no uso dos recursos e na distribuição do capital social, o verdadeiro capital social (o emprego, a nova redistribuição do “trabalho” e também do que se produz, os direitos de cidadania), na nossa visão do mundo e da vida, no modo como encaramos os outros e nos vemos a nós próprios. Só assim e só por isto vale a pena resistir e participar na revolução que aí vem, uma revolução pacífica em que os cidadãos dirão, olhos nos olhos, uns aos outros, que exigem outra vida.

Assim como assim, o modelo vigente assente em falsas narrativas (“crescimento”, “criação de riqueza”, “competição”, tudo em direcção ao abismo), suportado na verdade pela devastação do planeta, pela acção predadora dos recursos naturais, pela precarização laboral de milhões de indivíduos através de uma nova e autêntica escravatura, modelo politicamente viabilizado pela gradual degradação do Estado e da política como derradeiras mediações entre as pessoas e um poder minimamente legitimado, capturando para os grandes interesses o próprio Estado e os seus recursos, culpabilizando os novos pobres (uma crescente massa de gente engrossada pela classe média proletarizada), esse modelo, imposto pela cartilha neo-liberal assassina, não tem futuro, a não ser o de eliminar com ele toda a humanidade ou o que restaria de humanidade num mundo entregue a uma desconhecida e inacessível elite de dominadores, tendo ao seu serviço multidões de novos servos.

A pandemia prova igualmente que a aquilo a que ideologia dominante chama globalização, na verdade um modelo económico de escala global dominado por duas ou três economias, não é viável sequer tecnicamente: uma escala global é demasiadamente grande, desadequada à enorme diversidade de sociedades, economias, estádios de desenvolvimento, contextos geográficos e histórico-políticos. No futuro, as fronteiras e bandeiras vão mesmo deixar de fazer sentido. Mas, neste momento, aquilo a que chamamos um país (ou um grupo de países) tem de recuperar algo da sua soberania produtiva essencial: a escala global tem de ser, de novo fragmentada, porque o mundo não é global na sua gigantesca diversidade. A globalização é uma mentira: só existe enquanto constelação de interesses que tem imposto a ideia de que a economia e uma economia, e não a política e políticas concretas, podem governar o mundo.

A globalização também não existe para os milhões de trabalhadores escravizados das economias asiáticas, que produzem a troco de salários e condições sociais escandalosas o que as economias “nacionais” deixaram de produzir por razões de “mercado”, atirando para a não existência social multidões de trabalhadores sem fábricas e sem oficinas nos seus próprios países. A globalização não existe para os novos escravos asiáticos que dormem em contentores no Sudoeste Alentejano: existe sim para os traficantes de mão-de-obra e para o regime democrático português que o permite sem um pingo de vergonha, como permite a proliferação de empresas de trabalho temporário, como se o trabalho e a dignidade das pessoas não exigissem um vínculo decente, um contrato social assente em compromissos sólidos de parte a parte. Disto tudo, o mundo está suspenso.

O mundo está suspenso, e nessa espera estão suspensas as nossas vidas. Estamos a viver um acontecimento histórico da marcha da humanidade, em conjunto com muitos que ainda viveram o drama da II Guerra Mundial. Os efeitos da II Guerra nos homens e mulheres que ergueram depois disso um novo e promissor mundo, de que nós beneficiámos, vão ter a mesma amplitude nas gerações novas que construirão um outro mundo nas próximas décadas. O problema é que não adivinhamos a natureza desses efeitos.

Aqui estamos, também sitiados neste cantinho do mundo. Na paisagem dos silêncios (nunca o planeta conheceu um tempo de tanto silêncio desde os anos 40 do século passado), temos duas ou três permanências do tempo longo que nos lembram que há um elo entre os que aqui andaram, nós e os que hão-de vir: um rio que corre, indiferente a estas grandes inquietações do mundo, um castelo, sobranceiro na solidez dos séculos, uma serra, azul da cor do céu, uma praça, que parece sofrer de desgosto, deserta, cada vez mais deserta, até que um dia destes floresçam rostos e abraços, cânticos e esperanças.

Entretanto, há o concreto angustiante da cidade a encolher-se. Quase já não há um restaurante aberto. Começa a ser difícil beber um simples café. As lojas fecham uma após outra. O cair da noite assume contornos nunca imaginados, como se de repente a cidade fosse apenas um cenário e nada mais que um cenário. Esvaem-se as palavras, uma palavra ou outra, esquivas, pelas esquinas de ruelas e travessas, elas próprias mudas há muito tempo. Os jornais são feitos de palavras para dar nome ao que acontece. Nada acontece, entretanto, a não ser esta espera. Sem sabermos quanto durará. João Carlos Lopes

 

 

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