Um torrejano nas prisões da PIDE (1), por Vítor Antunes
Sociedade » 2026-04-05
Um torrejano nas prisões da PIDE (1)
Talvez o nome António Santos Graça (1939-1999) diga pouco ao estimado leitor. Por outro lado, julgo que ele é totalmente desconhecido para os jovens torrejanos.
Nascido em Torres Novas, a 15 de Abril de 1939, o seu nome integra a galeria dos heróis que estiveram na linha da frente na resistência ao fascismo. A propósito da biografia de António Graça, podemos referir que, de uma maneira geral, teve uma infância feliz e despreocupada junto dos progenitores e irmãos. Como os seus dois irmãos, frequentou o Colégio Andrade Corvo. Aos dezassete anos, abandona a referida instituição de ensino para ir trabalhar no laboratório da fábrica “Alves das Lãs”. Pouco tempo depois, António Graça ingressa no laboratório de uma fábrica de azeites, na vila. É lá que faz a sua formação e o gosto pelo ofício, tendo contado com a ajuda de um engenheiro que fora contratado pela fábrica torrejana. Mais tarde, quando o referido técnico foi trabalhar para a fábrica de azeite, existente na cidade de Abrantes, levou consigo o seu aprendiz dilecto
Ainda na juventude, António Graça desenvolveria uma importante acção cívica ao fazer parte do núcleo de sócios fundadores do Clube de Campismo de Torres Novas, o “Raiar da Aurora”, no qual desempenhou as funções de secretário, e de ser membro do Cine Clube de Torres Novas. O seu envolvimento em actividades de carácter sociocultural vão despertar a sua consciência para a realidade vivida durante o Estado Novo. Nesta altura, com o aconselhamento de Faustino Bretes (1902-1986), Graça lê obras de autores pouco aconselhados pelo regime vigente. O velho decano anarquista e ex-militante do Partido Comunista Português terá um papel decisivo na formação política e intelectual do perspicaz torrejano.
Os primeiros anos da década de 60 foram terríveis para o regime. Por esse motivo, as perseguições e a opressão intensificaram-se. Só em Torres Novas, no ano de 1961, seriam detidos mais de vinte opositores ao fascismo. António Graça, tal como o torrejano Francisco Duarte Gomes, escapou a esta leva de prisões. Mas o desenlace teve como consequência a sua passagem à clandestinidade. A partir desta altura desenvolve uma significativa actividade de luta política como destacado elemento do PCP.
No dia 31 de Março de 1964, durante uma reunião acontecida em Almada, é preso pela PIDE por “actividades contra a segurança do Estado como membro e funcionário do Partido Comunista Português”, tendo recolhido à cadeia do Aljube. Aquando da sua detenção era portador de um documento dê identidade falso, passado em nome de Manuel António Silva.
A 15 de Abril, foi transferido para o Depósito de Presos de Caxias. Para, a 29 de Junho, ser novamente levado para a cadeia de Aljube. Quase um mês depois, a 20 de Julho, foi posto à ordem do Tribunal Criminal da Comarca de Lisboa. Na dita instituição judicial foi julgado a 17 de Dezembro de 1964, pelo 3º Juízo Criminal da Comarca de Lisboa.
Ao longo da audiência sobressaem a sua coragem e frontalidade, não se amedrontando perante um títere do aparelho repressivo do Estado. No início da sessão, o juiz adverte António Graça que não deve perturbar o ambiente do tribunal. Em seguida, faz-lhe várias perguntas sobre a sua identidade e vida profissional, ao que o torrejano apenas replica o seu nome, recusando-se ao resto:
“Juiz: Mas o senhor dantes não trabalhava? / Graça: O tribunal não tem nada que saber o que fazia e não fazia. /Juiz: Sabe que é acusado de pertencer e ser funcionário ao Partido Comunista Português? / Graça: Pertenço com muita honra ao Partido Comunista que defende o interesse dos trabalhadores e do povo português (O juiz manda calar o torrejano) / Graça: Não me posso calar! Estou a ser julgado como comunista, tenho de lhe explicar porque sou comunista, só assim poderei desmascarar o regime fascista. Sou um jovem que fiz 25 anos na cadeia. Durante 3 meses e 21 dias sofri bárbaros espancamentos. O agente Tinoco, para me levantar do chão deu-me choques eléctricos com um agulhão. O próprio director da PIDE pôs os pés em cima do meu estômago. Fui atirado ao ar, caindo desamparado no chão. Meteram-me no segredo de Caxias, sem luz sem colchão e sujeito à fome. / Juiz: Isso não me interessa. / Graça: Não lhe interessa, mas é seu dever interessar-se por isso. Devia ser seu dever exigir que a PIDE ponha fim às torturas a que são submetidos os filhos do povo (para lembrar, Graça sofreu a inenarrável tortura do sono por quatro vezes: 7 dias, mais 4, mais 11 e mais 2). Só aos fascistas é que estes problemas não interessam (O juiz manda-o calar). O interrogatório continua e o juiz adverte-o, ameaçadoramente, ao que António Graça ripostou: “Nós os comunistas estamos certos de que amanhã os réus serão os fascistas”.
Ainda antes de conhecer a sua sentença, António Graça expôs ao Tribunal a sua repulsa pela forma como foi tratado enquanto prisioneiro. O seu testemunho é um relato nu e cru das práticas selvagens e aviltantes a que eram sujeitos os presos políticos.
(Continua)
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Um torrejano nas prisões da PIDE (1), por Vítor Antunes
Sociedade » 2026-04-05
Um torrejano nas prisões da PIDE (1)
Talvez o nome António Santos Graça (1939-1999) diga pouco ao estimado leitor. Por outro lado, julgo que ele é totalmente desconhecido para os jovens torrejanos.
Nascido em Torres Novas, a 15 de Abril de 1939, o seu nome integra a galeria dos heróis que estiveram na linha da frente na resistência ao fascismo. A propósito da biografia de António Graça, podemos referir que, de uma maneira geral, teve uma infância feliz e despreocupada junto dos progenitores e irmãos. Como os seus dois irmãos, frequentou o Colégio Andrade Corvo. Aos dezassete anos, abandona a referida instituição de ensino para ir trabalhar no laboratório da fábrica “Alves das Lãs”. Pouco tempo depois, António Graça ingressa no laboratório de uma fábrica de azeites, na vila. É lá que faz a sua formação e o gosto pelo ofício, tendo contado com a ajuda de um engenheiro que fora contratado pela fábrica torrejana. Mais tarde, quando o referido técnico foi trabalhar para a fábrica de azeite, existente na cidade de Abrantes, levou consigo o seu aprendiz dilecto
Ainda na juventude, António Graça desenvolveria uma importante acção cívica ao fazer parte do núcleo de sócios fundadores do Clube de Campismo de Torres Novas, o “Raiar da Aurora”, no qual desempenhou as funções de secretário, e de ser membro do Cine Clube de Torres Novas. O seu envolvimento em actividades de carácter sociocultural vão despertar a sua consciência para a realidade vivida durante o Estado Novo. Nesta altura, com o aconselhamento de Faustino Bretes (1902-1986), Graça lê obras de autores pouco aconselhados pelo regime vigente. O velho decano anarquista e ex-militante do Partido Comunista Português terá um papel decisivo na formação política e intelectual do perspicaz torrejano.
Os primeiros anos da década de 60 foram terríveis para o regime. Por esse motivo, as perseguições e a opressão intensificaram-se. Só em Torres Novas, no ano de 1961, seriam detidos mais de vinte opositores ao fascismo. António Graça, tal como o torrejano Francisco Duarte Gomes, escapou a esta leva de prisões. Mas o desenlace teve como consequência a sua passagem à clandestinidade. A partir desta altura desenvolve uma significativa actividade de luta política como destacado elemento do PCP.
No dia 31 de Março de 1964, durante uma reunião acontecida em Almada, é preso pela PIDE por “actividades contra a segurança do Estado como membro e funcionário do Partido Comunista Português”, tendo recolhido à cadeia do Aljube. Aquando da sua detenção era portador de um documento dê identidade falso, passado em nome de Manuel António Silva.
A 15 de Abril, foi transferido para o Depósito de Presos de Caxias. Para, a 29 de Junho, ser novamente levado para a cadeia de Aljube. Quase um mês depois, a 20 de Julho, foi posto à ordem do Tribunal Criminal da Comarca de Lisboa. Na dita instituição judicial foi julgado a 17 de Dezembro de 1964, pelo 3º Juízo Criminal da Comarca de Lisboa.
Ao longo da audiência sobressaem a sua coragem e frontalidade, não se amedrontando perante um títere do aparelho repressivo do Estado. No início da sessão, o juiz adverte António Graça que não deve perturbar o ambiente do tribunal. Em seguida, faz-lhe várias perguntas sobre a sua identidade e vida profissional, ao que o torrejano apenas replica o seu nome, recusando-se ao resto:
“Juiz: Mas o senhor dantes não trabalhava? / Graça: O tribunal não tem nada que saber o que fazia e não fazia. /Juiz: Sabe que é acusado de pertencer e ser funcionário ao Partido Comunista Português? / Graça: Pertenço com muita honra ao Partido Comunista que defende o interesse dos trabalhadores e do povo português (O juiz manda calar o torrejano) / Graça: Não me posso calar! Estou a ser julgado como comunista, tenho de lhe explicar porque sou comunista, só assim poderei desmascarar o regime fascista. Sou um jovem que fiz 25 anos na cadeia. Durante 3 meses e 21 dias sofri bárbaros espancamentos. O agente Tinoco, para me levantar do chão deu-me choques eléctricos com um agulhão. O próprio director da PIDE pôs os pés em cima do meu estômago. Fui atirado ao ar, caindo desamparado no chão. Meteram-me no segredo de Caxias, sem luz sem colchão e sujeito à fome. / Juiz: Isso não me interessa. / Graça: Não lhe interessa, mas é seu dever interessar-se por isso. Devia ser seu dever exigir que a PIDE ponha fim às torturas a que são submetidos os filhos do povo (para lembrar, Graça sofreu a inenarrável tortura do sono por quatro vezes: 7 dias, mais 4, mais 11 e mais 2). Só aos fascistas é que estes problemas não interessam (O juiz manda-o calar). O interrogatório continua e o juiz adverte-o, ameaçadoramente, ao que António Graça ripostou: “Nós os comunistas estamos certos de que amanhã os réus serão os fascistas”.
Ainda antes de conhecer a sua sentença, António Graça expôs ao Tribunal a sua repulsa pela forma como foi tratado enquanto prisioneiro. O seu testemunho é um relato nu e cru das práticas selvagens e aviltantes a que eram sujeitos os presos políticos.
(Continua)
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