Trincão Marques põe fim a uma intrujice que durou 20 anos
Sociedade » 2026-04-19
Durante cerca de um século e três gerações de torrejanos, nunca ninguém em tempo algum se lembrou ou se lembraria de chamar “convento” ao edifício que vemos na fotografia, o hospital da Misericórdia, construído no final do século XIX no local onde em tempos recuados existira um convento de que não ficou uma pedra ou um prego para amostra com a sua demolição total. Durante 100 anos nunca ninguém evocou a palavra “convento” a respeito do edifício ou escreveu o que fosse a tratá-lo, a este edifício, dessa maneira. Era um hospital, na verdade e simplesmente.
Até à invenção que atingiu foros de refinada aldrabice, cerca de 2000, este edifício sempre foi e era o hospital e, depois da inauguração do novo, o casarão do largo do Carmo era tratado simplesmente por “hospital velho” ou “edifício do antigo hospital”.
A intrujice, com laivos de crime de lesa-história e de trafulhice narrativa para fins políticos começa quando, na gestão de António Rodrigues, se começou a colocar a necessidade da construção de novos Paços do Concelho. Mas havia um problema: nesses tempos, há muito que o apoio financeiro do Estado para Paços do Concelho havia sido cortado. “Queres paços do concelho, paga-os”, era o lema, ainda hoje em vigor. Seja como for, por deliberação de 16 de Maio de 2000, a Câmara decidiu adquirir o edifício para alojar nele os paços do concelho. Um trunfo político: novos Paços do Concelho, com a devida propaganda e manchetes dos jornais.
No dia 1 de Outubro seguinte, entretanto, seria inaugurado o novo hospital e o velho edifício hospitalar do Rossio do Carmo, na altura da sua construção, em 1882, um dos mais modernos do país, ficava vazio de funções e de horizontes. A Misericórdia, proprietária do edifício, deixava de receber os milhares de contos de renda mensal do Estado por funcionar ali o hospital do SNS, ficando sem hipóteses de rentabilizar de outro modo as instalações.
Rodrigues, como vimos, tinha pensado: e que tal ali os Paços do Concelho novos? A Câmara comprava o edifício à Misericórdia e havia de se arranjar maneira, naquele áureos tempos socráticos, de dar a volta ao assunto do quem paga. À portuguesa. Assim se fez, depois da deliberação de Maio de 2000. Mas seria preciso esperar uns bons anos para o negócio, já veremos porquê.
Fez-se um programa de reabilitação do antigo hospital, dando-lhe o nome de “convento”, para poder ser candidatado e financiado e dizia-se que o edifício seria destinado a fins culturais. Tudo combinado com a CDCR, claro, que nestas coisas, os de cima e os de baixo, todos sabem uns dos outros e todos se ajustam às circunstâncias nas torna-jeiras que são a marca do regime. O truque era mais que conhecido de todos antecipadamente: durante cinco anos, o edifício subsidiado não poderia ver alterados os seus fins, sob pena de a Câmara ter de devolver o dinheiro, mas depois disso, tudo se conjugaria. A partir deste momento, calaram-se as bocas sobre o tema “paços do concelho”, proibição total, para não dar nas vistas.
Parecia tudo em ordem, mas eis que surge um entrave de vulto: foi-se a analisar os termos da doação do terreno do antigo convento à Misericórdia, antes da construção do hospital, e lá estava escrito, preto no branco, que se alguma vez fosse alterado o uso para outra coisa que não hospital, tudo reverteria obrigatoriamente para o Estado. Pânico: afinal, aquilo, a mudar-se o fim, era do Estado, não era da Misericórdia, e depois a Câmara nem sequer podia comprar-lhe o antigo hospital. No fundo, o Estado (via Câmara) não podia comprar uma coisa a si próprio. O processo arrastava-se porque parecia não haver fim à vista, maneira legal de dar volta ao assunto. O património seria do Estado, ponto final. Entra em cena Sócrates, quem poderia ser: um milagroso decreto governamental do conselho de ministros, figura de excepção, reverte os termos definidos pelo próprio Estado há 100 anos, de modo que a Misericórdia pudesse chamar seu o velho hospital, mesmo mudando-se-lhe a função. E assim prosseguiu tudo na paz dos anjos. Um milhão e 200 mil euros passaram da Câmara para os cofres da Misericórdia e ficou toda a gente satisfeita.
A Câmara pôde, em consequência da ajuda socrática, comprar à Misericórdia um edifício que pelo compromisso, seria do Estado, e seguir com o projecto de requalificação de um “convento”, baptizado assim no contrato de financiamento, porque os conventos antigos já se podiam apoiar, ainda por cima para serem espaços culturais. Uma verdadeira comédia.
O que era isso de cinco anos, afinal? O tempo passa a correr e, nesse entretanto, findas as obras, a Câmara foi empurrando com a barriga para a frente, inventando umas actividades culturais no “convento”, uma reunião agora, mais adiante uma assembleia, até que enquanto o diabo esfregou apenas um olho passaram cinco anos da data por todos ansiada e deu-se a correria ao ouro, dezenas e dezenas de garimpeiros a correr, a cada um o seu gabinete, e num edifício que se pensava ser completamente impossível de encher, deu-se o inesperado: não chegava para todos, que havia mordomias de espaço para toda a gente, a granel e à vontade do freguês e dá-se agora o caso de os serviços camarários, com todo aquele espaço à disposição, estarem dispersos por vários sítios, por mais sítios do que estavam antes da reconstrução do velho hospital: paradoxal, notável, fabuloso.
Voltemos ao “convento”. O termo foi sendo utilizado na expressão oral dos seus novos habitantes, até porque dava uns ares de snobismo e requinte, “vou ali ao convento” para aqui, “a reunião é no convento” para ali, e para rematar a intrujice, até as convocatórias das reuniões oficiais da Câmara indicavam, quanto ao local da sua realização, os paços do concelho, “convento do Carmo “entre parentesis.
Persistia-se nesta mentira, que parecia decorrer de um qualquer pathos instalado que tendia para a indigência mental e o delírio, numa afronta à história, à inteligência, à verdade. Os que persistiam nesta palhaçada de mau gosto que é aldrabar a verdade histórica de modo dolorosamente anedótico e até confrangedor, estavam a querer chamar estúpidos e atrasados mentais a milhares de torrejanos que sabem que aquele edifício era o do antigo hospital, o “hospital velho”. Era como estar a dizer que a casa do Pedro Maia, ali à rua das Freiras, é o Convento do Espírito Santo.
O actual presidente da Câmara veio pôr côbro a este revisionismo histórico e as convocatórias das reuniões do executivo mencionam, como local de realização, os Paços do Concelho, ponto. Foi um pequeno gesto, mas foi formalmente o sinal do enterro da intrujice do “convento”, que foi extinto em 1834, já muito arruinado, e demolido o que restava, anos depois. Cabe-lhe agora, a José Trincão Marques, concretizar até às últimas consequências esta decisão, extirpando de tudo o que está escrito a menção a uma coisa que não é aquilo que temos para acabar com a vergonhosa fraude.
A invenção do “convento” como alcunha do edifício hospitalar construído de raiz em 1882 sem qualquer relação com a construção anterior, foi uma mistura de oportunismo saloio, golpismo à portuguesa e populismo, uma fake falcatrua. À escala local, foi um sinal de uma certa torrente demencial de verdades alternativas ou de substituição dos factos, em episódios que se foram sucedendo neste torrão sob a inspiração autárquica, uns burlescos ou patéticos, outros hilariantes, como a estória das “oliveiras dos pastorinhos”. J.C.L.
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Trincão Marques põe fim a uma intrujice que durou 20 anos
Sociedade » 2026-04-19
Durante cerca de um século e três gerações de torrejanos, nunca ninguém em tempo algum se lembrou ou se lembraria de chamar “convento” ao edifício que vemos na fotografia, o hospital da Misericórdia, construído no final do século XIX no local onde em tempos recuados existira um convento de que não ficou uma pedra ou um prego para amostra com a sua demolição total. Durante 100 anos nunca ninguém evocou a palavra “convento” a respeito do edifício ou escreveu o que fosse a tratá-lo, a este edifício, dessa maneira. Era um hospital, na verdade e simplesmente.
Até à invenção que atingiu foros de refinada aldrabice, cerca de 2000, este edifício sempre foi e era o hospital e, depois da inauguração do novo, o casarão do largo do Carmo era tratado simplesmente por “hospital velho” ou “edifício do antigo hospital”.
A intrujice, com laivos de crime de lesa-história e de trafulhice narrativa para fins políticos começa quando, na gestão de António Rodrigues, se começou a colocar a necessidade da construção de novos Paços do Concelho. Mas havia um problema: nesses tempos, há muito que o apoio financeiro do Estado para Paços do Concelho havia sido cortado. “Queres paços do concelho, paga-os”, era o lema, ainda hoje em vigor. Seja como for, por deliberação de 16 de Maio de 2000, a Câmara decidiu adquirir o edifício para alojar nele os paços do concelho. Um trunfo político: novos Paços do Concelho, com a devida propaganda e manchetes dos jornais.
No dia 1 de Outubro seguinte, entretanto, seria inaugurado o novo hospital e o velho edifício hospitalar do Rossio do Carmo, na altura da sua construção, em 1882, um dos mais modernos do país, ficava vazio de funções e de horizontes. A Misericórdia, proprietária do edifício, deixava de receber os milhares de contos de renda mensal do Estado por funcionar ali o hospital do SNS, ficando sem hipóteses de rentabilizar de outro modo as instalações.
Rodrigues, como vimos, tinha pensado: e que tal ali os Paços do Concelho novos? A Câmara comprava o edifício à Misericórdia e havia de se arranjar maneira, naquele áureos tempos socráticos, de dar a volta ao assunto do quem paga. À portuguesa. Assim se fez, depois da deliberação de Maio de 2000. Mas seria preciso esperar uns bons anos para o negócio, já veremos porquê.
Fez-se um programa de reabilitação do antigo hospital, dando-lhe o nome de “convento”, para poder ser candidatado e financiado e dizia-se que o edifício seria destinado a fins culturais. Tudo combinado com a CDCR, claro, que nestas coisas, os de cima e os de baixo, todos sabem uns dos outros e todos se ajustam às circunstâncias nas torna-jeiras que são a marca do regime. O truque era mais que conhecido de todos antecipadamente: durante cinco anos, o edifício subsidiado não poderia ver alterados os seus fins, sob pena de a Câmara ter de devolver o dinheiro, mas depois disso, tudo se conjugaria. A partir deste momento, calaram-se as bocas sobre o tema “paços do concelho”, proibição total, para não dar nas vistas.
Parecia tudo em ordem, mas eis que surge um entrave de vulto: foi-se a analisar os termos da doação do terreno do antigo convento à Misericórdia, antes da construção do hospital, e lá estava escrito, preto no branco, que se alguma vez fosse alterado o uso para outra coisa que não hospital, tudo reverteria obrigatoriamente para o Estado. Pânico: afinal, aquilo, a mudar-se o fim, era do Estado, não era da Misericórdia, e depois a Câmara nem sequer podia comprar-lhe o antigo hospital. No fundo, o Estado (via Câmara) não podia comprar uma coisa a si próprio. O processo arrastava-se porque parecia não haver fim à vista, maneira legal de dar volta ao assunto. O património seria do Estado, ponto final. Entra em cena Sócrates, quem poderia ser: um milagroso decreto governamental do conselho de ministros, figura de excepção, reverte os termos definidos pelo próprio Estado há 100 anos, de modo que a Misericórdia pudesse chamar seu o velho hospital, mesmo mudando-se-lhe a função. E assim prosseguiu tudo na paz dos anjos. Um milhão e 200 mil euros passaram da Câmara para os cofres da Misericórdia e ficou toda a gente satisfeita.
A Câmara pôde, em consequência da ajuda socrática, comprar à Misericórdia um edifício que pelo compromisso, seria do Estado, e seguir com o projecto de requalificação de um “convento”, baptizado assim no contrato de financiamento, porque os conventos antigos já se podiam apoiar, ainda por cima para serem espaços culturais. Uma verdadeira comédia.
O que era isso de cinco anos, afinal? O tempo passa a correr e, nesse entretanto, findas as obras, a Câmara foi empurrando com a barriga para a frente, inventando umas actividades culturais no “convento”, uma reunião agora, mais adiante uma assembleia, até que enquanto o diabo esfregou apenas um olho passaram cinco anos da data por todos ansiada e deu-se a correria ao ouro, dezenas e dezenas de garimpeiros a correr, a cada um o seu gabinete, e num edifício que se pensava ser completamente impossível de encher, deu-se o inesperado: não chegava para todos, que havia mordomias de espaço para toda a gente, a granel e à vontade do freguês e dá-se agora o caso de os serviços camarários, com todo aquele espaço à disposição, estarem dispersos por vários sítios, por mais sítios do que estavam antes da reconstrução do velho hospital: paradoxal, notável, fabuloso.
Voltemos ao “convento”. O termo foi sendo utilizado na expressão oral dos seus novos habitantes, até porque dava uns ares de snobismo e requinte, “vou ali ao convento” para aqui, “a reunião é no convento” para ali, e para rematar a intrujice, até as convocatórias das reuniões oficiais da Câmara indicavam, quanto ao local da sua realização, os paços do concelho, “convento do Carmo “entre parentesis.
Persistia-se nesta mentira, que parecia decorrer de um qualquer pathos instalado que tendia para a indigência mental e o delírio, numa afronta à história, à inteligência, à verdade. Os que persistiam nesta palhaçada de mau gosto que é aldrabar a verdade histórica de modo dolorosamente anedótico e até confrangedor, estavam a querer chamar estúpidos e atrasados mentais a milhares de torrejanos que sabem que aquele edifício era o do antigo hospital, o “hospital velho”. Era como estar a dizer que a casa do Pedro Maia, ali à rua das Freiras, é o Convento do Espírito Santo.
O actual presidente da Câmara veio pôr côbro a este revisionismo histórico e as convocatórias das reuniões do executivo mencionam, como local de realização, os Paços do Concelho, ponto. Foi um pequeno gesto, mas foi formalmente o sinal do enterro da intrujice do “convento”, que foi extinto em 1834, já muito arruinado, e demolido o que restava, anos depois. Cabe-lhe agora, a José Trincão Marques, concretizar até às últimas consequências esta decisão, extirpando de tudo o que está escrito a menção a uma coisa que não é aquilo que temos para acabar com a vergonhosa fraude.
A invenção do “convento” como alcunha do edifício hospitalar construído de raiz em 1882 sem qualquer relação com a construção anterior, foi uma mistura de oportunismo saloio, golpismo à portuguesa e populismo, uma fake falcatrua. À escala local, foi um sinal de uma certa torrente demencial de verdades alternativas ou de substituição dos factos, em episódios que se foram sucedendo neste torrão sob a inspiração autárquica, uns burlescos ou patéticos, outros hilariantes, como a estória das “oliveiras dos pastorinhos”. J.C.L.
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