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Denis Filipe: “Concorri ao “The Voice” porque não sabia que mais voltas devia dar para me mostrar”

Cultura  »  2018-01-04 

Músico de 35 anos, está ansioso e preocupado com o que 2018 tem para lhe dar

 

Há cinco anos Denis foi vencedor do concurso televisivo “The Voice”. De então para cá gravou um disco, emigrou durante um ano regressou e, em 2018, tem a esperança de gravar um novo disco, nem que seja ao vivo. O concerto agendado para o dia 12 de Janeiro, no Estúdio Alfa, marca o arranque de uma nova etapa na sua carreira. Essa é, pelo menos, a sua expectativa.

A vida de músico está a correr da forma que idealizaste?
Não, está conforme esperava. Quando comecei a tocar, há 20 anos, e gostava do que fazia, a maior parte das coisas que tocava era versões, mas havia espaço para os meus originais. Hoje em dia é cada vez mais difícil encontrar sítios para tocar. Isto está completamente virado do avesso. Em 2017 notei mais dificuldades e estou com receio do que possa vir a acontecer em 2018. Mas, respondendo à pergunta, não, não era este o percurso que idealizei. Gostava de estar focado nos meus temas originais e de ter mais trabalho enquanto músico de “covers”.

Tocar versões também é algo que te dá prazer?
Sim, é um trabalho que também gosto muito de fazer, de mostrar ao público aquilo que consigo fazer com músicas de outros artistas. Aliás, nos meus originais também tenho três ou quatro versões do mesmo tema, porque também os gosto de ir modificando.

Mas é um bocado difícil de perceber, porque há muita gente que gosta de assistir a música ao vivo, mas é verdade que não há muitos locais onde aconteça música ao vivo...
Sim, no geral as pessoas gostam, mas houve a necessidade de se reduzirem custos. Onde há uns anos eu tocava com banda, hoje toco sozinho. Os concertos que tenho dado são em formato acústico e isso é um bocado ingrato para quem, como eu, gosta de rock`n roll.

Em 2012 venceste o programa televisivo “The Voice”. Há um antes e um depois desse momento? Alguma coisa mudou?
Sim, houve um período, relativamente curto, que mudou. Comecei a ir a Lisboa todas as semanas, onde fiquei hospedado em hotéis, para gravar o álbum, durante uns cinco meses. Depois do álbum ter saído, as coisas continuaram diferentes, realizei uma digressão onde fiz alguns showcases, andei nas lojas Fnac e a realizar concertos de amostra. Depois foi voltando tudo ao normal. Embora a editora não tivesse gostado, voltei a tocar com a minha banda, porque era o meu ganha-pão. Tinha despesas para pagar e tinha de me alimentar.

O disco que gravaste, depois do concurso, ficou fiel ao que querias, ou tiveste que ceder em algumas coisas?
As músicas eram as que eu queria. Foi o que saiu no momento, com a pressão de ter de fazer música. A gravação em si está um bocado mais limpa do que eu queria. Enquanto eu queria sujar um pouco o som final, a Universal achou por bem limpar o som das guitarras e da bateria. O álbum está muito limpo...

Se fosses tu a produzir farias ligeiramente diferente?
Tocava tal e qual as mesmas peças, a mesma guitarra, a mesma voz, só que a produção era mais suja, mais orgânica. O produto final ficou muito limpo e isso tirou-lhe o ambiente de rock. Habitualmente, perguntam-me se a Universal me impôs os temas. Realmente mostrou-me algumas coisas, mas não tinham nada a ver comigo e deram-me carta verde para ser eu a escrever e compor as canções.

A participação no programa “The Voice” ajudou-te a crescer como músico, ou foi puro entretenimento?
Aquilo é o que é, um programa de entretenimento. Eu fui porque não sabia que voltas mais devia dar para me mostrar. Já tinha algum nome aqui na região e penso que foi isso que me deu votos e fez com que ganhasse o programa. Já tocava há 15 anos e penso que isso valeu-me votos.

Mas o trabalho que fizeste fora dos directos, no ensaios e tudo mais, sentes que foi uma mais valia e te ajudou a crescer como músico?
Sim, ajudou. Não tinha experiência com a televisão e nesse sentido ajudou-me a encarar câmaras... e a maneira como se ouve a banda. E cantar em televisão é diferente. Ainda hoje tenho dificuldade nesse aspecto. Não consigo estar num estúdio de televisão como estou num palco, o som é diferente e soa-me pouco natural.

Então não estavas confortável nas galas?
Nem por isso. Tinha sempre dificuldade em perceber se estava afinado, se devia meter um auricular ou outro. Foi uma batalha muito grande.

Tiveste algum feedback do estrangeiro. Há actuações que são visualizadas no YouTube e tornam-se virais...
Não, os vídeos não alcançaram assim tanta gente. Basta dizer, também, que aquela foi a primeira edição do programa em Portugal e foi tudo muito experimental. Para nós e para toda a produção. Eu estive lá dentro desde o primeiro dia de castings até à gala final, durante uns oito meses, e toda a gente reconhece isso.

Ser músico profissional em Portugal é difícil. E querer ser músico profissional numa cidade como Torres Novas, torna isso ainda mais difícil?
Em Portugal não tenho a esperança de um dia vir a ter um grande sucesso. Sei que o meu mercado é “undeground”, mas não esperava que a carreira de músico estagnasse. Muitas vezes penso se a vitória no “The Voice” não é hoje um travão na minha carreira de músico de originais.

Depois de teres gravado o disco foste para Inglaterra, durante um ano. Qual foi a tua ideia?
Senti que as coisas estavam uma bocado paradas por cá. Enquanto estive a gravar o meu disco, continuei a tocar ao vivo, mesmo contra a vontade da editora. Depois parei um pouco para realizar alguns espectáculos de apresentação do disco. Entretanto fui ficando sem trabalho, tanto nos originais como nos covers, e dei por mim estagnado. Pensei: “Não perco nada em sair daqui agora” e ir para Londres era algo em que já pensava há mais tempo, desde os 25 anos. Nessa altura tinha trabalho e fui ficando mas naquela fase de menor trabalho pensei que era a altura certa.
Arranquei e todas as experiências que tive aconteceram por minha iniciativa. Consegui um part-time, fui a castings para bandas e para tocar em bares... Não sei se tivesse tido a mesma atitude, mas em Lisboa, se as coisas não me teriam corrido bem. Só não sei se teria tido a mesma vontade de lutar.

Ao fim de um ano regressaste às origens. A experiência não correu como querias?
Até correu, mas tive uma enorme vontade de vir para cá. Nunca valorizei tanto o meu país como nessa altura. E vim com uma vontade enorme de tocar. Cheguei a tocar num teatro, em Londres, com vencedores de “The Voice” de outros países, por mero acaso. Mas não gostei da experiência. Não sou o típico cantor desse tipo de programa.

Tens andado a tocar em bares, e aí tens vários projectos. Fala-nos um pouco de cada um deles?
Tenho o One Man Band, mas não consigo tocar neste formato durante muito tempo, devido a um problema nas costas. Gosto do One Man Band porque o controlo está todo em mim. Tenho outra banda há já muito tempo, em que somos dois, que são os “Darksons”. Normalmente, num concerto, toco sozinho e com a formação dos “Darksons”. No duo há arranjos de músicas minhas, do Denis, mas temos outros originais, mais electrónicos. Pode ser um pouco confuso para as pessoas, mas a base é a mesma. As pessoas que me seguem podem ver-me cantar na mesma. Futuramente, Denis apresenta-se em concertos mais íntimos, ao estilo de One Man Band, e os “Darksons” para palcos maiores.
Há ainda a Superbrigada, uma banda de versões que se auto-intitula de banda Dj. Arranjamos os nossos próprios remix e concentramo-nos na música Disco, Pop, Dance dos anos 90. Neste projecto toco bateria, e todos cantamos, incluindo eu. Somos um grupo que não está preocupado em tocar. Queremos ter condições mínimas para fazer o nosso espectáculo. Queremos palcos maiores e divertir-nos. É uma reunião entre amigos.

E o que tens andado a tocar?
Tenho andado a tocar músicas do próximo álbum, não toco tudo, mas tenho mostrado algumas coisas. E como tenho tido algumas dificuldades para ir para estúdio, já que a campanha de crowfunding não correu muito bem, estou a pensar em gravar um CD ao vivo, com DVD. Talvez seja a opção possível para um próximo disco. Ao mesmo tempo, mostro às pessoas como ficam ao vivo as músicas do álbum “Twist and Band”. Depois de quatro anos a tocar, os temas têm hoje novas roupagens, sobretudo quando toco sozinho - as músicas foram idealizadas para uma banda com três pessoas.

O que teria de acontecer para que no final de 2018 possas dizer: “Este foi uma ano porreiro”.
Não precisava de muito. Bastava fazer uns 10 espectáculos de originais com algumas condições, ao longo ano, para ficar satisfeito. Mas espectáculos verdadeiros, e não amostras, onde pudesse tocar as músicas do “Twist and Band”, mais os originais que tenho concluídos. E que corram bem, já agora. Gosto e precisamos do calor das pessoas. Não quero ter uma agenda muito cheia porque preciso de conciliar com outras coisas.

Quantos temas tens preparados para gravar?
Tenho preparados oito temas, que quase dá para gravar um CD novo. Quero incluir nesse álbum alguns temas do “Twist and Band” ao vivo.

No dia 12 apresentas-te no Estúdio Alfa, em Torres Novas. Que faceta do Denis será mostrada ao público?
O espectáculo vai começar comigo, na versão One Man Band, e vai ganhar dinâmica quando o baterista entrar em cena, passando aos “Darksons”. Interessa-me mais que as pessoas gostem, independentemente se estou sozinho ou acompanhado.

Tens um património genético relacionado com a música. O teu pai anda por aí a tocar há 50 anos. Recordas-te das primeiras vezes que tocaste ao vivo com ele?
Sim, já dava uns toques na guitarra, mas nada de especial. Um dia fui ver o meu pai a um bar e, a dada altura, virou-se para mim e disse para ir tocar com ele. Foi no Tic-Tac, na Azinhaga. Não me lembro o que toquei, mas devia ter sido algum tema com poucos acordes. Isso aconteceu mais uma vez ou outra e aos 16 anos comecei a acompanhá-lo. Tocava todos os fins-de-semana, às sextas e sábados.

Tens formação musical ou foste aprendendo por ti a tocar guitarra?
Passei pelo Choral Phydellius aos 11 anos, mas não me adaptei ao modelo de ensino, que era muito clássico. Comecei a aprender guitarra com o meu pai, tive aulas particulares e segui por mim. O resto dos instrumentos que toco é por experimentação. Aí sou autodidacta. Já tinha tido aulas de canto quando fui finalista de um casting para substituir o Zé Manel, nos Finger Tips, e tive no “The Voice”.

 

 

 

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