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Andreia Carreira - mulher, mãe, médica, música e maestrina: “A maternidade foi a única coisa que me fez sentir diferente por ser mulher”

Cultura  »  2019-04-20 

Andreia Carreira tem 35 anos e é natural de Torres Novas. É médica, mãe, mulher. Toca clarinete na Banda da Mata e frequenta o curso de direcção de banda e coro no Orfeão Foz Douro, no Porto, uma formação que sentiu necessidade de fazer para melhor cumprir a sua tarefa de maestrina na banda Nabantina, de Tomar. Toca cavaquinho, flauta, percussão, castanholas e canta no grupo de música tradicional portuguesa, Caravana. Tudo isto, numa semana que só tem sete dias, com 24 horas cada. Não tem dúvidas de que é a capacidade de multitasking, inerente ao ser mulher, que lhe permite manter o ritmo sem deixar nada para trás. Isso e uma família de músicos, que alinha também.

 

Andreia Carreira é um bom exemplo do que nos trouxe a esta empreitada. Uma mulher que, como tantas outras, se não todas, é uma super-mulher. Num só dia seu, cabem mil horas. É médica - tarefa um dia também entregue só aos homens mas que é hoje maioritariamente feminina - no Hospital da Santa Casa da Misericórdia, no Entroncamento. Mas é tão mais do que isso.

Ainda a medicina soava longe, já a música se fazia ouvir: “A música na minha vida deve ter começado quando nasci. O meu avô era músico, a minha mãe era música – só saiu da banda quando eu nasci – e eu aos 4 anos já andava no Choral Phydellius, onde estive até aos 9. Depois fui para a Banda da Mata aprender a tocar clarinete. Tive um ano fora, mas de resto estive sempre lá, durante 26 anos. Quando fui trabalhar para Leiria, em 2011, fui para o Orfeão para aprender um bocadinho mais. Estive lá dois anos. Quando vim trabalhar para Ourém deixei o Orfeão, mas na banda continuei sempre”, recorda Andreia.

Se a música, enquanto clarinetista, existiu desde sempre, a direcção não. Foi uma surpresa na sua vida, como contou ao JT: “A direcção apareceu de surpresa. Tocava na banda da Mata e dava lá aulas. O maestro era então o Sérgio Rocha. Houve uma temporada em que ele foi para África uns meses em trabalho e perguntou-me se durante esse período eu ficava a dirigir a banda. Mais tarde soube que a Nabantina estava à procura de maestro e arrisquei. Concorri, fiquei e estou lá há sete anos”.

Um trabalho que tem feito como auto-didacta, panorama que está em vias a mudar: “Ainda não tenho formação de maestrina. Aprendi muito praticando com a banda, fui crescendo com ela. Mas chegamos a um ponto em que precisamos de aprender mais. Eu nunca estudei no conservatório, não tinha bases teóricas nenhumas. E agora noto que para ir até certo ponto, a boa vontade e o estudo em casa chegam, mas a partir daí já é preciso mais qualquer coisa. Estou a fazer agora um curso de Direcção de Banda e Coro, no Orfeão Foz Douro, do Porto. O curso funciona aos sábados de manhã, vou presencialmente uma vez por mês, e tem estágios de fins-de-semana mais intensivos”, conta Andreia Carreira.

Como é que se gere tanto sem deixar nada para trás é a pergunta que todos nos colocamos quando conhecemos o percurso de Andreia que, sem grande stress, nos responde: “Vamos tentando que não fique. Umas semanas fica uma coisa para trás, na outra ficam outras. É isso que distingue as mulheres, essa capacidade de multitasking. Há coisas da Nabantina, que vou organizando no caminho para o trabalho. Como vou organizar o concerto, que peças vamos tocar... Ouço as peças em casa com o meu, filho Henrique, que também gosta de ouvir, ou ouvimos as peças no carro. As viagens dão muito para isso”.

Mas atrás de uma grande mulher também há um grande homem, e Andreia Carreira admite que sem o apoio do marido, provavelmente não conseguiria estar em tanta frente: “O ter um marido envolvido no meio ajuda. Discutimos muito as coisas, quando não consigo ir dar uma aula, vai ele, por exemplo. Ele é músico, toca nas duas bandas. Quando eu entrei na Nabantina ele teve de entrar comigo. Ser maestro não é só ser maestro. Temos de dirigir a escola de música, que garante o futuro da banda. Eu não podia meter-me nisso sozinha na altura a fazer 40 horas semanais no Centro de Saúde. Sou médica de família, fiz especialidade em Leiria e fui para Ourém. Na altura estava a fazer a especialidade, a trabalhar, a fazer os exames da especialidade. Para me meter num projecto destes, tinha de ter apoio. Decidimos então que entrávamos e que ele me ajudava na escola. Só assim é que é possível. Se ele não estivesse envolvido, também não perceberia tanta hora minha fora de casa. Assim, estamos os dois. Os três. O Henrique fica com a minha mãe quando são coisas que ainda não aguenta, mas já fez serviços da banda comigo. Tinha um mês quando fez a primeira arruada. Tem agora 17 meses”!

Quando integrou a banda da Mata, em 1992, eram apenas seis mulheres na filarmónica, entre muitos homens. Actualmente, em 45 músicos, apenas 15 são rapazes. Foi a primeira mulher a dirigir a Nabantina e uma banda em todo o concelho de Tomar. No distrito, há já algumas. Na banda do Outeiro esteve a Luzia Rocha e na Mata está, actualmente, uma mulher que antes esteve 10 anos na Filarmónica de Vilar dos Prazeres.

Ao longo de toda esta sua experiência, nunca se sentiu posta em causa, muito menos por uma questão de género: “Sou uma pessoa positiva e optimista, não perco muito tempo a pensar no que as outras pessoas pensam. As pessoas já compreenderam que as mulheres conseguem fazer as mesmas coisas que os homens, desde que se dediquem a isso. Até penso ser mulher pode é facilitar um pouco, porque para já as pessoas de fora acham piada. A única coisa que notei diferente em ser mulher foi quando tive o Henrique. Se fosse homem não tinha tido necessidade de parar. Como sou mulher, por motivos biológicos, tive que parar um período, mesmo assim curto. Aí não havia hipótese, não podia passar a bola a ninguém”, riu.

Com um ritmo de vida alucinante, Andreia não descarta a hipótese de abrandar, mas quando chega a hora da verdade…: “Imagino várias vezes como seria um dia de trabalho, casa, casa, trabalho. Todos os anos passo uma fase em que penso que vou deixar isto tudo, descansar mais e passar mais tempo em casa. Mas depois penso nas saudades que vou ter e desisto. Assim, em vez de deixar a família em casa, levo-a comigo”.

Fiel à música, teve no entanto que fazer algumas opções ao nível laboral: “Fiz aí uma mudança na minha vida: desvinculei-me da função pública, estou no Entroncamento e vou dando consultas em algumas clínicas aqui na zona. Tudo isto para ter mais tempo livre para o Henrique. Fazia as urgências e não deixei as bandas nessa altura. A minha mudança profissional surgiu apenas quando fui mãe, quando percebi que o Henrique ia ser o primeiro a entrar na escola e o último a sair todos os dias. Percebi que não era isso que queria para ele. Porque até aí conseguia conciliar tudo. As crianças não são animais de estimação. Queremos que sejam equilibrados e que passem mais tempo connosco do que no infantário. Se conseguirmos. Foi uma opção pensada. As pessoas têm medo de deixar a segurança. Eu se não trabalhar, não ganho, a nível económico também está mais complicado, mas temos que pensar que o dinheiro não é tudo”.

Apesar de adorar ser médica, Andreia não se imagina a sê-lo apenas (como se isso só por si não fosse já enorme): “Todos nós temos o nosso trabalho. É bom que gostemos do nosso trabalho e eu gosto muito de ser médica, mas é positivo para a nossa vida termos outras áreas na nossa vida que nos apaixonem. Serve para recarregar baterias para o resto que pode ser menos bom na nossa vida. Gosto muito de música, mas sou verdadeiramente apaixonada pelas filarmónicas. Têm uma história enorme por trás delas, a maioria das do nosso concelho já é centenária e são todas diferentes. O desafio é tentar modernizar, melhorar, mas mantendo o cariz de cada uma. Não podemos tentar que sejam todas iguais ou parecidas com orquestras. E esse espirito de ir tocar gratuitamente, dar aulas gratuitamente, vestir a camisola, essa competição saudável, o amor à causa, é espectacular. Poder contribuir para que uma filarmónica mantenha esse espirito e consiga perdurar mais anos é ficar na história e qual é o nosso objectivo a não ser nunca mais sermos esquecidos?”

Inês Vidal

 

 

 

 

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