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Morreu Joaquim Santana, a alma dos “Camponeses de Riachos”

Sociedade  »  2021-03-01 

Joaquim Santana nasceu em Riachos, em 1934, e dedicou quase toda a sua vida ao rancho folclórico “Os Camponeses”. Foi trabalhador do campo, depois funcionário autárquico na câmara de Torres Novas, onde chegou a responsável da área das águas e saneamento, mas toda a sua vida foi vivida em prol de uma paixão: “Os Camponeses”, que fundou de quem foi dirigente máximo durante décadas. Foi galardoado com a medalha de mérito do município, nos anos 90, e em 2017 passou também a ser nome de rua, junto ao Centro de Saúde, na vila de Riachos. Nessa oportunidade, deu uma entrevista ao JT, uma retrospectiva da sua vida. Em jeito de homenagem, aqui reproduzimos, hoje, essa entrevista.

 

Era um jovem de 24 anos quando se oficializou a formação do rancho folclórico de Riachos. Provavelmente os primeiros passos foram dados anos antes, quando era ainda mais novo… O que o levou a meter-se nestas andanças?
Naquela altura não havia quase nada em Riachos. Houve uma coisa interessante, até ao ano de 1957, uma paródia de Carnaval: havia vinte e tal homens, metade dos quais vestia-se de mulher, com os trajes das suas mulheres ou das suas mães, e bailavam umas coisas no Carnaval, que era organizado por um homem muito interessante de Riachos, o senhor Martinho Nobre. Era um trabalhador rural mas com uma imaginação extraordinária. Eu apreciava a vontade que ele tinha em fazer coisas. Constou nesse ano que se zangou com o grupo e disse que não voltaria a organizar aquela paródia. Então, um grupo de rapazes pensou em fazer uma marcha de Carnaval, mas com rapazes e raparigas. Éramos dois ou três, começámos a pensar a sério, e como não tínhamos sítio para ensaiar falamos com a direcção da banda filarmónica, que nos emprestou desde que não prejudicássemos os ensaios. Ensaiamos, alguns desses rapazes também eram músicos, e com grande dificuldade conseguimos arranjar dez raparigas. Foi muito difícil porque os pais não consentiam brincadeiras de Carnaval com raparigas. Foi mesmo muito difícil.

Mas conseguiram?

Sim, eu pertencia a uma família bem comportada e confiaram em mim e no Martinho “Ginete”. Arranjámos as dez raparigas e com mais dez rapazes formámos a marcha, que não tinha nada de folclore. Eu fiz a coreografia para duas marchas de Lisboa e um “corridinho” do Algarve, e no Carnaval de 1958 apresentámos aquelas três danças com trajes de fantasia, especialmente no caso das raparigas. Nos rapazes já se via alguma coisa, usando eles fatos de noivo dos seus pais. Foram três dias de grande festa para nós, ficámos entusiasmados e já nos consideravam como grupo de folclore, mas de folclore não tínhamos nada.

E alguém os incentivou a continuar, foi isso?

Sim, desafiaram-nos a não parar. Eu não sabia nada de folclore, o Martinho não sabia nada de folclore, o João da Vaca e Carlos Simões também não. Até que veio um ensaiador que esteve connosco três meses. Mas ele sabia tanto de folclore como nós. Não sabia nada, não era de cá e não sabia nada sobre Riachos. Apenas tinha dançado num rancho em Póvoa do Varzim. Esteve cá três meses, ao fim desse tempo falou-se que ou o rancho acabava ou para continuar as coisas tinham de mudar. E com a ajuda de pessoas que sabiam alguma coisa de folclore começámos nós a fazer recolhas de danças e cantares mas nem tocávamos no traje, naquela altura. Isto passou-se em 1958 e no final do Verão desse ano apresentamos três ou quatro números de folclore que ainda hoje dançamos, e o rancho seguiu por aí fora até aos dias de hoje.

Mas de onde veio a orientação que levou o grupo para os patamares de qualidade que alcançou?
Em 1959, para comemorar um ano de trabalho fizemos uma festa e várias pessoas disseram-nos que havia coisas que tinham de melhorar. O Fernando Cunha, que era vice-presidente da câmara, e o dr. José Marques, eram pessoas entendidas e ficaram de trazer a Riachos o Celestino Graça para nos ajudar a melhorar. Havia coisas boas mas havia muita coisa má, e assim foi. Estávamos em Março e já se estava a fazer recolhas quando Celestino Graça e dois amigos vieram de Santarém. Disseram-nos logo que os trajes das raparigas não prestavam e sugeriram que fizéssemos mais recolhas. Se conseguíssemos melhorar os trajes seríamos convidados para actuar na Feira do Ribatejo, em Junho. Fizemos as recolhas, comprámos os tecidos em Santarém, nos armazéns que nos indicou, e fomos à feira de Santarém em 1959. Daí para a frente não parámos mais. 1960 foi ainda um ano muito difícil mas ainda participámos num festival internacional. Agarrámo-nos ao folclore com toda a vontade, estudamos as características do povo de Riachos, pois não era possível trabalhar sem antes estudarmos os nossos antepassados.

Com certeza não havia muita coisa escrita. Como é que fez o levantamento dessa informação?

Conversando com pessoas. O nível cultural de Riachos não era muito grande mas havia meia dúzia de pessoas que sabiam umas coisas. Eu vinha de uma família popular em Riachos e as pessoas aceitavam com facilidade falar comigo. Além disso eu trabalhava no campo e contactava diariamente com pessoas do meio rural que me ensinaram coisas espectaculares e que me valeram muito. Foram testemunhos importantíssimos... Sem escada ninguém sobe e eu fui ajudado por essas pessoas. A maioria não sabia ler nem escrever mas tinha uma experiência de vida espectacular.

Conserva esses registos, esses depoimentos que recolheu?

Sim, tenho muita coisa.

Mas em que momento, exactamente, o Joaquim Santana ficou sensível para a temática do folclore?

Em 1953, quando tinha uns 18 anos, vi dois grupos na festa da Bênção do Gado, dois grupos completamente diferentes um do outro, mas que me entusiasmaram. Era o Tá-Mar da Nazaré e o grupo Flores de Pombal. Mas só em 1958 é que a palavra folclore começou a despertar para mim, depois das marchas de Carnaval que organizámos. Comecei a ler coisas escritas por pessoas importantes, como Gonçalo Sampaio e muitas outras que estavam já a trabalhar no folclore.
Comecei a estudar Riachos - sem nunca conseguir ir à Torre do Tombo - conversei com muitas pessoas com 70 ou 80 anos. Pessoas que tinham vindo do século XIX. Agarrei-me com muita força a isto.

Recorda-se de algum testemunho especial?

Tudo importante para mim. Havia homens a trabalhar para o meu pai e com quem eu também trabalhava e que me contavam coisas extraordinárias. Houve um que tinha sido companheiro de dois grandes campinos numa casa agrícola e que me contava coisas impressionantes sobre toiros, e que se passavam no campo: o momento do nascimento, a desmama, a pastagem... aquelas coisas entusiasmavam-me. Depois vieram as danças, aos cantares e os trajes.
Também tive a sorte de ter uma mãe que nasceu no século XIX e de se recordar como se ela e as irmãs se vestiam. Tudo isso ajudou-me a desenvolver o trabalho que estava a fazer. O testemunhos dos poucos intelectuais que havia em Riachos, para mim foram homens excepcionais. As outras pessoas, homens e mulheres que, sem saberem ler nem escrever, tinham uma experiência de vida fantástica e contaram-me coisas espantosas das suas vidas.

Falou da paródia de Carnaval que organizou e em que participaram algumas raparigas. Sente que contribuiu um bocadinho para a evolução das mentalidades das pessoas de Riachos?

Com certeza que sim. Nenhuma dessas raparigas estudava: umas estavam em casa como domésticas mas a maioria das raparigas com 13 e 14 anos já passavam pelo campo, para guardar ovelhas ou enxotar os pardais numa seara de trigo. E desse primeiro grupo que se juntou no Carnaval de 1958 apenas um rapaz estudava, quase todos trabalhavam no campo e dois ou três eram operários.

Lembra-se como convenceu os primeiros componentes a integrar o rancho? O que lhes disse e qual o perfil das pessoas a quem se dirigiu?

Não era difícil arranjar rapazes, mas ter a autorização dos pais para trazer raparigas para dançar é que não era fácil. Ver numa brincadeira de Carnaval um rapaz e uma rapariga de 17 ou 18 anos juntos era um problema grave. Foi com grandes dificuldades que conseguimos. O Martinho já era adulto, os outros eram da minha idade, mas pessoas confiaram. Mas foi muito difícil, mas passou a ser melhor nos anos seguintes. Contudo, bastava que uma rapariga começasse a namorar para já não ter autorização para regressar.

Ao longo de todos estes anos muitas gerações de pessoas passaram pelas suas mãos. Além de ensinar danças que valores procurou transmitir a toda esta gente?

Acima de tudo esteve a disciplina. Para mim, a disciplina foi das coisas mais importantes que esteve grupo teve. Consegui impor a disciplina e atrás dela vem tudo o resto. O chegar a horas, ou antes da hora, o saber comportar em qualquer lado como gente adulta, foram pormenores que me pareceram importantes e que nos permitiram chegar onde chegámos. Penso que também procurar transmitir o gosto que é bailar as coisas dos nossos antepassados. Foi preciso transmitir essas coisas e acho que contribuíram para que pessoas que tivessem mantido no grupo 20, 30 e 40 anos. Se não tivessem um gosto enorme pelo que faziam, então não teriam cá estado tanto tempo. Agora, uns receberam melhor e outros pior... passaram por aqui centenas largas de pessoas

Hoje, como imagina a sua vida se, naqueles anos, não tivesse estado na criação de um rancho folclórico. Que outra actividade o poderia ter preenchido?
Não sei, talvez me tivesse metido noutra coisa. A minha maneira de ser é estar em actividade e cheguei a ser convidado para pertencer a outras associações mas nunca aceitei. Eu queria lutar por esta causa e para que o rancho fosse aceite pelas pessoas tínhamos de ir longe. Não é por caso que somos vistos de uma maneira especial a nível nacional. Podem dizer que o folclore é cultura do povo, que não é bem recebida, mas a cultura popular é extraordinária. As tradições populares são maravilhosas e são cegos os que acham que o folclore é uma cultura pobre. Repare, no meio folclórico do país, onde há grupos muito bons, bons e maus, há um movimento de juventude impressionante.

Passados estes anos todos, alguém entendeu que lhe era devida uma homenagem, homenagem essa que se traduziu na atribuição do seu nome a uma rua da sua terra. Como recebeu a notícia?

Tenho sido homenageado várias vezes. Ainda no ano passado fui homenageado pela Confederação Portuguesa das Colectividades pelo trabalho que desenvolvi ao longo de 58 anos numa associação. Já tinha recebido a Medalha da Cultura pela câmara municipal, a junta de freguesia de Riachos já me tinha homenageado. Houve uma coisa que receei, quando o presidente do NAR me perguntou se podia pintar a minha imagem numa parede (junto à Casa do Povo). Gostei imenso da lembrança do NAR mas tive medo e pedi-lhes que falassem com os meus filhos, e se eles autorizarem, com certeza. Ando aqui há 60 anos mas tenho receio que as pessoas não gostem ou que critiquem. No início de 2017 o presidente da junta de freguesia veio ter comigo e disse-me que a junta me queria homenagear e atribuir o meu nome a uma rua. Respondi-lhe que era uma exposição muito séria mas, em todo o caso, voltei a dizer: “falem com os meus filhos”. Eles autorizaram e agradeceram a homenagem. Se gostei? Quem não gosta. Foi um sentimento extraordinário e especial o que senti no dia da homenagem. Gostei de ouvir as pessoas a falarem de mim, dou nome a uma rua interessante e fiquei deveras agradecido à junta de freguesia. É um encanto enorme.

Quais são as memórias mais antigas que tem da sua meninice. Como era Riachos, que tipo de roupa usava, como era a casa em que vivia…

Foi uma infância normal e posso dizer que nunca andei descalço. Na escola a maioria ou a quase totalidade dos meus colegas andava descalço; no Inverno tinham de pisar poças de água e andar sobre a lama porque as ruas eram em terra batida. Eu tive o privilégio de os meus pais nunca me deixarem andar descalço.
Eu e os meus irmãos tivemos uma infância razoável. Nunca passei fome como muitos dos meus colegas, andava normalmente bem vestido, mas sem luxos. Isso não havia lá em casa.

Como se definia enquanto criança. Era um miúdo sossegado?

Era o mais novo e, portanto, o menino da casa. Aos 9 anos tive um grave problema de saúde e imenso tempo sem ir à escola. Era um miúdo magro, fraco fisicamente, e quando comecei a trabalhar os meus irmãos poupavam-me em tudo o que podiam. Todos os trabalhos duros eram para os meus irmãos e para as pessaos que trabalhavam para o meu pai. Para mim ficavam os trabalhos mais leves. Eu não pegava em sacos de trigo ou em fardos de palha para atirar para cima do carro. Ia eu para cima o carro consertar os fardos... Os meus irmãos facilitaram-me enormemente a vida no campo.

Fez a instrução primária, e depois?

Fiz a instrução primária em Riachos e o exame da quarta classe em Torres Novas, na escola de Salvador, aos 11 anos. Em Setembro fiz os 12 anos e vim para o campo trabalhar à frente de uma junta de bois. Era o “moço dos bois”. O meu pai, que era um Cingeleiro e trabalhou no campo quase a vida toda, comprava juntas de bois e era preciso ensinar os animais a trabalhar. Andava eu, o “rapazeco”, à frente dos bois. Aos 15 ou 16 anos peguei numa parelha de mulas para trabalhar à vontade com elas, aos 17 anos como boieiro e aos 25 passei para o tractor. Trabalhei ao lado de trabalhadores rurais e a minha grande vivência foi com estes homens e mulheres. Eu adorava trabalhar com eles e isso não se esquece. Não pensava em folclore e só queiram ouvir as suas histórias, de pessoas muitas vezes mal tratados, com apenas um pão e um pouco de bacalhau. Enriqueceram-me essas pessoas.

Trocou o trabalho do campo pela carreira na função pública aos 30 anos. Porquê?
Nos anos 60 a agricultura estava péssima e como já não dava para três irmãos e o pai, um tinha de sair. Saí eu, que era o mais novo. Consegui ir para leitor cobrador da câmara municipal de Torres Novas para onde entrei no dia 2 de Novembro de 1964.

Onde esteve até se reformar?

Sim. Confesso que no princípio foi difícil. Trabalhar num câmara, com horários e colegas diferentes, fez com que os primeiros meses tivessem sido difíceis. Quando passo de leitor-cobrador para a secretaria de águas, começo a entusiasmar-me com todo o sistema de Torres Novas. Apenas de Torres Novas, porque nas aldeias o que havia era fontanários. A distribuição ao domicílio era só em Torres Novas. Comecei a estudar todos os pormenores, no arquivo e adorei. Estudei tudo o que podia haver sobre águas e saneamento no concelho. Tive pessoas que me ajudaram e ainda hoje penso no trabalho que fiz na câmara de Torres Novas. Chefiei durante mais de 25 anos os sectores da água e saneamento, primeiro o das águas e depois os dois, que se juntaram. Penso que fiz um trabalho excepcional e foi um orgulho enorme trabalhar durante 36 anos, três meses e cinco dias na câmara.

Foi chamado para cumprir serviço militar?

Escapei ao serviço militar. Quando fui às sortes era tão magrinho, mas tão magrinho, que fiquei livre do serviço militar. Pesava 56 quilos. Era alto mas um magricela. Eu, como alguns, ficámos livres porque não tínhamos físico. Entretanto começou a guerra em África mas passados dois ou três anos fiquei livre.

No seu tempo ia-se “às sortes” onde?

Era no quartel de Cavalaria de Torres Novas. Depois passou a Artilharia e agora é a Escola Prática de Polícia.

Esteve lá apenas um dia?

Sim, éramos uns 40... foi um dia de paródia.

Casou-se com 29 anos. Como foi a cerimónia do seu casamento? Recorda-se da comida?

A festa do casamento foi um festa tradicional de Riachos, em casa, com seis ou sete pratos: uma canja, couves com carne, que hoje tem um nome pomposo - cozido à portuguesa -, um guisado de borrego, sopas de fressura, esses pratos típicos... bolo de cabeça, arroz doce. Foi imensa gente. Casei com um menina que veio de Lisboa, e vieram muitos convidados de lá, que ficaram admirados com um banquete daqueles, mas para nós era um casamento corriqueiro. A comida foi feita por uma cozinheira, Maria Rocha, ajudada por outras cozinheiras. Era muito famosa nos casamentos em Riachos.

Há muito que tem vindo a delegar funções no rancho de Riachos. Qual é o futuro, ou qual gostaria que fosse o futuro deste grupo?

Há três anos tive, e tenho, um problema de saúde grave. Nessa altura, em 2014, andávamos a preparar um espectáculo para o Teatro Virgínia, e os ensaios foram terríveis para mim. Foi uma machadada enorme. Falei com os componentes do grupo no final do espectáculo e contei-lhes o que se estava a passar. O ambiente no camarim foi terrível.

Nessa altura, e porque podia ter de parar de um momento para o outro, começo a fazer o que já tinha feito antes: preparei várias pessoas mas falharam sempre. Perguntava-me como resolver isto e, sonegadamente, começo a atirar para os outros. Parece-me que, se sair agora, o grupo continua, se calhar num sistema diferente de como funcionava comigo, como já está nesta altura. Mas o grupo está com uma pujança extraordinária. Há uma pessoa a tomar conta da parte administrativa, parecendo que não, quase todos os dias há necessidade de tratar de coisas. Eu já não era capaz de o fazer. Fui entregando e estamos a trabalhar, quando posso vou com o rancho e quando não posso, não vou.

 

 

 

 

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