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Um médico torrejano no olho do furacão do covid na Catalunha

Sociedade  »  2020-08-19 

“Em Espanha as medidas foram muito tardias. A prioridade foi sempre económica”

 

Luís Fagulha tem 38 anos, é natural de Torres Novas, médico na Catalunha e testou positivo à Covid-19 em Março de 2020. Ele e muitos dos seus colegas, que não tinham equipamentos de protecção individual capazes. Numas curtas férias na terra natal, arranjou tempo para contar ao JT o que viu nos corredores do hospital de Lérida, onde trabalha, uma das cidades onde arrancou o novo pico de contágios desta primeira fase do vírus que parou o mundo. Luís Fagulha quer, com o seu testemunho, garantir que as pessoas não esqueçam os momentos que fizeram colapsar os serviços de saúde em países como Espanha e alertar para a necessidade de cumprir as regras deste novo normal.  

Luís Fagulha nasceu em Torres Novas no ano de 1982, filho de Isabel Fagulha, professora de matemática e do conhecido radiologista dr. Fagulha, com consultório na Rua Artur Gonçalves, naquele imponente edifício de azulejos amarelados que faz esquina com as escadas que dão acesso à praça 5 de Outubro. Não tem dúvidas de que foi nesse tempo, em que cirandava pela sala de espera do consultório do pai, que herdou o bichinho da medicina.

Fez o 12.º ano na Escola Secundária Maria Lamas e seguiu para Coimbra, onde completou o bacharelato em biologia. Mas era medicina que queria e, em 2006, candidatou-se à Universidade da República Checa, onde ingressou. Findo o curso, sem querer voltar para Portugal, pois tinha ambições de aprender uma nova língua e mudar de ares, surgiu oportunidade de ir para Oviedo, Espanha, onde esteve um ano para fazer o exame da especialidade em anestesia e reanimação. Já especialista, foi colocado no Hospital de Lérida, onde se encontra há quatro anos.

Enquanto anestesista, trabalha tanto nos cuidados intensivos como no bloco operatório. Durante este período de pandemia juntou-se à “linha da frente” e conta que a realidade que se viveu foi bem pior do que pareceu pela televisão: “Gostava que as pessoas tivessem noção do que foi a realidade nos hospitais espanhóis durante os meses de Março e Abril. Foi muito diferente do que se passou em Portugal. E o que eu vejo é que as pessoas não têm real noção do que se passou e que é muito fácil esquecer”, conta Luís Fagulha.

À pergunta sobre o que é que nós não vimos, o médico torrejano conta o que também não queríamos ter ouvido: “Hospitais completamente colapsados, com alas onde não havia uma parede que não tivesse uma cama. Tínhamos ordens de enviar para casa os pacientes com mais de 65 anos... para morrer. Internávamos pacientes com idade inferior a essa e que tivessem alguma probabilidade de sobrevivência. Tínhamos umas certas escalas e decidíamos em função delas. Houve 30 mil mortos em Espanha, mas esses pacientes quase nem tocaram os cuidados intensivos. Estavam excluídos à partida e seriam doentes que, em grande percentagem, com o cuidado devido, sobreviveriam. Mas não havia meios. Nós, desde início de Janeiro, já tínhamos sinais do que vinha. O governo espanhol foi avisado por um epidemiologista para se preparar, comprar material... não o fez”, lamentou.

Também Luís Fagulha acabou por ser vítima dessa falta de meios: “Eu estava nos cuidados intensivos e fui dos primeiros médicos a contagiar-me lá. Foi no dia 8 de Março. Estava a ventilar um paciente, não tínhamos equipamentos de protecção individual (EPI) capazes e, mais tarde, comecei com dor de cabeça, perda de olfacto, dificuldade em respirar. Fizeram-me o teste PSR, deu positivo e estive em casa durante 14 dias. No dia 9, era suposto ter ido ver doentes presencialmente. Enviei um e-mail à direcção a dizer que não achava correcto fazê-lo, que deveria haver uma despistagem, ao que me responderam que se não visse os doentes presencialmente iria contra as regras do hospital, o que poderia ter consequências legais. De qualquer forma, eu não vi pacientes nesse dia. Liguei a todos. Metade estava com tosse”, recorda.

Foi exactamente por essa altura que se deu a escalada e o colapso do serviço de saúde espanhol: “Até chegarmos ao ponto de haver material de protecção suficiente, passou mais de um mês. Todos os países estavam a tentar comprar o pouco equipamento que havia disponível e muitas vezes andavam a comprar equipamento que não era bom, que não estava testado, o que também ajudou a levar à catástrofe que vivemos lá. Tivemos colegas que morreram. Colegas que estavam sujeitos a uma carga viral enorme, porque já se percebeu que as consequências estão ligadas à dimensão da exposição à carga viral. Se estás mais exposto, terás consequências mais graves. E passamos por tanto caso, tanto tempo e sem qualquer protecção. Além disso, havia um contágio intra-hospitalar importante. A direcção do hospital decidiu não fazer testes de despistagem aos trabalhadores, porque não queria que estes deixassem de trabalhar. Nós contagiámos pacientes de certeza”, assume, enquanto deixa a crítica: “Foram medidas muito tardias. A prioridade foi económica, como em todo lado, mas ali foi muito evidente. E isso levou a um grande número de infectados”.

Espanha, hoje

A fase mais crítica em Espanha passou. Pelo menos, para já: “No meu hospital, os pacientes internados já estão a começar a diminuir. Parece que já chegámos ao pico do novo grau de contágios e já estamos de novo a descer, o que é muito bom sinal. Os cuidados intensivos não estão colapsados, mas as camas de internamento sim. Há muito trabalho para medicina familiar, medicina interna, mas nos cuidados intensivos estamos bastante bem. Claro que temos de manter as cautelas. A histeria pública foi exagerada, mas tem de ser assim. As pessoas estavam a esquecer o que vivemos, mas nas duas últimas semanas voltaram a ser cuidadosas, porque começaram a ver de novo os casos a aparecer. Houve um confinamento territorial em Lérida e algumas cidades da Catalunha e isso voltou a fazer as pessoas consciencializarem-se de que o cumprimento das regras está de mão dada com as liberdades que lhes vão dar. Mas é muito triste ter de haver uma repercussão, para as pessoas cumprirem as medidas de prevenção”, encolhe os ombros Luís Fagulha.

O padrão deste novo pico, na Catalunha, tem contornos diferentes do primeiro, relata: “Neste segundo pico, os doentes são mais jovens. A faixa etária dos pacientes em camas de internamento é bastante mais jovem, e por isso não há uma repercussão nos cuidados intensivos. Não chega a tanto. Quanto mais idoso o paciente, maior a probabilidade de ser um paciente crítico e acabar nos cuidados intensivos”, explica.

Há duas causas identificadas para este novo pico da primeira fase, na Catalunha. Por um lado, segundo relata Fagulha, o ócio nocturno, as festas onde para beber é preciso andar sem máscara e onde o distanciamento social nem sempre é cumprido. Por outro, ainda de acordo com palavras do anestesista, devido aos trabalhadores sazonais de colheita de fruta, oriundos do norte de África e que se instalam em Espanha entre Março e Outubro: “Já se sabia que viriam. São trabalhadores que vivem às dezenas, basta um contágio para contagiar todos. Houve grandes focos aí que não foram prevenidos e deveriam ter sido”, critica.

 O caso português

O caso de Portugal fez manchetes por essa Europa fora. Se no início da pandemia era tomado por alguns como exemplo na gestão da crise, actualmente é considerado por outros como um mau destino, devido ao número de casos que continua a surgir. Luís Fagulha, um português a viver no estrangeiro, ainda por cima nos corredores dos hospitais, não tem dúvidas de que Portugal foi um exemplo a seguir durante a pandemia: “Portugal accionou o estado de emergência quando ainda não havia nenhuma morte. Em Espanha, já havia mais de mil mortes quando o fizeram. Temos de accionar o estado de alarme antes das 100 mortes, para poder ter uma estratégia efectiva e evitar o contágio massivo”.

Além disso, as pessoas em Portugal cumprem. É, pelo menos esse, o entendimento de Luís Fagulha, depois do que viu neste regresso a casa: “Reparo que em Portugal, que teve poucos casos, as pessoas usam máscara, mantêm-se distantes, cumprem as regras. Não vemos isso na Catalunha, que já viveu tanto. Esperava chegar aqui e ver as pessoas mais à vontade, porque podem, mas mesmo assim cumprem”, elogiou.
Fagulha enumera mesmo alguns casos práticos, de como Portugal soube agir: “Em Portugal existe o trace covid: equipas médicas que localizam focos e pequenos contágios e fazem o seguimento das pessoas. É importantíssimo e é uma grande estratégia. Em Espanha não foram contratadas pessoas para este tipo de trabalho. Lá, continuamos a ir atrás do prejuízo”, conta.

Afinal, parece que ser português ajudou: “Lidamos bem com momentos de dificuldade, gerimos bem e funcionamos bem sem recursos, criando recursos de última hora. Somos desenrascados e isso ajudou”, elogiou Fagulha.

 Segunda vaga

Muito se fala de uma nova vaga de Covid-19. Luís Fagulha antevê que esta aconteça em Outubro e que será bem pior do que a primeira: “A segunda onda será mais forte em número de casos e em agressividade de sintomas, uma vez que a temperatura afecta a transmissão externa. O vírus aguenta menos tempo com este calor e com os raios UV. Quando fizer frio, a transmissão nas ruas aumenta. Ao aumentares a transmissão, também aumentarás a carga viral que está presente e isso condiciona os sintomas. Os pacientes graves vão aumentar”.

 Hábitos pós-Covid

Independentemente do que ainda está para vir, esta foi uma viragem no mundo e na forma como o vivemos. O médico torrejano espera que os hábitos que agora aplicamos acabem por ficar: “As pessoas têm de saber que não podemos voltar ao que era antes. Temos de fazer o distanciamento social e usar a máscara sempre que possível. É algo que teremos de tomar como a nova normalidade. Não digo que devamos manter o distanciamento social, porque somos animais sociais e é importante voltarmos a esse tipo de intimidade, porque faz parte da nossa cultura, que nos permite uma vida mais saudável, mas a nível de higiene pessoal temos de aprender bastante. Temos de encontrar um equilíbrio entre medidas, economia e saúde mental. Algum contágio terá sempre de haver. Terá de ser um equilíbrio muito bem medido”.

Fevereiro: o dia que todos esperamos

Apesar de melhorias evidentes, a verdade é que o Covid-19 continua a circular entre nós. Só o aparecimento de um tratamento eficaz ou de uma vacina controlará esta epidemia: “Vamos ter períodos com aumentos de casos até termos a vacina ou aparecer um tratamento eficaz. Os últimos resultados da fase três da vacina de Oxford foram muito bons. Eu achava que só para o verão de 2021 haveria vacina, mas agora acredito que em Fevereiro esta possa ser possível”.

Até isso acontecer, o segredo é não esquecer o que foram os últimos meses: “A minha mensagem é que não se esqueçam. Espanha viveu tempos de guerra. Houve pacientes que morreram porque não tínhamos tempo de os ver e houve outros que nem foram atendidos. As pessoas, quando não cumprem as medidas, deveriam pensar nisso. Não a viveram, parece outra realidade, mas aconteceu e depende de nós. Há medidas muito simples, mas muito eficazes que podemos aplicar, como o distanciamento, a higienização das mãos e o uso da máscara”.

Entrevista de Inês Vidal

 

 

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