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João Espanhol: morreu um homem grande, Torres Novas fica mais pobre

Sociedade  »  2019-02-09 

Funeral deverá ser na segunda-feira, dia 11

Hoje, dia 9 de Fevereiro, sábado, durante a tarde, calou-se a voz de João José Lopes (“João Espanhol”), um torrejano de vulto, cidadão excepcional, militante apaixonado, artista reconhecido no seu tempo, a voz que na década de 50 encantou públicos exigentes e que, por mais quase 50 anos, animou milhares de bailes e festas. Calou-se a voz que ecoou forte na praça da cidade durante dezenas de Abris.

Nasceu em 1929 no bairro de Santiago, e cresceu menino pobre. No início dos anos XX, chegara a Torres Novas o cidadão espanhol Juan Lopez, com a sua roda de amolador, depois de uma temporada em Mira de Aire, onde conhecera a mulher que com ele havia de casar. Era de Laña del Monte, perto de Orense, na Galiza.

Quando Juan Lopez morreu, em 1940, a pobreza assolava o país, a vila e em especial aquela família. Com 11 anos, João José Lopes não teve outro remédio: no dia seguinte ao enterro do pai, a mãe entregou-lhe a chave da loja e ele foi abri-la. Começou a trabalhar na loja. Onze anos e a sustentar a família. Não parou até Maio passado. Foram 78 anos de trabalho ininterrupto, naquela que era uma das mais antigas lojas de Torres Novas. Quando fechou definitivamente as portas da Casa Espanhol (a mulher Celina, morreria três dias depois), João José Lopes era ele próprio o comerciante mais antigo da cidade.

Pelo meio, o “Canja” para os amigos maís íntimos, teve uma vida cheia como poucos homens podem dizer que tiveram. Muito novo, denotou dotes vocais de excepção e começou a frequentar tertúlias e a animar serões e serenatas. Cantou no Orfeon Torrejano. Em 1952, foi o grande vencedor do consurso nacional “À procura de uma estrela” e ingressou na companhia artística de Igrejas Caeiro como cantor profissional.

Com a detenção daquele antigo militante socialista e a extinção da companhia, por ordens do governo salazarista, João José Lopes regressou a Torres Novas e fundou o conjunto Níger, em meados dos anos 50. Foi a voz do prestigiado agrupamento musical torrejano durante mais de quatro décadas.
Militou em colectividades torrejanas, era até hoje o sócio vivo n.º 1 do Clube Desportivo de Torres Novas. Destacou-se no Cine-Clube, onde com outros amigos se empenhou na resistência cultural e política, e também no Montepio de Nossa Senhora da Nazaré.

A “loja do João Espanhol”, por seu lado, não era apenas um espaço comercial. Foi desde sempre uma tertúlia aberta à passagem diária e ao convívio de amigos, muitos, que o João Espanhol tinha. Desde o início dos anos 70, ali se alinhavam as pequenas conspirações da luta contra o regime: a Casa Espanhol era uma espécie de sede autorizada da oposição. Com a democracia, passou a ser igualmente um entreposto logístico do PCP, de que nunca o João Espanhol escondeu simpatias. Ali se ia buscar o “Avante” ou as entradas para a festa, na loja se faziam inscrições para os almoços do 25 de Abril, ali o “Canja” tinha uma espécie de capelinha dedicada aos políticos da sua devoção, com cartazes e retratos de Álvaro Cunhal ou Fidel Castro.

Este cenário politizado nunca foi impeditivo para os amigos do João Espanhol: sabiam-no um homem de convicções mas, mais que isso, um homem de grande generosidade, amigo dos seus amigos. Com ele, o abraço, a amizade e a alegria de viver estavam primeiro que a política. Por isso trabalhou tanto e teve tantos amigos e tanto reconhecimento em vida, uma vida longa de quase 90 anos.

Torres Novas perdeu um homem de enorme dimensão cívica, que o munícípio reconheceu quando há poucos anos lhe atribuiu a medalha de mérito de cultura. João Espanhol deixa atrás de si um extraordinário exemplo de quanto é possível fazer quando se ama a vida e a liberdade, mesmo nascendo em berço pouco afortunado e enfrentando, na infância, perseguições e exclusões.

A família, em especial a sua filha Dulce, os netos, irmão e também as sobrinhas, têm no “João” um exemplo de uma vida que fica como um indelével património de todos os seus próximos. Os amigos, que eram muitos e dedicados, em Torres Novas e em terras em redor, vêem partir um gigante dos afectos, do contentamento, da gratidão, da generosidade.

A todos, os JORNAL TORREJANO manifesta o seu pesar.

PS – Por uma vez, o escriba desta linhas sai dos limites da distância e da contenção jornalística para dizer que foi para outras paragens uma das pessoas que mais o marcaram na vida e que foi, sempre, um exemplo maior. Mais que um amigo, um grande amigo, o João era da família do coração. Vai continuar a ser.
J.C.L.

 

 

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