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Joana Pintassilgo, técnica de informática: “Já não se nota tanto o desconforto dos homens na relação profissional”

Sociedade  »  2019-01-21 

A informática já não é, como tantos outros, um mundo só de homens

 

Joana da Silva Pintassilgo tem 41 anos e é natural de Torres Novas. Formou-se como técnica profissional especializada em tecnologias de informação e comunicação. Isto, há vinte anos, numa altura em que não era usual encontrar muitas mulheres na informática.

Foi durante vinte anos funcionária pública neste ramo. Há um ano resolveu mudar de vida: vive actualmente no México, onde trabalha na produção de serviços de webdesign, fotografia e vídeo. Não tem dúvidas que durante anos as mulheres foram discriminadas na sua profissão, mas acredita que esse é um tempo pretérito mais que perfeito.

 Joana Pintassilgo tem um percurso que espelha bem a evolução feminina que tentamos aprofundar com estas entrevistas. Iniciou a sua carreira aos 18 anos como técnica de informática, há mais de vinte anos, altura em que eram ainda poucas as mulheres nesta área. Trabalhava então no hospital de Torres Novas. Ao longo de quase duas décadas, acompanhou o sector desde uma altura em que as reuniões que presenciava contavam apenas com uma ou duas mulheres, entre muitos homens, até aos dias de hoje em que já é muito comum encontrar mulheres em empregos relacionados. E homens que o encaram mais naturalmente.

“Comecei a trabalhar com 18 anos no agora Hospital Rainha Santa Isabel, em Torres Novas. Na área de informática era raro encontrar mulheres. Para terem noção, num curso de aproximadamente 20 alunos, éramos apenas duas ou três mulheres, e julgo que só eu segui a área. Recordo-me que durante algum tempo quando havia reuniões inter-hospitalares ou do Ministério éramos também duas ou três mulheres. O restante pessoal de informática era todo do sexo masculino. Actualmente, com a grande diversidade de áreas que a informática engloba, já é muito comum termos mulheres no meio e já não se nota tanto o desconforto dos homens na relação profissional”, relata Joana Pintassilgo.

Durante muitos anos, Joana teve como função principal a gestão e manutenção de sistemas informáticos, bem como a assistência informática aos restantes funcionários. Acredita que houve uma altura em que ser mulher era um entrave ao seu trabalho: “Quando comecei penso que era um pouco. As chefias eram sempre homens e talvez nem sempre a nossa opinião fosse tão valorizada. O mais difícil, penso, era manter a credibilidade, no sentido de expormos uma ideia e fazer com que ela fosse aceite e reconhecida. No entanto, a nossa postura, se for a correcta, vai com o tempo eliminando esse tipo de discriminação”, acredita quem sentiu na pele.

Tudo situações que na opinião optimista de Joana se resolvem com o tempo e com muita persistência. Apenas um episódio deixa a jovem informática de pé atrás com um mundo que veste os meninos de azul e as meninas de rosa: “Uma das vezes que me senti mesmo discriminada foi numa entrevista de emprego para uma empresa, em que a “desculpa” final para não ser contratada, dada pelo próprio dono da empresa, foi: ‘as minhas desculpas, mas não estou a ver uma senhora em cima de um escadote a passar cabos’. Nas restantes vezes que possa ter havido alguma discriminação pelo género, o essencial foi manter a posição e ser persistente”, lembra Joana, não se deixando abater muito com a questão.

Mas se alturas houve em que ser mulher a fez ser olhada de esguelha, outras houve em que o género rolou a seu favor. O que não deixa de ser discriminação: “Ser mulher teve também as suas vantagens. Tempos mais tarde, enquanto gestora de alguns projectos - mas nesse caso poderia dizer-se que era eu a chefia - consegui sempre manter o respeito e fazer com que se atingissem os objectivos propostos. Às vezes com alguma luta, mas foi possível. Julgo que por ser mulher, quase não havia aquela tentação de tentar “alterar” ou negociar os termos dos objectivos. Aí julgo que posso considerar que ser mulher era uma carta na manga".

Mas os tempos mudaram, mais de vinte anos passaram desde que Joana entrou no ramo, e a informática já não é, como tantos outros, um mundo só de homens. Uma formação adequada é a única característica necessária para se ser um bom profissional, acredita Joana Pintassilgo: “Creio que actualmente as mulheres já não são olhadas de lado ou questionadas nas suas decisões. E não só na informática, mas em todas as áreas. As mulheres hoje em dia têm formação profissional e conhecimentos suficientes para não serem discriminadas e se integrarem perfeitamente numa equipa”.

 Um mergulho no México

Não por isto, mas por muito, muito mais, Joana Pintassilgo resolveu deixar Portugal e começar uma nova vida, bem longe daqui. Vive em Playa del Carmen, na Rivieira Maya, uma das zonas mais turísticas do México, há cerca de ano e meio. Descobriu o país através de um amigo, a propósito de uma viagem para mergulho. Depois de duas viagens ao local, percebeu que era ali que queria estar. Muito havia ainda para conhecer ou viver. Além do cenário, também as pessoas, a cultura e o clima encantaram Joana e levaram-na a trocar o certo, pelo incerto. Isso e a falta de objectivos em Torres Novas, Portugal: “As pessoas e o clima agradaram-me muito. Para terem noção, seja perto de nossa casa ou em outras cidades onde não me conhecem, cumprimentam-me com um bom dia e um sorriso. Além disso, a vida de funcionária pública também já não tinha para mim grandes atractivos ou desafios. A rotina e a falta de coisas para fazer já não me preenchiam. E tenho a sensação de que se está a perder o respeito pelo outro, no continente europeu. E, claro, o clima também me atraiu! Estamos no Verão o ano todo, com uma água do mar sempre com uma temperatura maravilhosa. Com tudo isto, achei boa ideia mudar”, contou.

E a verdade é que da forma como fala, deixa em nós a vontade de mudar com ela: “A vida nesta zona do México pode ser vivida de duas formas: por um lado a cidade é muito rica em diversão, lugares para comer, discotecas. Tudo muito turístico. Depois há um lado mais típico e frequentado pelos locais, onde se tem acesso aos pratos mexicanos, legumes, frutas maravilhosas típicas da região. Quando se se faz uma vida de turista, por mais dinheiro que se ganhe vai-se estar sempre a gastar muito. Vivemos aqui uma vida tranquila, desmaterializada, deixámos tudo o que podíamos e consideramos supérfluo ainda em Portugal. Temos sem dúvida uma vida muito mais calma e com muito mais qualidade”, conta Joana Pintassilgo.

Uma vida com mais qualidade e com outro ritmo: “Mas para fazer as coisas acontecer, uma reunião de negócios, ou o simples tratar de um documento, aqui a realidade é outra. Ao início foi bem difícil de nos adaptarmos, marcam-se as coisas para daí a um mês, adia-se para outro tanto tempo e arrasta-se até haver algo em concreto. Se precisas de um documento de um organismo público, esquece, é preciso uma dose muito grande de paciência, porque vamos lá 10 vezes só para obter informações. É tudo “hecho despacio”.

As rotinas, essas, ficaram em Portugal: “Aqui não temos rotinas. Todos os dias são diferentes, ou há trabalho no exterior e passamos o dia todo fora, ou há o trabalho que tem de ser feito em casa. Depois há alturas em que não há trabalho e pode dar-se um saltinho à praia. Isto porque trabalhamos por contra própria, claro. Aqui somos donos do nosso tempo”.

I.V.

 

 

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