O Cubo - josé ricardo costa
Opinião
» 2023-09-24
» José Ricardo Costa
Como Garrett, resolvo viajar pela minha terra, não para subir o Tejo, mas para descer o viaduto rumo à avenida, o que só por si já é uma viagem que mistura três épocas distintas: a viril Idade Média, a ruralidade do século XIX e o urbanismo do século XX.
Descido o viaduto, e atraído pela mancha verde do jardim, entro nele para rever o busto de Carlos Reis, ficando contente por ainda não ter sido decapitado pelo Robespierre cá da terra, se bem que, graças ao seu apelido, isso o levasse a entrar no restrito clube de outros ilustres decapitados como Carlos I, Luís XVI ou Eduardo VIII, embora este último num sentido mais fofinho, uma vez que se tratou só de perder a cabeça por uma americana.
Mas também surpreendido pela presença de um enorme cubo mesmo nas barbas do pintor, num dramático frente-a-frente a fazer lembrar os duelos entre Django e Sartana, Cassius Clay e George Foreman, ou João Galamba e Frederico Pinheiro. Ainda com a cabeça meio entorpecida com a descoberta, não resisto a matutar sobre a razão de ser daquele cubo num território tão bem marcado pelo pintor como se de um gato se tratasse, neste caso não com o cheiro, mas com o arejamento espacial do sítio.
Já desesperado com o silêncio da resposta, foi então numa remota circunvolução da meu cérebro que consegui, uma espécie de golo no último minutos dos descontos, vislumbrar a única coisa que pode ter acontecido, só pode, foi alguém descobrir uma corrente artística muito moderna chamada cubismo, certamente criada por um checo chamado Rubik, pensando assim dar ao local um requintado toque de modernidade, embora temperada com umas frases dignas de um romance de Paulo Coelho ou do livro de Religião e Moral da 4ªclasse, que talvez fizessem mais sentido junto às oliveiras dos Pastorinhos.
E se cubismo pede cubos, tudo o que é cubo será cubista, isto claro, segundo uma lógica mais cubista que aristotélica, incubada num obscuro cubículo da mente de quem o pensou. Nada melhor, pois, que uma peça digna de uma coleção Berardo, algo assim tão moderno como as Brillo Boxes de Andy Warhol, que por sinal era de origem checa como o próprio Rubik, criador do cubismo.
Verdade seja dita, primeiro estranha-se. Mas depois lá se vai entranhando, possibilitando mesmo um desafiante duelo entre dois mundos distintos, o de Carlos Reis e o do cubo cubista. Carlos Reis foi um artista conservador que, mesmo estando em Paris num tempo de grandes convulsões artísticas, parece nunca ter saído de Torres Novas, não sei se com base naquela ideia de que quem dá o que pode a mais não é obrigado, ou se por opção artística. Até Sorolla, ou os nossos Columbano, Silva Porto ou Henrique Pousão - os quais aprecio bastante - que nada inovaram, foram mais longe que Carlos Reis.
Pronto, é neste sentido que o duelo entre Carlos Reis e o cubo cubista se afigura estimulante, ainda para mais numa avenida toda ela clássica entre o jardim e o Virgínia. O monumento ao bombeiro é clássico, a escultura do dr. Alves Vieira é clássica, o busto de Carlos Reis é clássico, e não me venham dizer que, pela sua ousadia, a vulva é moderna. Lembro que A Origem do Mundo, de Courbet tem mais de 150 anos, estando a de Torres Novas apenas mais centrada na origem propriamente dita e em versão depilada, aqui sim, mais de acordo com as tendências contemporâneas.
O século XVII viu nascer uma importante discussão, conhecida como Querela entre Antigos e Modernos, entre os que defendiam a superioridade da cultura clássica e os que defendiam tendências modernas, como foi o caso de Charles Perrault, pai do Capuchinho Vermelho e do Gato das Botas. É neste sentido que lanço aqui o repto ao estimado Jorge Simões para que, sem obviamente cortar relações com D. Afonso Henriques e a Tarambola, passe também por ali de vez em quando para ouvir o que dirão o conservador Carlos Reis e o cubista cubo, no que presumo ser uma acesa discussão.
E se é da discussão que nasce a luz, pode ser que esta ainda venha a acender-se na cabeça de quem se lembrou de ali pôr o artístico poliedro, o qual, não estando ao nível do solo, nem sequer serve para os cães alçarem a pata para marcarem o território.
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O Cubo - josé ricardo costa
Opinião
» 2023-09-24
» José Ricardo Costa
Como Garrett, resolvo viajar pela minha terra, não para subir o Tejo, mas para descer o viaduto rumo à avenida, o que só por si já é uma viagem que mistura três épocas distintas: a viril Idade Média, a ruralidade do século XIX e o urbanismo do século XX.
Descido o viaduto, e atraído pela mancha verde do jardim, entro nele para rever o busto de Carlos Reis, ficando contente por ainda não ter sido decapitado pelo Robespierre cá da terra, se bem que, graças ao seu apelido, isso o levasse a entrar no restrito clube de outros ilustres decapitados como Carlos I, Luís XVI ou Eduardo VIII, embora este último num sentido mais fofinho, uma vez que se tratou só de perder a cabeça por uma americana.
Mas também surpreendido pela presença de um enorme cubo mesmo nas barbas do pintor, num dramático frente-a-frente a fazer lembrar os duelos entre Django e Sartana, Cassius Clay e George Foreman, ou João Galamba e Frederico Pinheiro. Ainda com a cabeça meio entorpecida com a descoberta, não resisto a matutar sobre a razão de ser daquele cubo num território tão bem marcado pelo pintor como se de um gato se tratasse, neste caso não com o cheiro, mas com o arejamento espacial do sítio.
Já desesperado com o silêncio da resposta, foi então numa remota circunvolução da meu cérebro que consegui, uma espécie de golo no último minutos dos descontos, vislumbrar a única coisa que pode ter acontecido, só pode, foi alguém descobrir uma corrente artística muito moderna chamada cubismo, certamente criada por um checo chamado Rubik, pensando assim dar ao local um requintado toque de modernidade, embora temperada com umas frases dignas de um romance de Paulo Coelho ou do livro de Religião e Moral da 4ªclasse, que talvez fizessem mais sentido junto às oliveiras dos Pastorinhos.
E se cubismo pede cubos, tudo o que é cubo será cubista, isto claro, segundo uma lógica mais cubista que aristotélica, incubada num obscuro cubículo da mente de quem o pensou. Nada melhor, pois, que uma peça digna de uma coleção Berardo, algo assim tão moderno como as Brillo Boxes de Andy Warhol, que por sinal era de origem checa como o próprio Rubik, criador do cubismo.
Verdade seja dita, primeiro estranha-se. Mas depois lá se vai entranhando, possibilitando mesmo um desafiante duelo entre dois mundos distintos, o de Carlos Reis e o do cubo cubista. Carlos Reis foi um artista conservador que, mesmo estando em Paris num tempo de grandes convulsões artísticas, parece nunca ter saído de Torres Novas, não sei se com base naquela ideia de que quem dá o que pode a mais não é obrigado, ou se por opção artística. Até Sorolla, ou os nossos Columbano, Silva Porto ou Henrique Pousão - os quais aprecio bastante - que nada inovaram, foram mais longe que Carlos Reis.
Pronto, é neste sentido que o duelo entre Carlos Reis e o cubo cubista se afigura estimulante, ainda para mais numa avenida toda ela clássica entre o jardim e o Virgínia. O monumento ao bombeiro é clássico, a escultura do dr. Alves Vieira é clássica, o busto de Carlos Reis é clássico, e não me venham dizer que, pela sua ousadia, a vulva é moderna. Lembro que A Origem do Mundo, de Courbet tem mais de 150 anos, estando a de Torres Novas apenas mais centrada na origem propriamente dita e em versão depilada, aqui sim, mais de acordo com as tendências contemporâneas.
O século XVII viu nascer uma importante discussão, conhecida como Querela entre Antigos e Modernos, entre os que defendiam a superioridade da cultura clássica e os que defendiam tendências modernas, como foi o caso de Charles Perrault, pai do Capuchinho Vermelho e do Gato das Botas. É neste sentido que lanço aqui o repto ao estimado Jorge Simões para que, sem obviamente cortar relações com D. Afonso Henriques e a Tarambola, passe também por ali de vez em quando para ouvir o que dirão o conservador Carlos Reis e o cubista cubo, no que presumo ser uma acesa discussão.
E se é da discussão que nasce a luz, pode ser que esta ainda venha a acender-se na cabeça de quem se lembrou de ali pôr o artístico poliedro, o qual, não estando ao nível do solo, nem sequer serve para os cães alçarem a pata para marcarem o território.
A educação das massas
» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A esquerda tem uma explicação para a viragem à direita que tem assolado a Europa (e não só): a culpa é da governação da direita moderada que leva as massas, frustradas nas suas expectativas, a aderir ao discurso populista da extrema-direita. |
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades?
» 2026-08-08
» António Gomes
As justificações que o presidente da Câmara de Torres Novas tem apresentado para as dificuldades da governação local prendem-se, sobretudo, com a herança que encontrou. “Estou a resolver casos com 20 anos e mais, se querem saber quais perguntem-me que eu digo. |
Caderneta completa
» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente. |
Leituras de férias
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Agosto, tempo de férias para muitos. Não tanto para mim, pois cheguei àquela fase da existência em que todos os tempos são de férias. Deixo, porém, algumas sugestões de leitura. Comecemos pela mais surpreendente. |
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
» Carlos Paiva
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
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Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança?
» 2026-06-20
» António Mário Santos
Tenho, no ano que corre, seguido com a maior atenção as sessões públicas, quer do executivo camarário, quer da Assembleia Municipal, algo que nunca fiz nas duas últimas décadas. A maioria absoluta do Partido Socialista, no município, criara uma mentalidade de arrogância autoritária, geradora, por um lado, dum distanciamento entre governantes e governados, e, por outro, na formação duma coorte de lambebotismo acéfalo, cujos interesses próprios ou familiares assentavam na oportunidade de emprego nos quadros do pessoal municipal, nas bem aventuranças de subsídios, na aprovação de projectos de obras nunca bem clarificados, em festas e publicidade a esmo, num despesismo rotineiro não fiscalizado, que deixava um rasto de dúvidas sobre a legalidade de muitos actos de gestão. |
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» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
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» 2026-08-08
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