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Maçã podre

Opinião  »  2010-07-08  »  Denis Hickel

Escreveu Vasco Pulido Valente (in jornal Público, de 03/07/2010): ”Quando falamos de Portugal (a propósito de economia, de política ou de futebol) esquecemos sempre o Portugal de que falamos”.

A selecção de Portugal, depois de uma fase de apuramento que se mostrou decepcionante, foi participar no campeonato do Mundo de futebol na África do Sul com uma fasquia muito alta, fixada com a responsabilidade maior da generalidade da Comunicação Social, com particular destaque dos jornais desportivos e das televisões, que transmitiram a ideia, errada, junto dos portugueses de que a selecção portuguesa tinha condições para disputar a final e, até, conquistar o campeonato do Mundo.

Tem razão Pulido Valente. Amiúde, fala-se de Portugal sem se ter a noção exacta do que é o País, da sua raiz cultural, da sua organização, da racionalidade dos organismos dirigentes, das suas capacidades e das condições que tem em competir com países que reúnem um potencial muito acima das nossas possibilidades, a todos os níveis. A nível do futebol, mais parece uma feira de vaidades. Explora-se, com técnicas sofisticadas de comunicação, a emoção daqueles que gostam duma modalidade que move milhões de pessoas pela beleza do jogo e pela incerteza que encerra. Mas os portugueses não têm culpa disso. Fazedores de opinião criam ilusões na população e depois surge a frustração dos iludidos. Os mesmos arranjam culpados, na maior parte das vezes sem razão, sem perceberem exactamente as verdadeiras causas.

Agora que a selecção regressou, depois de eliminada nos oitavos de final pela poderosa selecção espanhola, surgem as fortes críticas daqueles mesmos que exigiram feitos extraordinários à selecção nacional sem que, previamente, tivessem o cuidado de avaliar serenamente o futebol português em comparação com o futebol de outros países que, já se sabia antecipadamente, têm demonstrado e espalhado pelos estádios sul-africanos qualidade futebolística incomparavelmente melhor que o futebol português, mesmo com jogadores brasileiros naturalizados e em fim de carreira, como são os casos de Deco e Liedson, a que acresce Pepe convocado depois de estar seis meses sem competir, numa decisão que não encontra qualquer explicação razoável.

Um campeonato do Mundo de futebol é uma prova muito exigente. Só as selecções mais bem preparadas e com enorme potencial futebolístico poderão aspirar a lugares de destaque numa competição de curta duração. Acresce, por outro lado, a circunstância de se disputar num período que coincide, pouco tempo depois, dos términos dos campeonatos dos vários países intervenientes, em que os jogadores se mostram numa condição física já bastante desgastada, que só planos de recuperação bem pensados, no tempo adequado, poderão repor alguns níveis físicos dos atletas.

Agora que terminou a participação da selecção nacional, não vale a pena chorar pelo leite derramado. Selecções mais poderosas – França, Inglaterra, Itália, Brasil, Argentina - também foram cedo para casa. O futebol é isto, com ou sem erros de quem o dirige, com ou sem prejuízos resultantes de arbitragens que nos são desfavoráveis.

No fim-de-semana último, a notícia surgiu bombástica: Os direitos desportivos do grande jogador João Moutinho, formado e jogando a alto nível no Sporting Clube de Portugal, foram adquiridos pelo Futebol Clube do Porto, na maior transacção de sempre em Portugal, pela módica quantia de onze milhões de euros, que o Sporting encaixa para reforçar a sua tesouraria. Negócio que os adeptos do Sporting não entendem.

As especulações foram muitas no seio da Comunicação Social. Comentadores desportivos fizeram declarações despropositadas sobre este negócio sem terem conhecimento factual dos contornos das negociações. Sabia-se que existia um mal-estar entre João Moutinho e os dirigentes do Sporting que já vem de longe. Pinto da Costa manifestou, há tempos, que nutria admiração pelo jogador. E o negócio fez-se. Com a indispensável anuência da direcção do Sporting. Cujo presidente justificou, para os seus sócios e simpatizantes, que se tratava de uma ”maçã podre” que teria de sair do clube. Falta ouvir o jogador, que ainda nada esclareceu até esta altura. Talvez se faça luz.

 

 

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