A melhor opinião
Opinião
» 2017-11-14
» Carlos Tomé
"A informação tem que ser dinâmica, tipo Big Show Sic com macaco Adriano e tudo"
Olha lá, não estou nada de acordo quando eles dizem que têm a melhor opinião. Melhor opinião em quê? Há melhores e piores opiniões? Ou há só opiniões? Para além de estarem a puxar lustro aos galões, toda a gente sabe que a melhor opinião é a do Marques Mendes, o grilo falante, o tipo sabe as calhandrices todas do PSD e casca na geringonça à má-fila que até dá gosto.
Mas eu gosto mais é do José Rodrigues dos Santos. O gajo é que a sabe toda, escreve uns livros que ninguém lê mas toda a gente compra para encaixilhar lá na estante ao pé da fotografia do Papa e do Dan Brown, farta-se de ganhar dinheiro com o negócio e ainda manda uns bitaites à socapa ou franze o sobrolho que é o mesmo.
Mas esse não dá opiniões.
É tudo a mesma coisa, as notícias são torneadas à medida de quem as promove e depois os comentadores limitam-se a meter mais umas achas na fogueira.
Mas isso não são opiniões.
São, mas disfarçadas, são a continuidade a favor do vento que é encomendado para soprar para um certo lado. Dantes ainda havia o vento de leste, agora é um furacão que vem lá das américas e leva tudo à frente, como o Catrina, e isso põe toda a gente a usar a cachimónia da mesma maneira como se só houvesse um sentido para tudo.
Talvez seja isso. Então onde é que estão as melhores opiniões, outras palavras para além do óbvio, como naquele caso do caso do bispo do Porto, arranjou um advogado ainda pior do que ele, que condenou aquela tipa que andava a pôr os cornos ao marido e teve sorte em não ser lapidada? Não ouvi ninguém pegar naquela coisa de a Bíblia determinar que a mulher adúltera devia ser punida com a morte, que é uma coisa espantosa, e sobre a importância disso para a nossa vida.
Isso é verdade, se calhar a malta devia passar um bocadinho mais de tempo a pensar nas coisas em vez de ir logo a correr mandar umas bocas no facebook e passar o dia a meter likes e a tirar fotos e selfies e filmar tudo como aquele gajo que filmou um tipo a levar uma carga de porrada de três seguranças, e logo por acaso passou por lá uma chusma de malta que nem soltou um suspiro de espanto.
Está bem, mas nesse caso também se viu a importância daquela geringonça social perante a comunicação social encartada que não faz trabalho de investigação e depois vai atrás da onda, mas vê lá agora por causa de Fátima, toda a gente acha que aquilo é tabu e ninguém pode mandar uns bitaites contra isso ou sequer dizer que aquilo foi tudo inventado, marosca em que também colaborou malta de cá, bicancra, macho do petróleo e companhia. Já não digo atirar culpas à fé, mas apenas escrevinhar alguma coisita contra o embuste, viste alguém que se chegasse à frente?
Não vi, mas há coisas em que não se pode mexer, são intocáveis, como a religião e a tropa. E por falar em centenários, ainda gostava de ouvir ou ler uma opinião qualquer séria e isenta que não seja só ódio destilado e olhar vesgo, numa óbvia campanha de preconceitos, sobre aquilo que se passou lá para a Rússia há cem anos em Outubro ou em Novembro, já não sei bem, já foi há muito tempo, e sobre qual a importância histórica que isso teve para a malta de todo o mundo.
Pois, e o caso da estátua do padre António Vieira em Lisboa de cruz em riste, em pose de combate evangélico e com três criancinhas índias a tiracolo, um gajo que até escreveu uns sermões catitas mas que deu cabo dos pretos e índios e obrigou-os a aprender a rezar o terço, e o Marcelo que disse que o nosso país foi magnífico na abolição da escravatura mas esqueceu-se de se lembrar que foi o países maior traficante de escravos, mas ouviste ou leste alguém a falar nas vítimas disso tudo, nos índios, nos pretos, nos escravos ou a erguer uma estátua aos gajos?
É claro que não, mas a TV ou os jornais não podem perder tempo com essas minudências. A informação tem que ser dinâmica, tipo Big Show Sic com macaco Adriano e tudo, gente a verter lágrimas, mortos e feridos, desgraças a torto e a direito, o que mais conta é a forma como se diz, porque o que se diz já está entranhado na cabeçorra da malta. Opinião?
Olha, lembras-te do José Mattoso, o nosso maior especialista em história medieval, ter sido entrevistado na TV aqui há uns 20 anos e quando o jornalista lhe fez uma pergunta qualquer, ele respondeu que era uma questão interessante, nunca tinha pensado sobre o assunto, e pôs-se a matutar nela durante quase um minuto em silêncio?
Isso foi de mais. Claro que esse gajo nunca mais pôs os pés na TV, puseram-lhe logo uns patins. Aquilo não se faz. É proibido pensar porque o pensamento inquieta.
Está bem, mas eu gosto é dos comentadores que acham que são especialistas em tudo e cospem palpites definitivos e cagam sentenças a torto e a direito, e a gente tem que os aturar, tapando os ouvidos, fingindo que os ouve ou lê, parecendo que se está de acordo com eles abanando a cabeça, mas depois faz-se como o Mattoso, remetemo-nos ao silêncio.
Pois, se calhar essas é que são as melhores opiniões, as que não se ouvem nem leem e provocam o silêncio e ao mesmo tempo inquietação.
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A melhor opinião
Opinião
» 2017-11-14
» Carlos Tomé
A informação tem que ser dinâmica, tipo Big Show Sic com macaco Adriano e tudo
Olha lá, não estou nada de acordo quando eles dizem que têm a melhor opinião. Melhor opinião em quê? Há melhores e piores opiniões? Ou há só opiniões? Para além de estarem a puxar lustro aos galões, toda a gente sabe que a melhor opinião é a do Marques Mendes, o grilo falante, o tipo sabe as calhandrices todas do PSD e casca na geringonça à má-fila que até dá gosto.
Mas eu gosto mais é do José Rodrigues dos Santos. O gajo é que a sabe toda, escreve uns livros que ninguém lê mas toda a gente compra para encaixilhar lá na estante ao pé da fotografia do Papa e do Dan Brown, farta-se de ganhar dinheiro com o negócio e ainda manda uns bitaites à socapa ou franze o sobrolho que é o mesmo.
Mas esse não dá opiniões.
É tudo a mesma coisa, as notícias são torneadas à medida de quem as promove e depois os comentadores limitam-se a meter mais umas achas na fogueira.
Mas isso não são opiniões.
São, mas disfarçadas, são a continuidade a favor do vento que é encomendado para soprar para um certo lado. Dantes ainda havia o vento de leste, agora é um furacão que vem lá das américas e leva tudo à frente, como o Catrina, e isso põe toda a gente a usar a cachimónia da mesma maneira como se só houvesse um sentido para tudo.
Talvez seja isso. Então onde é que estão as melhores opiniões, outras palavras para além do óbvio, como naquele caso do caso do bispo do Porto, arranjou um advogado ainda pior do que ele, que condenou aquela tipa que andava a pôr os cornos ao marido e teve sorte em não ser lapidada? Não ouvi ninguém pegar naquela coisa de a Bíblia determinar que a mulher adúltera devia ser punida com a morte, que é uma coisa espantosa, e sobre a importância disso para a nossa vida.
Isso é verdade, se calhar a malta devia passar um bocadinho mais de tempo a pensar nas coisas em vez de ir logo a correr mandar umas bocas no facebook e passar o dia a meter likes e a tirar fotos e selfies e filmar tudo como aquele gajo que filmou um tipo a levar uma carga de porrada de três seguranças, e logo por acaso passou por lá uma chusma de malta que nem soltou um suspiro de espanto.
Está bem, mas nesse caso também se viu a importância daquela geringonça social perante a comunicação social encartada que não faz trabalho de investigação e depois vai atrás da onda, mas vê lá agora por causa de Fátima, toda a gente acha que aquilo é tabu e ninguém pode mandar uns bitaites contra isso ou sequer dizer que aquilo foi tudo inventado, marosca em que também colaborou malta de cá, bicancra, macho do petróleo e companhia. Já não digo atirar culpas à fé, mas apenas escrevinhar alguma coisita contra o embuste, viste alguém que se chegasse à frente?
Não vi, mas há coisas em que não se pode mexer, são intocáveis, como a religião e a tropa. E por falar em centenários, ainda gostava de ouvir ou ler uma opinião qualquer séria e isenta que não seja só ódio destilado e olhar vesgo, numa óbvia campanha de preconceitos, sobre aquilo que se passou lá para a Rússia há cem anos em Outubro ou em Novembro, já não sei bem, já foi há muito tempo, e sobre qual a importância histórica que isso teve para a malta de todo o mundo.
Pois, e o caso da estátua do padre António Vieira em Lisboa de cruz em riste, em pose de combate evangélico e com três criancinhas índias a tiracolo, um gajo que até escreveu uns sermões catitas mas que deu cabo dos pretos e índios e obrigou-os a aprender a rezar o terço, e o Marcelo que disse que o nosso país foi magnífico na abolição da escravatura mas esqueceu-se de se lembrar que foi o países maior traficante de escravos, mas ouviste ou leste alguém a falar nas vítimas disso tudo, nos índios, nos pretos, nos escravos ou a erguer uma estátua aos gajos?
É claro que não, mas a TV ou os jornais não podem perder tempo com essas minudências. A informação tem que ser dinâmica, tipo Big Show Sic com macaco Adriano e tudo, gente a verter lágrimas, mortos e feridos, desgraças a torto e a direito, o que mais conta é a forma como se diz, porque o que se diz já está entranhado na cabeçorra da malta. Opinião?
Olha, lembras-te do José Mattoso, o nosso maior especialista em história medieval, ter sido entrevistado na TV aqui há uns 20 anos e quando o jornalista lhe fez uma pergunta qualquer, ele respondeu que era uma questão interessante, nunca tinha pensado sobre o assunto, e pôs-se a matutar nela durante quase um minuto em silêncio?
Isso foi de mais. Claro que esse gajo nunca mais pôs os pés na TV, puseram-lhe logo uns patins. Aquilo não se faz. É proibido pensar porque o pensamento inquieta.
Está bem, mas eu gosto é dos comentadores que acham que são especialistas em tudo e cospem palpites definitivos e cagam sentenças a torto e a direito, e a gente tem que os aturar, tapando os ouvidos, fingindo que os ouve ou lê, parecendo que se está de acordo com eles abanando a cabeça, mas depois faz-se como o Mattoso, remetemo-nos ao silêncio.
Pois, se calhar essas é que são as melhores opiniões, as que não se ouvem nem leem e provocam o silêncio e ao mesmo tempo inquietação.
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