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Mouriscas: um erro de casting - acácio gouveia

Opinião  »  2023-07-08  »  Acácio Gouveia

"Que dizer, caso um médico de família reformado se propusesse a ocupar um lugar vago de cardiologia num qualquer hospital deste país?"

“Cada mocho em seu galho”, anexim popular

 Foi notícia que o ACES do Médio Tejo recusou a oferta dum cardiologista aposentado para assumir o lugar de médico de família na extensão de saúde das Mouriscas, concelho de Abrantes, há muito carente de clínico. A indignação de autarcas e população foi a esperada. Contudo, com o devido respeito pelo compreensível desespero dos habitantes de Mouriscas e da boa vontade do colega em causa, devo dizer que a direcção do ACES tomou a decisão correcta.

Primeiro, porque quem há dezenas de anos se especializou em cardiologia alienou-se necessariamente da prática e da evolução das outras especialidades, portanto, estando totalmente incapaz para prestar cuidados com o mínimo de qualidade em tudo o que não seja cardiologia, o que aliás não é desprestígio nenhum. Que poderá um cardiologista há dezenas de anos afastado da ginecologia saber sobre o seguimento da grávida, por exemplo? Em segundo lugar, porque ficaria patente a pouquíssima importância atribuída pela tutela ao trabalho exercido pelos médicos de família, caso tivessem aceite a generosa proposta do colega aposentado.

Que dizer, caso um médico de família reformado se propusesse a ocupar um lugar vago de cardiologia num qualquer hospital deste país? E que diriam os autarcas e os doentes cardíacos, putativos utentes desse médico não cardiologista, assumindo abusivamente uma competência que não teria?

A onda de indignação levantada pela decisão do ACES é prova do ponto a que chegou o desprestígio da medicina familiar. Admitir que qualquer licenciado em Medicina, especializado numa qualquer área, seja capaz de exercer as tarefas dum especialista em medicina familiar é um erro grave, mas profundamente enraizado na opinião pública (e não só) deste país.

Um erro com duas faces: por um lado, a qualidade dos actos clínicos fica severamente comprometida; por outro, passa uma mensagem nada atractiva para os médicos de família.

Será que neste descrédito não haverá razões suplementares para a fuga de profissionais para o estrangeiro ou para a esfera privada, onde o exercício da especialidade é valorizado?

No entanto, podemos conjecturar sobre alternativas aceitáveis para estas substituições cegas dum médico de família. Em primeiro lugar, pode ser útil um especialista em medicina interna assumir o lugar dum médico de família, com a condição de a saúde da mulher e saúde infantil serem excluídas do “caderno de encargos”. Por outro lado, alvitremos que pediatras ou ginecologistas poderiam responsabilizar-se pelos utentes das respetivas especialidades, e apenas por estes.

 

 

 

 

 

 

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