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O Nhonhinhas

Opinião  »  2019-03-22  »  Miguel Sentieiro

A nonhinhisse como fenómeno social surgiu para nos pôr à prova. Entrou nas nossas vidas sem se dar por isso, mas percebemos o efeito corrosivo que tem no nosso bem estar. Um indivíduo coloca-se na fila de uma repartição comercial. Tem a senha 47 na mão e vê no ecrã que vai na 43. “é rápido” pensa. Ao fim de uma hora é recebido pelo tipo que lhe pergunta: “Tem aí a senha? Mostre e Espete aqui no prego!”. Quando sentimos o alívio pela espera terminar, somos recebidos por um contundente “Espete aqui no prego...?...”. E é aqui que surge o fiel seguidor do movimento da nhonhisse: o nhonhinhas. Estaríamos prestes a resolver o nosso assunto de forma célere, apenas queríamos uma informação, mas o nhonhinhas trata logo de nos dizer que não será nada fácil. Só com o impresso 78, com assinatura reconhecida, com a aprovação do chefe que por acaso é um bocadinho exigente nessas coisas, ou seja, as possibilidades de esclarecimento da nossa dúvida, estão ao nível da resolução do conflito na Venezuela. O nhonhinhas não facilita; o nhonhinhas cria obstáculos. Percebemos que sem esse entrave do outro lado do balcão, teríamos sido recebidos meia hora antes. O nhonhinhas é portador de uma competência que visa aleijar... devagarinho. Há quem confunda o nhonhinhas com o chato. Mas o chato só chateia, o nhonhinhas escarafuncha de forma ardilosa até magoar. É disso que se alimenta o seu ego. Mas quem é de facto um potencial nhonhinhas? Percebe-se que teve uma difícil adolescência, onde imperou uma clara falta de reconhecimento social. O último a ser escolhido para as equipas de futebol, o primeiro a abrir a porta à professora de matemática. O nhonhinhas teve o mérito de não se deixar abater perante a incompreensão dos outros quando gritavam“Ó graxista!”, depois dele levar todos os dias a pasta da professora no final da aula e de lhe oferecer caixas de chocolates no Natal. Fez do estudo a sua melhor ferramenta. Ai é assim? Então já vão ver! O nhonhinhas agarrou-se aos livros, estudou para singrar e lhe permitir ter algum poder para escaranfunchar e magoar um bocadinho aqueles que não reconheceram as suas virtudes. No entanto o nhonhinhas não singrou bem o que queria; ficou ali a meio caminho. Um pouco como a bactéria da legionela que se desenvolve na humidade da canalização entre a caldeira e o chuveiro. O nhonhinhas situa-se entre a chefia a sério e os utilizadores dos seus serviços. A caldeira lança a água quentinha e a bactéria trata de se introduzir nela para cair em cima do couro cabeludo do utente e fazer-lhe a vida negra. O nhonhinhas convive bem com essa tarefa: lambe o traseiro da chefia; e usa o traseiro do utente para aplicar as suas bactérias. Sente-se ligeiramente subjugado e bastante subjugador. O nhonhinhas aspira a liderar a sério, mas falta-lhe carisma, humanismo, competência social. Mas lida bem com a sua quota parte do poder que se exterioriza na capacidade de conseguir ver a sua vítima a esbracejar e a ficar com vontade de lhe dar dois estalos. Mas o nhonhinhas sabe que não tem cara para levar 2 estalos; sente-se protegido. Usufrui de forma prazerosa do insucesso dos outros. No seu percurso de formação de personalidade, o nhonhinhas aglutina uma série de características bem vincadas, onde a cobiça assume um papel de relevo. Cresceu no meio do sucesso dos outros, facto que, na sua cabeça, aumentava a sua sensação de insucesso. Ainda não digeriu o facto da espampanante Jéssica, a sua paixão platónica com a qual nunca trocou uma palavra, ter sido apanhada enrolada com o Sandro atrás do campo da bola. Ai é assim ó Jessica?...
A proliferação de nhonhinhas está a ser feita em todos os sectores da sociedade, sejam funcionários de repartições, políticos, médicos, professores, juízes, polícias, enfermeiros, taxistas, empregados de restaurantes e até canalizadores (ai queres tubos em aço inoxidável?...então toma lá estes em pvc q’é p’ra aprenderes não te armares em Sandro!). Já existem casos de nhonhinhas que conseguiram subir pelas paredes da canalização até aos cargos do poder mais a sério e conseguiram espalhar de forma mais contundente a Nhonhisse. Podem ser nhonhões com todos os outros nhonhinhas que se encontram a meio caminho e destilar nhonhisse sem controlo, à grande.
Urge tomar medidas profilácticas no combate ao nhonhismo desde tenra idade. Como professor de Educação Física, sinto que tenho obrigações acrescidas nesse campo. Na última aula de Futebol, fui eu que fiz as equipas para evitar o embaraço de existir uma última escolha e com ela o nascimento de potenciais nhonhinhas. Quando distribuía coletes pelas equipas, ouvi um aluno dizer para o outro: Ó pá, tu vais para a baliza e é já!... Quando me virei para tentar resolver a questão, pareceu-me ouvir o guarda-redes forçado, vociferar entre dentes : Ai é assim?... Então já vais ver...

 

 

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